Ne, Helio, and Paulo. Mother, son, and stepfather are the faces behind Padaria da Né, which this year won the prize for the best "bolo-rei" (king cake) in Portugal. Photo: Inês Leote

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A “Padaria da Né” é uma casinha no canto de uma rua a subir e descer – a Rua Carvalho Araújo – na Damaia, Amadora, que passa despercebida a um olhar mais desatento. Mas os cheiros que vêm do forno chamam a atenção até dos mais distraídos. Lá dentro, é a magia que acontece nos bastidores da cozinha.

O cheiro a quente fervilha enquanto tabuleiros são empurrados e retirados dos fornos num vaivém. As mãos amassam, recheiam, polvilham. E é Hélio Esteves, filho de ‘Né’, diminutivo de Noémia Rainho, que dá nome à padaria, quem coordena esta dança.

Afinal, foi ele quem congeminou a receita que valeu à padaria este ano o título de melhor bolo-rei de Portugal no concurso promovido pela Associação do Comércio e da Indústria de Panificação (ACIP). O segredo? “É este espírito espetacular que aqui se vive”, diz ele.

A mulher de negócios, o padeiro e o pasteleiro

Tudo começou quando a vida de Noémia Rainho sofreu uma reviravolta: um divórcio. Ela, que era uma mulher empreendedora e já tivera uma loja de roupa e um minimercado, começou a reparar mais no vizinho Paulo Luís, que era o padeiro do bairro, em Mafra, onde tantos fazem pão.

“Eu nem gostava muito dele antes”, confessa Né numa gargalhada. “Achava que ele era padeiro e tinha um carro com vidros escuros e era muito vaidoso, mas olhe, aconteceu, e já estamos juntos há 15 anos”.

Deu-se o clique. Paulo, que crescera na padaria dos pais, trouxe Noémia para o negócio da família. Mais tarde, acabariam por abrir um estabelecimento dos dois: “Ele fazia o pão e eu distribuía”, recorda.

Só que entretanto surgia uma nova vontade: a de Hélio.

Quando Hélio Esteves era pequenino, aprendeu a fazer pão com a avó. “Ele sempre gostou de criar”, conta a mãe. No secundário, enveredou pela área do Desporto, na expectativa de que fosse mais “fácil”, mas lentamente começou a perceber que o caminho não era por ali.

“Na altura de escolher a faculdade, eu não pensava em Engenharia nem em nada disso, sempre gostei de coisas mais práticas”, diz ele.

Hélio Esteves decidiu que queria continuar a trabalhar na padaria que a mãe geria com o padrasto. Foto: Inês Leote

Um dia, cansado de pensar nas decisões que tinha de tomar, chegou a casa e disse à mãe: “Se te fizer feliz, eu vou para a faculdade, mas o que eu queria mesmo era continuar na padaria”. A mãe respondeu-lhe como era óbvio para ela: “Eu quero é que sejas feliz”.

O rei das iguarias

Hélio não se tornou só padeiro: meteu as mãos na massa e descobriu novas receitas, novos sabores, novas possibilidades.

“Começámos por fazer o básico dos croissants”, recorda Hélio.

Depois, veio o pastel de nata, que lhes serviu o prémio do melhor pastel de nata de Lisboa no ano passado. E qual o segredo aqui? “São os limões da zona Oeste!”, responde o pasteleiro sem papas na língua. “Como somos de lá, temos muito orgulho!”.

Hoje, o rei desta cozinha é um novo bolo-rei, essa receita mágica que Hélio inventou. De acordo com a lenda, simboliza os presentes dos reis magos ao menino Jesus: a côdea (o ouro), as frutas cristalizadas e secas (a mirra), o aroma (o incenso).

Na verdade, este bolo só terá surgido como o conhecemos na França do século XVII, no reinado de D. Luís XIV. Tudo para mais tarde ser proibido na Revolução Francesa, e até mesmo na proclamação da República em Portugal. Mas claro que todas as boas receitas resistem.

O melhor bolo-rei de Portugal é o resultado das experiências do autodidata Hélio Esteves. Foto: Inês Leote

Com vivacidade, Hélio conta como se fabrica este, especialmente: começa-se com uma massa de pão brioche que é aromatizada com bebidas alcoólicas e com uma casca de laranja, “para se dar mesmo aquele toque do bolo-rei”, e depois polvilha-se com as frutas cristalizadas e secas…

Os frutos reluzem: é o verde, o laranja, o vermelho. A abóbora, o figo, a laranja, a tangerina, a cereja, a noz e a amêndoa. E o truque está mesmo ali: nos melhores frutos, pelo menos é o que diz Hélio.

O truque tem trazido rios de gente às portas da Padaria da Né. Embora já tivesse acontecido o mesmo com os pastéis de nata, Noémia confessa: “Não estávamos à espera… É inexplicável aquilo que sentimos!”.

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Vídeo: Inês Leote

O futuro da Padaria da Né

Apesar da emoção, Noémia mantém o realismo: “Não é uma vida fácil, mas eu gosto sempre de estar em movimento!”. Afinal, é ela quem assume as rédeas do negócio: “Eu não toco na massa, mas é tudo meu, eu é que dou as ordens: ao pasteleiro, ao padeiro…”

O movimento realmente não para: a padaria abre às seis da manhã e só fecha às sete da tarde e nem de noite os padeiros descansam, com o pão a ganhar formas pela madrugada fora.

Com os prémios, a confusão aumentou: se dantes o bolo-rei só saía ao fim-de-semana, agora há dias em que se chega a fazer 300! E o bolo-rei não tirou o lugar ao pastel de nata: “Sempre que alguém leva um bolo-rei, geralmente leva um pastel de nata”, conta Né.

A afluência tem sido tanta que esta mulher de negócios já pensa em expandir a padaria, que é minúscula, mas entretanto também já chegou à Reboleira e a Odivelas. “Para o ano, o objetivo é chegar a Alfragide e Benfica”.

Já a família, essa não pensa em sair de Mafra, onde ainda vive. “Continuamos a viver em Mafra sem hesitação, o ar de Mafra é diferente”, diz Hélio.

É que se o Natal é a celebração da família, há quem o celebre do outro lado da mesa: e nesta padaria é a família quem, com simpatia e carinho, dá vida à iguaria preferida das famílias no Natal, e a esse cheirinho a pão fresco, a doces acabados de sair do forno, à Amadora.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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