Qualquer desprevenido que vá a subir pela ruidosa e intransitada Rua da Madalena talvez não saiba que, tomando um atalho pela Rua do Regedor, irá dar a um microclima humano com uma energia muito particular no coração da Baixa lisboeta: a Rua de São Cristóvão. Com uma Igreja, um centro de saúde, um mini-mercado, os comércios, as habitações, esta rua mais parece uma aldeia no centro histórico de Lisboa. É que, apesar de já bastante frequentada por turistas albergados em alojamentos locais e da presença diurna de tuk-tuks, aqui habita ainda uma comunidade de locais que mantém vivos vários aspectos da antiga vida de bairro.
Teoricamente, faz parte da dita “baixa Mouraria”, mas os seus habitantes reivindicam-se orgulhosamente como sendo de “São Cristóvão”, por osmose ao nome da Igreja centenária que sobreviveu ao Terramoto de 1755.

Aqui, a erosão dos tempos não parece ter força suficiente para apagar uma história de proximidade e camaradagem – e, outras vezes, intriga e conflito – entre vizinhos, que há séculos está inscrita neste chão. Além da disposição topográfica apertada e do fechamento labiríntico das ruas – comum também a Alfama –, é a própria tradição bairrista que continua a ser teimosamente perpetuada por quem cá vive.

E ainda que tenhamos nesta rua alguns estabelecimentos direcionados para turistas – a nível dos preços e da utilização padronizada da língua inglesa –, há ainda alguns comércios especificamente locais que definem a personalidade do bairro. São conhecidos mais pelo nome do proprietário do que pelo nome oficial, como antigamente: por exemplo, o freguês dirá “vamos à Celeste tomar o pequeno almoço”. Quem está de fora não saberá que se trata do café Leitaria Moderna, já a chegar ao final da rua.
É justamente nesta rua que encontramos, logo a seguir às escadas laterais da Igreja, o comércio mais antigo do bairro – e, mais do que isso, também uma das mulheres comerciantes mais antigas de Lisboa: a Dona Laurinda e a sua drogaria – que leva o mesmo nome.
Mas não por muito tempo. Está prestes a apagar-se mais uma tradição da Baixa, com o fim da Drogaria Laurinda.

A história de amor que deu a Laurinda uma drogaria para cuidar
Um discreto sinal na montra define este lugar como uma “Loja com História”. E, uma vez lá dentro, a viagem ao passado não tarda a fazer-se sentir: mata-moscas pendurados no teto, listas de preços escritos à mão com uma caligrafia já um pouco tremida, uma balança antiga e um azulejo a avisar que não se faz fiado, encostado atrás do balcão.
Junto à porta de ferro por onde entramos, há uma pequena fotografia de Laurinda gravada em pedra – daquelas que em Alfama e na Mouraria retratam os veteranos e veteranas do bairro. Logo nos indicia que estamos perante uma centelha da memória local.

Mas o que chama mais à atenção é a jovialidade – e ao mesmo tempo a melancolia – de Laurinda.
Laurinda Sales nasceu em 1935 em Vale de Prazeres, na Beira-Baixa e veio para Lisboa com 19 anos, para casa das irmãs mais velhas, já casadas. Mas, para vir, foi uma guerra com os pais: “os antigos tinham esta mania de que os filhos mais novos eram a companhia dos pais, então não me queriam deixar vir”, começa por contar.
Ao chegar a Lisboa, empregou-se na fábrica da Philips, então no Cabo Ruivo, e especializou-se na montagem de rádios. “Era um trabalho duro, só tínhamos uns tantos minutos para verificar as peças do chassis, depois a campainha tocava e as telefonias tinham de estar prontas. Não dava tempo suficiente, iam-se acumulando os chassis todos ali ao meu lado. Por vezes, nem podia ir almoçar que já estava a tirar atraso. Dizia cá para mim: ‘ainda vou arranjar aqui uma doença’. Cheguei a pontos que os nervos às vezes eram tantos que a minha barriga até inchava”, recorda.
Alguns anos depois, num aniversário, conheceu Jaime Almeida Pinto, que viria a ser o seu marido. O início da corte fez-se segundo os preceitos da época: Jaime esperou Laurinda na paragem do autocarro, para lhe falar do seu amor; depois, começou a escrever-lhe cartas que enviava por intermédio do moço de recados para a fábrica onde Laurinda trabalhava. Pediu autorização às irmãs para frequentar a sua casa, onde tiveram os primeiros convívios, sempre debaixo de olhares vigilantes, como mandava a moral salazarista. “As minhas irmãs, como eu estava a viver lá na casa delas, parecia que o ar que me comia, não podia falar com ninguém, como não tínhamos cá os pais. Eu nunca tive namoro, nunca estive sozinha com o meu marido antes de casar.”
Jaime, nascido e criado no beco das Flores, à esquina do Largo da Achada, começou a trabalhar na drogaria aos 9 anos, em 1943. O patrão original, Adriano Duque – em nome de quem a sociedade por quotas continua hoje em dia registada – contratou-o como moço de recados. Quando fez 18 anos, os patrões ofereceram-lhe uma quota e ele por lá ficou toda a vida até morrer.
Em 1966, por ocasião da morte de um dos sócios, Laurinda deu 60 contos para ficar com uma parte da quota da drogaria. “Juntei o dinheiro enquanto trabalhava na Philips e com a costura, não queria pedir dinheiro a ninguém. Em casa fazia capas para fora. Só tenho pena de não ter ficado com nenhuma para recordação.”
Foi pouco depois do 25 de Abril, em 1974, que começou a trabalhar na drogaria com o marido.

A luta contra as grandes superfícies
Na altura, as clientes mais finas da Baixa lisboeta não saíam de casa para fazer compras, telefonavam a dizer o que queriam e as compras eram-lhes entregues em casa. Laurinda começou, por isso, a ajudar o marido na parte das entregas: “Tirei a carta e ainda hoje tenho aquele Renault 4L”.
Só depois de o marido falecer é que começou a trabalhar atrás do balcão e a gerir a drogaria sozinha – já lá vão quase três décadas. Tornou-se, desde então, numa personagem venerada no bairro e a drogaria o lugar onde “ainda vão fazendo os possíveis por vir gastar”. “Até o Goucha há uns anos veio aqui entrevistar-me”, comenta com orgulho, referindo-se a uma edição do programa Você na TV de 2015.

Os vizinhos de São Cristóvão, sempre que podem, preferem ir à “Dona Laurinda” para comprar certos produtos – como champôs, sabonetes, papel higiénico, limpa-vidros, lava-tudo, inseticida – em vez das grandes superfícies nas imediações. Muitas vezes, e ao contrário do que habitualmente se crê, porque aqui encontram preços inferiores.
Sobre este aspeto, Laurinda recorda inclusive que “em 1986, foi criada a Dropelar, a nossa cooperativa de droguistas que fundámos para conseguirmos vender mais barato que os supermercados”.
Mas nem sempre a luta pelo comércio local é sobre sustentabilidade financeira. No caso das pessoas de mais idade, estar nestes lugares de comércio é também uma forma de combate ao isolamento social, uma vez que acabam por ter sempre alguém que as vem cumprimentar. Não será raro assistir a uma “amena cavaqueira” entre mulheres de idade sentadas à porta da drogaria.

O negócio que chama gerações
Estas práticas e preocupações não são apenas o apanágio das gerações mais antigas: há bastantes jovens que querem manter esta tradição e que a incorporam nas suas escolhas pessoais e comerciais. Como Rita Silveira, habitante do bairro e jovem gerente do bar vizinho recém inaugurado, Ginja do bairro – Ponto G.
Diz que “temos de ajudar as lojas nacionais e manter a tradição e a dona Laurinda faz parte disso”. “Trata-se de vestir a camisola do bairro e ajudar os velhinhos. Nós aqui tentamos todos fazer com que as pessoas de mais idade não se sintam isoladas, fazemos todos esse papel”, conta.

A própria Laurinda, de 88 anos, reconhece que, se não fosse o facto de vir diariamente de transportes desde Moscavide, onde mora, até à drogaria – onde tem os seus hábitos e convívios já bem estabelecidos –, já não estaria tão fresca de corpo e mente.
Mas esta história, pessoal e coletiva, quase centenária, está prestes a chegar ao fim.
Apesar da insistência da sua filha, que lhe repetia “ó mãe, a mãe tem 88 anos, já não pode estar ali”, Laurinda foi sempre resistindo a separar-se da sua loja. Até agora. Foi uma situação de burla que a entristeceu e a convenceu de vez a passar a loja a outra pessoa. Laurinda, na sua habitual simpatia, permitiu que um cliente “muito bem posto” entrasse para trás do balcão, como costuma fazer, para ver melhor a variedade de sabonetes que havia. Enquanto estava distraída, ele terá aberto a gaveta onde costuma guardar a carteira e roubado o dinheiro e o cartão Multibanco.
No entanto, nem ela nem os vizinhos estão conformados com a situação. “Se fico em casa começo a andar como as outras da minha idade, tudo assim com a bengalinha na mão. Passam a vida sentadas a ver a televisão, ficam marrecas porque a coluna está fraca. Tenho tanto medo de ficar assim”, confessa.
Já os vizinhos insistem que terá de continuar a vir ao bairro pelo menos uma vez por semana, porque aqui continuará a ser a sua casa. “Vou ter muitas saudades de todos”, reconhece. Mas voltar aqui e ver a sua drogaria transformada noutra coisa, isso não tem a certeza se será capaz.
Os novos inquilinos da antiga drogaria

Pedro Monteiro, mineiro de 39 anos e futuro comprador do espaço, vive no bairro há 10 anos e é o proprietário do restaurante Tasca Baldracca. “A minha segunda casa em Lisboa foi aqui no Largo dos Trigueiros. Sempre tive uma paixão muito grande por essa rua, sempre quis abrir um negócio aqui”, avança.
Apesar das várias propostas que recebeu, a “dona Laurinda” deixou-se convencer pela sua simpatia. “Muita gente da rua está contente que seja eu que fique com a loja”, comenta. O trespasse está previsto para o início do próximo ano: “Ela ainda tem umas coisas para vender, eu também não quero pôr pressão para que ela saia”.
Quanto ao tipo de comércio que lá será feito, Pedro responde apenas que é surpresa.
O interior da loja tem a disposição das antigas mercearias lisboetas, com as paredes forradas de prateleiras e um balcão de madeira em forma de L com pequenas gavetas retangulares. Apesar de não continuar a existir enquanto drogaria, a loja irá manter-se como está: “Para mim, vai continuar a ser uma loja com história. O interior vai permanecer o mesmo, igualzinho, vamos só pintar as estantes com cores mais vivas e tal, mas o mobiliário de dentro vai ficar tudo como está.”
A preservação da loja, está, neste caso, assegurada pela sensibilidade de quem a compra. Noutros casos, como por exemplo o da recém-fechada Casa Pereira na rua Garret, nada já leva o traço da memória da antiga loja de cafés.
O regulamento que estipula os objetivos e critérios de elegibilidade do programa “Lojas com História”, publicado em Diário da República em abril de 2017, define-as como lojas “para as quais se exige a conservação da identidade arquitetónica e decorativa nas operações urbanísticas, nomeadamente as que visam a sua modernização ou alteração do uso”. No entanto, existe um vazio legal neste documento acerca do que se pode ou não fazer quando estas lojas fecham ou mudam de proprietário e de ramo, o que leva a colocar em questão a sua eficácia em cumprir aquilo a que se propõe.
Entre as que obtiveram o carimba de “Loja com História” na Baixa, fecharam já a Camisaria Pitta, uma das fachadas mais icónicas da Rua Augusta, a Casa Frazão na mesma rua, a Livraria Aillaud & Lellos na rua do Carmo, a Casa das Sementes Soares e Rebelo na Praça da Figueira, a Casa Pereira na Rua Garrett, entre muitas outras.
Uma vez encerradas, deixam de ter existência no site do programa da CML como se nunca tivessem existido.
O que é feito das drogarias?
Para além da Drogaria Laurinda, sobram atualmente na Baixa de Lisboa, depois do fecho da Drogaria Pereira Leão na Rua da Prata, mais três drogarias. Todas elas “Loja com História”: a Drogaria Central, a Drogaria de São Domingos e a Drogaria Oriental.
A Drogaria Central é a que ainda hoje mais se assemelha, na escolha de produtos, ao que as drogarias eram antigamente. A Drogaria de São Domingos especializou-se em produtos capilares e é conhecida por ter sido a primeira loja a comercializar produtos destinados a cabelos afro no centro de Lisboa. A Drogaria Oriental tem uma gama de perfumaria, já longe do conceito antigo.

A diferença fundamental entre estas drogarias e a de Laurinda reside em dois elementos: o elemento geográfico e o elemento humano. Por um lado, o facto de esta loja se localizar não nas artérias principais da Baixa, já muito voltadas para o turismo, mas sim neste micro-ecosistema particular, e, por outro, o facto de manter ainda a atendente e gerente de há várias décadas, fazem com que a aura deste lugar seja difícil de igualar. Os seus dias, porém, estão contados.
As drogarias são um tipo comércio em vias de extinção e, para as gerações mais jovens, o próprio conceito é difícil de entender. Historicamente antepassadas das farmácias, as drogarias começaram por ser comércios onde se vendiam ervas secas e produtos químicos, enquanto matérias primas ou já misturadas sob forma de compostos, destinados a cuidados corporais – de saúde ou estéticos – e a cuidados relacionados com o lar, ou com certos ofícios: por exemplo, o engraxador iria à drogaria comprar a sua graxa.
A palavra “drogaria” remete-nos para as transformações etimológicas que a palavra “droga” foi sofrendo. Se hoje em diz alude quase exclusivamente às substâncias ilícitas destinadas à alteração de estados de consciência, a sua acepção mais antiga remete para a palavra grega “pharmakon“, de onde derivou depois a palavra “farmácia”.
Uma droga era, então, ou um veneno ou um remédio, segundo as quantidades administradas e o tipo de combinação efetuada.
Talvez assim faça mais sentido explicar como é possível, numa drogaria, encontrar produtos tão díspares ao olho moderno como veneno para ratos, tira-nódoas, bicarbonato de sódio, creme para o corpo, lixívia, pasta de dentes, soda cáustica, limpa-madeiras, espuma para o cabelo e até vinagre-branco.

*Eunice Lemos nasceu em Lisboa em 1993. Estudou filosofia durante 6 anos entre a FLUL e a Sorbonne. Entre 2014 e 2020 fez de Paris a sua casa, onde trabalhou 4 anos numa editora feminista histórica. Regressada, trabalha em Lisboa com palavras e livros, navegando entre revisora, livreira e tradutora.

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Não ficando estupefacto, pelo o que se sucede as antigas lojas de Lisboa, cada vez mais são extintas do universo Lisboeta.
Como tal fico bastante empobrecido , já que conheço a Dona Laurinda , eu próprio quando criança e depois em idade adulta ,comprei para mim e para os meus pais , centenas e centenas de produtos dos mais variados que se possa imaginar.
Os meus parabéns a Eunice moradora também deste bairro, pelo excelente texto sobre a Drogaria da D. Laurinda.
Obrigado.
Ass:Armando Jerónimo.
Parabens ao dono do texto que me prendeu a atenção do principio ao fim e Parabéns à Dona Laurinda e a tidas as Laurindas ainda presentes na nossa Lisboa.
Apreciei enormemente este trabalho jornalístico. Tenho muita pena do que está a acontecer ao comércio local, o seu desaparecimento e doloroso para os próprios e para a comunidade onde se inserem. Lamento que sejs substituido por locais sem alma.