Em apenas meia hora, vimos dez sacos de lixo plástico a serem retirados do pontão e do molhe da Trafaria, em Almada, numa ação relâmpago. São dezenas de garrafas de plástico, restos de redes de pescas, vários cabos de nylon de todo tamanho, latas de refrigerantes, roupas velhas, dois telemóveis totalmente corroídos, um rolo de pintar parede, alcatruzes de plástico utilizados na pesca do polvo, muitos pedaços de esferovite, beatas, sacos plásticos e, num canto da plataforma de acesso ao pontão, um amontoado de lixo com fraldas de adultos sujas descartadas ali.

Por trás desta paisagem agora nova e limpa está um guardião dos mares e dos rios: o ativista ambiental Miguel Lacerda, natural de Cascais, pioneiro nas ações de limpeza da zona costeira em Portugal.

Aos 66 anos de idade, Miguel já soma mais de 40 anos a agir de forma consistente, metódica e incansável em ações de limpeza no país e particularmente em Cascais, numa iniciativa que lançou em 1981.

Foto: Rita Ansone

Quem é Miguel Lacerda, o pioneiro no mar e na terra

É filho de um mergulhador profissional, falecido durante o Campeonato do Mundo de Caça Submarina em 1959 na Sardenha, Itália. Por isso, teve de enfrentar um tabu em casa e, mesmo assim, começou a mergulhar aos nove anos de idade, sem o conhecimento da mãe.

Tornou-se mesmo mergulhador, além de velejador oceânico, veterano de uma regata à volta do mundo e de 19 travessias do Atlântico. Mas também – e este é recorde que ninguém no mundo tem – o primeiro português a mergulhar nos mares da Antártida.

Hoje, como presidente da direção da Associação Ambiental Cascaisea, toma como ofício alertar para o perigo da poluição de plásticos nos mares e rios de Portugal e de outros portos por onde passa nas suas rotas oceânicas como skipper (comandante, na gíria comum) de veleiros, com o apoio de centenas de voluntários.

Foto: Rita Ansone

Tem deixado os ensinamentos na literatura e sido premiado como guardião dos mares e rios portugueses. Autor de cinco livros, todos relacionados com o mar, Miguel Lacerda recebeu em 2009 a medalha de mérito da defesa da natureza e do meio ambiente e foi homenageado em 2013 no Dia Mundial dos Oceanos pelo Município de Cascais.

É que as aventuras de Miguel, a bordo do velho cliché, davam mesmo um livro: o ativista recorda que na década de 80, quando iniciou estas ações de limpeza, quase chegou a ser preso em Cascais por trazer lixo do mar para a terra.

Houve também episódios inusitados nesta faina de recolher lixo do mar, como quando anos atrás encontrou fardos de droga no Cabo Espichel e foi alertar a esquadra da GNR que logo suspeitou dele. “Tive de explicar muito bem que recolhia lixo do mar e que havia visto os fardos a boiar”, recorda Miguel, dizendo que aconteceu o mesmo nas Caraíbas.

Foto: Rita Ansone

Que lixo tem encontrado Miguel?

A presença de Miguel é marcante em diversos pontos na capital portuguesa desde Valada do Tejo até Cascais, onde percorre diversas enseadas, pequenos portos como a Trafaria, além de marinas e docas ao longo da margem do rio, realizando as ações de limpeza seja por iniciativa própria com a ajuda de voluntários seja por solicitação dos responsáveis dos locais.

O ativista conta que já faz este trabalho de recolha de lixo plástico nas águas desde 1998. “Seja em Oeiras, Santo Amaro, Belém, como também nos portos em Sesimbra, Açores e Madeira e mesmo em portos estrangeiros como nos Países Baixos, França, Inglaterra”, lugares onde se dedica a escalas nas suas rotas oceânicas.

“Cheguei à conclusão de que 70% do lixo é proveniente da pesca, sendo as boias de esferovite as mais problemáticas pois o esferovite degrada-se facilmente tornando-se microplástico, o tipo de plástico que mais polui os oceanos. Isto sem contar as redes que pesam até 300 quilos e enroscam-se nas rochas e grutas à beira-mar.”

Foto: Rita Ansone

Miguel explica que muito do lixo que vem dar à costa portuguesa tem origem nos Estados Unidos e Canadá.

“Já encontrei um copo que tinha impresso o nome de um bar de praia da Flórida – Ana Maria Island Beach Café – e que deve ter demorado mais de um ano para atravessar o Atlântico Norte, desde o interior do Golfo do México. Já o lixo do continente português chega à Madeira, Cabo Verde ou Caraíbas levado pelas correntes marítimas.”

Mas, durante a pandemia, Miguel Lacerda detetou um novo lixo urbano no mar. “Na baía de Cascais, onde mergulho quase diariamente, encontrava nestes anos de pandemia uma grande quantidade de luvas e máscaras!”, recorda ele. Explica que a zona interdita também ficou muito contaminada devido ao uso de  produtos químicos na higienização das ruas que, com as chuvas, escoaram para o mar causando uma mortandade de crustáceos e peixes. “Na praia da Caparica detetámos milhares de bivalves (ameijoas) mortos espalhados pela areia.”

No entanto, Miguel sabe que muito do lixo que recolhe vai acabar num aterro algures no país, apesar de colocar tudo o que retira do mar nos ecopontos designados em Algés e Cascais. “A maior parte deste plástico já não é reutilizável. O tempo e o mar degradam as propriedades do plástico e prejudicam a possibilidade de reciclagem. Não creio que seja possível usar o lixo plástico recolhido no mar para fazer produtos como sapatos, óculos etc., como apregoam certas empresas.”

E o que faz com esse lixo? “A maior parte das redes recuperada ofereço aos pescadores locais, que as remendam e voltam a usar, mas isto não quer dizer que não tornem a ser perdidas no mar outra vez.” Miguel explica que em Portugal ainda são usados alcatruzes de plástico para a pesca do polvo em detrimento dos alcatruzes de barro, que minimizariam a poluição no mar.

Mas nem tudo é sobre lixo e desperdício. Miguel tem feito grandes descobertas, lixo com História:

Foto: Rita Ansone

“Uma vez encontrei aqui na nossa costa fardos de borracha, datados da 1.ª Grande Guerra, que se libertaram dos navios afundados no canal da Mancha.”

Fraldas sujas, o terrível e comum lixo da Trafaria

“Já vim aqui três vezes este mês e encontro sempre estas fraldas sujas espalhadas pelo chão. Isto é lixo contaminado sem possibilidade de reciclagem e é da responsabilidade da Câmara local fazer a remoção adequada”, conta Miguel sobre a busca que fazia neste dia pela Trafaria.

Vídeo: cedido por Miguel Lacerda

Mas o que poderá estar na origem deste fluxo de fraldas proveniente do mar que vem dar à Trafaria?

“Creio que os mergulhadores ilegais na apanha da amêijoa, que chegam a ficar entre cinco e seis horas debaixo da água, utilizam este tipo de fraldas por baixo dos fatos de neopreno para realizar suas necessidades fisiológicas sem terem de voltar à superfície”, diz o ativista.

Pelas falésias e rochedos à beira-mar

Especialmente nas áreas de difícil acesso na costa de Cascais, Miguel chega a utilizar equipamento de montanhismo e rappel para descer e subir as falésias íngremes no Cabo Raso e na Praia da Adraga e documenta todas as ações em vídeo que partilha nas redes sociais – muitas delas deixadas na página da Cascaisea no Facebook.

Vídeo: cedido por Miguel Lacerda

“É uma faina cansativa recolher lixo de falésias com 140 metros de altura, acessíveis apenas através de trilhos difíceis, com pedras escorregadias, escarpas… Para adentrar as grutas e fendas nas rochas à beira da água o trabalho é ainda mais complicado exigindo paciência e certos contorcionismos para recolher lixo que dificilmente seria retirado dali e que só iria degradar-se ainda mais.”

Conta Miguel que já deu cabo de um joelho nestas tarefas e foi submetido a duas cirurgias.

Cascaisea, uma associação para proteger o mar de Cascais

Em 2019, Miguel Lacerda decidiu criar a Cascaisea, uma associação sem fins lucrativos que pretende agir de uma forma altruísta, voluntária e coordenada de modo a minimizar ou evitar quaisquer consequências ou danos que possam colocar em causa a vida dos nossos Oceanos. E do mar de Cascais, especificamente.

Somam já 184 ações de limpeza por ano, com o apoio de centenas de voluntários.

Ainda antes da criação da Cascaisea, Miguel lançava-se num projeto ambicioso e inédito: um estudo intitulado “O lixo marinho no litoral Oeste Sintra-Cascais 2014-2019”. Nos seis anos seguintes, ele recolheu mais de 90 mil litros de plásticos e derivados na região.

“Em apenas três quilómetros deste litoral recolhemos mais de 30 mil litros de plástico por ano”, detalha Miguel que, com estes dados quer trazer à ribalta pública a situação desta zona costeira, uma das mais estratégicas da parte oriental do Atlântico Norte.

“Ao longo de 2020, contando com a ajuda de 171 voluntários, recolhemos quase 19 mil litros de lixo ali. Para termos uma ideia do grau de poluição na costa portuguesa basta multiplicar isso por milhares de litros.”

Os voluntários deste dia, que têm ajudado Miguel nesta missão. Foto: Rita Ansone

Uma vida dedicada ao mar

A paixão pelo mar e a curiosidade pela vida marinha levaram-no ao Aquário Vasco da Gama, onde foi acolhido e iniciou uma carreira autodidata como taxidermista-dermoplasta, sendo mais tarde um dos fundadores do Museu do Mar em Cascais.

Depois da morte da mãe, começou a praticar mergulho em apneia e caça submarina e, daí em diante, não parou mais. O que veio a compensar: Miguel chegou a ser campeão nacional na modalidade.

“Entretanto, deixei a competição depois de uma espécie de alerta que recebi dos pescadores de Cascais que me apontaram a contradição de eu defender a vida marinha e estar a matar peixes nas competições.”

Foi o ponto de viragem para iniciar um processo interventivo nas questões relacionadas com o mar.

Como velejador oceânico, Miguel Lacerda somou currículo:

  • participou no circuito internacional de competição de veleiros maxiboats a bordo do maxi francês La Poste em 1992- 93;
  • foi imediato da caravela Boa Esperança na Grand Regatta Columbus Race 1992;
  • também tripulante do veleiro Portugal-Brasil 500 na Cape to Rio Race 2000, elogiado pelo skipper finlandês Ludde Ingvall, que o considerou o velejador com o melhor espírito de equipa;
  • e foi ainda boat captain do veleiro português Bigamist que conquistou vários títulos nacionais na categoria cruzeiro.

Nas suas andanças marítimas desde 1976, fez várias expedições às ilhas Selvagens, para estudo das aves marinhas, e às ilhas Desertas, para estudo e proteção dos lobos marinhos.

Foi nesta última expedição que notou que, já nesta altura, as Desertas estavam rodeadas por redes de pesca perdidas, comunicando o assunto às entidades governamentais locais que não terão dado ouvidos aos seus apelos para a conservação e limpeza da área. 

Foto: Rita Ansone

Entretanto, nos últimos anos, Miguel Lacerda encontrou os apoios necessários para continuar a sua missão, ao incluir as ações de limpeza marinha num programa de responsabilidade social corporativa da empresa Ford, que disponibilizou uma pick-up para o transporte do lixo recolhido até os ecopontos em cada região.

O barco semi-rígido que utiliza para a prospeção e recolha do lixo no mar tem o apoio da Yamaha, no âmbito do programa Clean the Sea. A gasolina e gasóleo são providenciadas pela EcoBrent (uma empresa 100% portuguesa) e a Marina de Cascais acolhe nos seus pontões o barco da Cascaisea, a associação da qual faz parte.

O barco onde o ativista tem cumprido a sua missão. Foto: Rita Ansone

É para o ambiente e pela vida marítima que Miguel não pára.

Quando terminou a caça da baleia na Madeira no início dos anos 80, Miguel foi o autor de um modelo de um cachalote de 13,5 metros para o então pequeno Museu da Baleia que, mais tarde nos anos 90, abriria as portas ao público em Machico.  Anos mais tarde, em 1984, quando ainda estava em projeto o Museu do Mar em Cascais, participou na primeira marcação de cachalotes via satélite a convite do especialista Tony Martin da Sea Mammal Research Unit, do Governo Regional da Madeira, do então Instituto Nacional de Investigação e Pescas-INIP e da EBAM Empresa Baleeira do Arquipélago da Madeira.

E, entre 1981 e 1986, realizou a identificação de golfinhos roazes através das barbatanas dorsais, com a descrição de comportamentos, no estuário do  Sado.

Miguel Lacerda tem consolidado em mar e fora dele o título de guardião.


*Nysse Arruda é jornalista especializada em náutica, autora de diversos livros sobre regatas oceânicas internacionais, fundadora e curadora do Centro de Comunicação dos Oceanos-CCOceanos – a série de palestras livestream e presenciais a abordar os mais diversos temas relacionados com os oceanos, conectando os países de Língua Portuguesa e tornando Portugal um polo de partilha de informação atualizada sobre os oceanos.


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4 Comentários

  1. Se chegou à conclusão de que 70% do lixo é proveniente da pesca, se os peixes como animais que são também têm direito à vida, e se a pesca está a destruir por completo os oceanos, porque não se investe mais na promoção da alimentação sem peixe?

  2. Sou Cascaense e agora aos 75 anos noto o quanto poderia ter feito e não fiz na labuta ( luta) diária de retirar do Mar a quantidade de desperdícios inorgânicos com o que o poluímos. Também eu fiz travessia ( e só á vela…) do Atlântico num pequeno ‘ sloop’ de 9,5 metros deixando no Peter’s Café Sport na Horta um pequeno poema a atestar o momento. ,Mas dizer que durante essa travessia apanhamos 20 sacos de 50litros com ‘ flotsam’ ( detritos a boiar) não chega para me considerarem membro a pedido da organização do Sr Lacerda. Mas aqui lhe deixo o pedido de me deixar dar-lhe toda a minha ajuda necessária numa disposição total a limpar os Nossos mares . Bem Haja o Sr Lacerda e todos quanto o ajudam !

  3. É de grande mérito a iniciativa de Miguel Lacerda, faz nos falta muito mais gente com esta coragem e disponibilidade.
    Não sei como é no mar gostaria de acreditar que 70% do lixo no mar é de origem na pesca mas carece de dados científicos, talvez o que se consiga recolher na costa, dê esta impressão, querer culpar o setor da pesca como maior poluidor marítimo seria de uma extrema injustiça.
    Eu moro numa quinta perto de Lisboa onde passa uma ribeira que desagua no rio trancão, quando tive problemas com esgotos domésticos à uns anos atrás com ajuda da brigada do ambiente GNR conseguimos resolver o problema que era de uma câmara municipal e sua empresa publico privada de gestão de resíduos líquidos, levaram uma multa, e a retaliação não deixou esperar em forma de fiscalizações.
    Com um contacto direto com a empresa envolvida conseguimos resolver o assunto de forma aceitável.
    No entanto perdi a coragem, depois de avisar a junta e a câmara municipal do problema do ECOPONTO montado por cima da ribeira onde todo lixo posto fora dos contentores que não é pouco, ir parar a ribeira, ao trancão e ao mar da palha. Não tentei mais fazer uso da cidadania e contactar as autoridades, não fossem retaliar de novo.
    Isto para não falar do lixo que vai parar nas bermas da estrada e duas vezes por ano é picado por rossadeiras e tratores para limpar as bermas do mato acumulado, seria fácil fazer uma pré colheita dos plásticos na berma da estrada com uma equipa devidamente preparada, não existe vontade política nem social para tal, estamos perante um problema sem solução que nos vai custar muito caro, sem falar das futuras gerações.
    Todo lixo plástico acaba levado ao mar pelas chuvadas o pior é que em grande parte já se tornou incolectável, por ter sido picado por empresas de limpezas de estradas ou desfeito pelo sol.
    Obrigado Nysse Arruda por este artigo.
    Karl.

  4. Falar e comentar é fácil… já se inscreveram como voluntários no Cascaisea para ajudar o grande Miguel Lacerda e restantes colegas?! Façam-no Pf , divulguem a mensagem, todos continuamos a ser poucos para limpar os oceanos! Obg

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