Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Há muitos anos, o Vizela jogou não sei contra quem e viemos os três para baixo. Íamos ver o jogo e ver como era Lisboa. Hoje, o Bairro Alto à noite ainda é o meu pai de tronco nu a comer Chocapics.

Muitas horas passei a subir e descer aquelas ruas, e só uma vez com o meu pai. Mas não há vez que ali passe e não me lembre dele: a silhueta magra – demasiado magra – contra a janela, a pequena pensão onde o sol não batia a direito, a minha alegria em pleno por estar com os meus pais. Quem o visse adivinhava logo como ele era por dentro. Tudo dentro do corpo já estava estragado, e o que lhe restava da vida era fingir vontade de viver, fingir que não sofria para acalmar a dor dos outros.

Nesse fim-de-semana, parece que ainda conseguia aguentar a vida, roubar a beleza às coisas. A partir daí, ou assim o lembro, foi o descalabro. Cada vez mais magro, extinguia-se para dentro. Durante anos, só soube o que era lembrá-lo a desfazer-se entre lençóis, cada vez mais fio de homem a desaparecer na cama. A voz era um gemido. Os sorrisos eram lábios esticados. Tentava sorrir, fingia alegria – só dava dor.

Naquele sábado, já o Vizela tinha jogado, e nós os dois éramos pai e filha a comer Chocapics. A minha mãe estava no banho. E ele ainda disse: “Ju, vou mostrar o Chiado à menina.” A voz dela soou como um alarme, mas lá fomos. Ela não podia dizer-me à frente dele para eu ter cuidado com o meu pai.

Saímos de casa, subimos a rua e, durante muitos anos, por causa dessa tarde, chamei Chiado ao Príncipe Real. O percurso, que devia tirar-nos seis minutos, tirou uns vinte ou trinta. Eu já sabia que, lado a lado, tinha de andar devagar. O corpo do meu pai não era igual ao meu. Ele sorria uma dor corajosa – e como esquecer que a Rua da Rosa foi palco de um amor igual?

Da minha parte, eu fingia que não entendia como aquilo lhe custava, e elogiava isto e aquilo para que ele sentisse que cumpria o seu papel de pai. Não podia oferecer-me em jeito de muleta, por isso dei-lhe a mão à pai e filha. Íamos juntos e eu bem sabia que assim o amparava. Ele estava feliz por me fazer feliz. Eu estava feliz por ele estar feliz por me julgar feliz.

Já no Príncipe Real, fui eu a sugerir que nos sentássemos. Na cara do meu pai, já não havia cor, da mesma forma que no corpo nem havia um músculo. Era um fato em cima de pele em cima de osso com um coração a bater por dentro. Era esse coração que eu adorava, mesmo quando a doença o comia de tal forma que ele se tornava noutro qualquer. Era o coração que lhe deixava os olhos vivos quando o resto já parecia morto há muito.

Ficámos ali sentados. Sem pressa, em frente ao cedro-do-buçaco. Eu fingi que a árvore me interessava para ficarmos ali mais tempo, mas quem quer saber da porcaria de uma árvore? Ele talvez tenha percebido que era farsa, por isso uma das nossas últimas saídas foi fingimento a dois.

Deixei que a conversa se demorasse. E, lembro-me bem, falámos do jogo do Vizela, de um livro do Garrett que eu andava a ler, de qual era a palavra mais difícil do dicionário, de como mais ninguém na turma distinguia orações subordinavas relativas restritivas de orações subordinavas relativas explicativas, de outras coisas que só aos dois interessavam. A minha mãe telefonava a cada dez minutos a ver se nenhum de nós – ele – tinha ido parar ao hospital.

O sol batia-lhe em oblíquo. Era alaranjado a bater em branco amarelado, a tarde que se extinguia em cima de alguém que forçava o que podia para fingir que a vida seria outra coisa, que amanhã seria outro dia, que amanhã ia existir no calendário, que a filha não ficaria amputada de pai antes do tempo. Eu alongava tudo, ainda que não pudesse formular coisa nenhuma. Ao tê-lo à minha frente, era improvável – impossível – que nós os três um dia fôssemos as duas.

Lá voltámos para a pensão. Devagar, mais uma vez. Como em Vizela, as pessoas olhavam volta e meia. Ele para mim era um Matusalém, mas, para quem nos via, 40 anos de homem era coisa demasiado nova para tanta velhice dentro. Irritava-me sempre que alguém lhe chamava novo, e só há pouco tempo me apercebi de que 40 e poucos não é idade para morrer.

Ao descer a rua no Bairro Alto, as pernas já estavam no limite, a mão da filha não bastou. Devagar, o meu pai apoiou-se no meu ombro, fingindo que precisar de apoio era carinho. Eu pus-lhe a mão pela cintura, fingindo também que era um gesto de ternura. Acho que sabíamos os dois que o não-dito já não deixava nada por dizer.

Já na pensão, vimos um filme que estava a dar na SIC. Demorou quase três horas e eu queria que demorasse mais porque sabia que o meu pai ia morrer. Na altura, ainda não tinha como dizer-lhe que ia ter saudades dele. Só me restava aguentar o que podia, fingir que, se estivesse atenta, cada segundo podia durar mais tempo.

Sempre que por ali passo, o masoquismo leva a melhor e espreito a janela onde vi a silhueta do meu pai. Podia evitar a dor que irrompe à vendaval, mas já se sabe que os escritores gostam de mastigar até à papa, de triturar até ao pó, e quem para além de mim se irá lembrar dos passos lentos do meu pai a subir ou descer aquela rua? Antes de ser escritora, já eu era filha que amava há muito tempo.

Lembro-me, e irei lembrar-me. Nesse dia, o Vizela perdeu, mas pelo menos viemos a Lisboa.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *