Gintare Karelyte, produtora da Web Summit em Lisboa
Foto: Rita Ansone

Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Sentimo-nos sob pressão no encontro com Gintare Karelyte para a gravação e sessão fotográfica do People of Lisbon. É o dia 1 da Web Summit – apresentada como “a principal conferência tecnológica mundial” – e é justo dizer que Gintare, como uma dos produtoras do evento, está sob uma pressão ainda maior do que nós.

Este ano, a Web Summit diz ter 71.000 participantes. A razão pela qual estamos sob pressão é porque Gintare só nos pode dar uma hora do seu tempo. (Normalmente dispomos e 3 ou 4 horas).

Gintare cumprimenta-nos à entrada da área dos media no Altice Arena, que acolhe o palco principal da Web Summit. Traz um casaco de couro preto, óculos de sol Prada pretos, chapéu da moda e um sorriso radiante. Se ela está sob pressão, disfarça-a muito melhor do que nós.

“Está a correr muito bem”. diz Gintare. “O sol está a brilhar”.

Felizmente para Gintare, o sol está a brilhar. Nos dias anteriores, chiveu, o que deixaria qualquer produtor de eventos à beira de um ataque de nervos.

Então, o que faz Gintare exatamente?

“Eu sou chefe de produção. Ajudo a preparar o espectáculo. Asseguro-me de que tudo está pronto para os participantes desfrutarem”.

De repente, o walkie talkie de Gintare dá sinal de si. Para o silenciar, Gintare põe a mão no cinto, ao estilo policial cool, e carrega nuns botões. “Desculpem lá isto”, diz ela. Acontecerá uma e outra vez no nosso curto espaço de tempo juntos.

Sugiro que caminhemos e conversemos. Já gastámos 10 minutos do tempo que nos foi atribuído.

A Web Summit – uma espécie de Campeonato do Mundo Techie – é animada. Todos parecem estar em missão. Uma missão para dominar o mundo – seja em crypto ou em algumas novas soluções cloud based. Aqueles que não receberam o memorando parecem estar mais atordoados – perplexos com a escala do evento.

“É o Dia 1 da Web Summit”, explica Gintare, olhando para trás enquanto tentamos acompanhá-la. “Ontem à noite tivemos uma cerimónia de abertura, uma festa, oiti eventos à volta da cidade. Mas hoje é o primeiro dia completo”.

Pergunto a Gintare se podemos fazer um passeio pela arena principal do palco. Ela acede e nós acompanhamo-la com a câmara, passando pela segurança, até um local gigantesco que é normalmente utilizado para as extravagâncias dos concertos. Rita, a nossa fotógrafa, pergunta-se como conseguirá que Gintare abrande para que conseguir alguns disparos em consições. (As fotografias que vê aqui).

O palco principal da Web Summot é uma visão digna de contemplar – grande e bombástica, colorida e brilhante. E antes de qualquer convidado entrar em palco há um espectáculo de luz que o faz ir oooooh e ahhhhhhhh.

Enquanto Gintare faz uma pausa para admirar o cenário, Rita vê uma oportunidade para tirar algumas fotografias. Mas logo que ela se concentra, Gintare distrai-se e olha para o telefone. No fundo do auditório, o rosto de Gintare é iluminado pelo ecrã do telemóvel. Reparo na quantidade interminável de mensagens e correspondência de Gintare. Ela apanha-me a olhar. “Estou em cima do acontecimento”, diz ela com outro sorriso. Nós acreditamos nela.

Gintare Karelyte é produtora da Web Summit. A maior parte do seu tempo é passado a olhar para o telem´vel, para estar em cima de todos os acontecimentos. Foto: Rita Ansone.

Mas na cerimónia de abertura, na noite anterior, houve um drama. Enquanto o mundo técnico se conjugava na arena gigante para a cerimónia de abertura, um gigantesco micro parecia perigosamente pendurado do tecto, por cima de espectadores nervosos. Houve um breve momento de pandemónio e burburinho na audiência, com o boato de que o local teria de ser evacuado. “Foi um pouco mais louco no Twitter do que foi na realidade. Estava tudo controlado. Estou muito orgulhosa de que o espectáculo tenha continuado”.

De volta à deslumbrante luz do sol, estamos de novo a caminhar e a falar ao estilo Ala Presidencial. Gintare daria uma grande produtora de campanhas políticas, imagino. Ela mantémo pulso de tudo o que se passa à sua volta.

Põe de novo os seus óculos de sol Prada.

“Eu sou da Lituânia. Cheguei a Lisboa há 3 anos e meio para a Web Summit e por amor”, diz ela com um sorriso. Será que ainda está apaixonada? “Tenho um novo amor. Adoro o estilo de vida lisboeta. Adoro o trabalho. Adoro sair com os meus amigos e adoro jogar paddle (ténis)”.

O paddle tennis é um dos passatempo de Gintare. Ela joga semanalmente com os seus colegas da Web Summit debaixo da ponte 25 de Abril. “Torno-me muito competitiva. Quero melhorar. Estou a ter aulas”. Gintare tem a sua própria raquete e até já participou num par de competições. “É óptimo para desanuviar depois de uma semana difícil”.

Foto: Rita Ansone

O telefone de Gintare toca novamente. “Lamento ter de responder a isto”. Um minuto depois, a chamada termina. “Não há drama. Está tudo bem”. Depois de cada chamada, Gintare tem o cuidado de nos dizer que tudo está sob controlo. “A pressão é como o mar. Uma onda. Vai e vem”, diz ela imitando o mar com a mão.

Qual é o maior desafio de realizar um evento tão grande como a Web Summit? “Queria sempre que tivéssemos mais tempo para o fazer na perfeição. Nunca há tempo suficiente”, diz ela. “Temos 250 pessoas envolvidas na tarefa de fazer a Web Summit acontecer, e cerca de 6000 voluntários, empreiteiros e fornecedores a ajudar-nos também”. É uma grande organização”.

Gintare admite que só dormiu três horas na noite anterior. “Fui para a cama às duas e levantei-me às cinco, mas tudo bem. Tomamos conta uns dos outros. Temos shots de gengibre e sumo de cenoura… mas há demasiados doces… tenho de admitir”.

Entramos no Pavilhão 1 da Web Summit – um espaço enorme que acolhe stands intermináveis e pontos de encontro. “Há cinco pavilhões na Web Summit deste ano. Deviam ser quatro, mas construímos um quinto. É preciso um mapa para nos deslocarmos. Preciso de uma bússola”, diz Gintare, a rir.

Gintare avança através dos pavilhões como se agora estivesse numa corrida. É uma forte sobrecarga sensorial. Estamos genuinamente a lutar para nos mantermos a par. Começamos a sentir que a mente de Gintare está a ficar ocupada por coisas mais prementes do que esta entrevista.

Ela começa a falar-nos da ‘Night Summit’, as atividades noturnas e as super festas que acontecem para os participantes na Web Summit. Parece estar muito orgulhosa do seu envolvimento nesses eventos. “Tem de vir esta noite. Estamos na Pink Street. Vamos prolongar a Pink Street por 170 metros”. Vê-se na sua cara que está entusiasmada com a proeza de estender a famosa rua festiva de Lisboa.

Estamos agora de pé numa espécie de túnel rosa, ao estilo Willy Wonka. Gintare está de novo a olhar para o telefone. Pedimos-lhe três dicas para ser uma boa produtora. “Bons sapatos, boa dieta e bom sentido de humor. Dizem que é uma das profissões mais stressantes do mundo”.  “É preciso ser capaz de gerir bem o stress”.

Gintare vê-me a filmá-la enquanto ela fala ao telefone. “É confidencial”. Ora, vá lá. “É confidencial”, diz ela com uma gargalhada a tentar fugir à minha câmara.

Enquanto andamos, Gintare vira-se para nós: “Por que estão mais stressados do que eu?”

Estamos stressados porque sabemos que o nosso tempo está quase no fim, não sabemos se temos material suficiente, e como estamos a andar depressa, temos tentado não tropeçar. Não dizemos nada disto a Gintare.

Chegados a um grande auditório, onde está prestes a acontecer uma conversa, Gintare parte-nos o coração… “Desculpem, tenho mesmo de ir”. Olhamos para ela com resignação. Gintare desaparece na imensidão da Web Summit e nós ficamos como dois cachorros perdidos.

Qualquer que seja o drama com que Gintare se tenha confrontado, conseguiu resolvê-lo. Como nós esperamos ter conseguido este artigo. Um produtor produz. Sempre.


Parceria com o projeto People of Lisbon.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *