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Imagine um esconderijo secreto no coração da cidade de Lisboa, ali mesmo no Largo de São Domingos. Um lugar onde nobres, clérigos e militares se reuniam para pôr em prática esse verbo suspeito: conspirar. Mas seria preciso romper pela antiga muralha fernandina, até alcançar esse pavilhão escondido no denso arvoredo de um Palácio.

Nada disto é ficção, mas um capítulo da História de Portugal: no século XVII, foram 40 os homens a conspirar contra o domínio espanhol sob o qual se encontrava o reino. Eles, que ficariam para sempre conhecidos como os “40 conjurados”, reuniam-se no Palácio dos Condes de Almada (um dos conjurados era o nobre Antão de Almada), para depois levarem a cabo o golpe que viria a restaurar a independência no dia 1 de dezembro de 1640.

Era por detrás de um denso arvoredo que os “40 conjurados” se reuniam para conspirar. Foto: Inês Leote

1 de dezembro. O dia que, celebrado por todo o país, é sentido com ainda mais fulgor por aqueles que fazem parte da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), com sede nesse mesmo Palácio: o Palácio da Independência, um tesouro escondido no Largo de São Domingos.

Esse Palácio foi-lhes cedido na íntegra em 1980, depois de comprado pelo Estado em 1940, e depois de o terem partilhado com a Mocidade Portuguesa e, após o 25 de Abril de 1974, com os Deficientes das Forças Armadas.

Mas este é um Palácio cujo destino ficou por cumprir: em 1980, ficou acordado que ali nasceria um museu. “Gostávamos de mudar a relação da Sociedade com a cidade”, diz José Ribeiro e Castro, presidente.

Afinal, este é um Palácio onde resistem memórias do passado, como uma bandeira de Portugal que, durante a ocupação japonesa de Timor-Leste, um sargento português escondeu no campo de concentração de Maubara, ou uma bandeira do Leal Senado de Macau, a “única colónia portuguesa que não reconheceu o domínio filipino”.

Um museu no Palácio da Independência

E há esse lugar, escondido, que José Ribeiro e Castro gostaria de abrir à cidade: nas traseiras do Palácio, um jardim. No espaço adjacente, que dantes também pertenceria ao esconderijo, está agora uma “casa de fresco” mandada construir para a família Almada se refrescar. E no fundo deste jardim surgem ainda azulejos alusivos ao dia da Independência…

São azulejos que pecam por alguma imprecisão histórica.

No azulejo representativo da reunião dos conjurados, todos os homens são retratados com cabeleiras brancas, como se usava no século XVIII, e não no século XVII. “O pintor não recuou no tempo”, diz a entusiasta Ana Proserpio, responsável pelos serviços culturais da SHIP.

Já no azulejo do ataque ao Paço da Ribeira, é possível ver-se um jovem à varanda, embora se saiba que tenha sido o mais velho dos conjurados, Miguel de Almeida, então com 83 anos, quem ali acorreu. “Um Miguel de Almeida rejuvenescido!”, brinca ainda.

São espaços vedados à cidade, que ainda não foram transformados por falta de verbas. Mas o sonho continua a reverberar naqueles que participam na vida desta Sociedade.

O Dia que fundou uma Sociedade

“Dias antes do feriado, é como em vésperas de um aniversário, este Palácio fica todo virado do avesso”, diz Ana Proserpio, andando de um lado para o outro. “Esta é a data sine qua non“, sublinha José Ribeiro e Castro. “A data sem a qual nenhuma das datas existiria”.

0 1º de dezembro, que se tornou feriado em 1910, uma das primeiras medidas da Primeira República, abolido pelo governo de Passos Coelho em 2012 e reposto em 2016. “Foi a luta do pleonasmo”, diz o presidente em relação à batalha pela restituição do feriado. “A luta pela restauração da restauração”.

José Ribeiro e Castro, presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Foto: Inês Leote

Foi no século XIX que, perante um surto de discurso iberista que surgia em Madrid, um conjunto de personalidades, entre as quais Feliciano de Andrade Moura, Alexandre Herculano, Brito Aranha, Inocêncio Francisco da Silva, Anselmo José Braamcamp e José Estêvão, se uniram para formar a Comissão Central do 1º de dezembro de 1640, fundada em 1861.

Instalaram-se numa parte do Palácio dos Condes de Almada, mandado construir pela família Almada em 1467 e onde chegou a viver Almeida Garrett, e, para além da publicação de um manifesto, começaram a fazer aquilo que o presidente da SHIP apelida de “coisas do século XIX”. “Récitas, tertúlias, concursos de teatro…”, elenca.

Uma dessas peças chegou mesmo a ser premiada: um musical em que o último quadro consistia na coroação de D. João IV (o rei conhecido como “o restaurador”, o escolhido para reinar Portugal depois do golpe).

E terá sido aí que nasceu o hino da Restauração, cantado nas cerimónias do 1º de Dezembro: “Era um hino muito monárquico, a letra que cantamos hoje terá sido refeita”, explica Ribeiro e Castro.

Uma das primeiras ações da comissão passou pela recolha de subscrições populares para se erguerem monumentos em honra de figuras históricas portuguesas. Um deles foi, claro, o Monumento aos Restauradores, de 1886.

Porém, um século mais tarde, a SHIP esteve também envolvida na edificação de um monumento mais controverso: a estátua em homenagem a D. João II no Parque das Nações. “É giro que uma sociedade histórica tão antiga tenha avançado com uma estátua destas”, comenta Ana Proserpio.

Ao longo dos anos, a Sociedade tem realizado tertúlias, palestras, debates, lançamentos de livros e é muitas vezes consultada sobre matérias históricas. Neste momento, a SHIP está ainda a trabalhar com as tunas das faculdades. “A ideia é incentivá-las a cantar músicas de independência, de Portugal, de liberdade”, resume o presidente. Para que daí, um dia, resulte um cancioneiro em torno da liberdade.

Mas algo que distingue a SHIP é a celebração do 1º de dezembro. Para Jorge Campos, responsável há 22 anos pelas celebrações do Dia da Restauração, só há uma forma de o comemorar: “O 1º de dezembro é um feriado que tem de ser vivido pela nação”.

Hoje, as típicas celebrações repetem-se: é o içar das bandeiras, as cerimónias na Praça dos Restauradores, a visita ao Palácio, a assinatura do livro de honra (que foi assinado por Presidentes como Manuel de Arriaga e Bernardino Machado)…

E o momento preferido de Jorge Campos: o desfile das bandas filarmónicas nos Restauradores (serão 25 bandas, 1750 músicos). “Quando estão as bandas todas juntas, é interpretado o hino da Maria da Fonte, da Restauração e depois o hino nacional e até faz arrepiar!”, conta com emoção.

Haverá ainda uma exposição no Palácio durante o mês de dezembro, e Ana aponta para os recortes de jornais. “Esta é uma exposição que mostra a importância que a sociedade civil e os órgãos de comunicação foram dando à data”, explica.

Mas fica ainda um objetivo por realizar.

A vista dos degraus que davam para o lugar de encontro dos conjurados. Foto: Inês Leote

Subindo os degraus íngremes que em tempos conduziram à muralha fernandina (agora embate-se contra a parede de um edifício entretanto construído), é possível imaginar-se o percurso que os conjurados faziam para chegar ao espaço de reuniões e contemplar essa belíssima panorâmica que se vê sobre os degraus do esconderijo, com o Arco da rua Augusta bem visível.

É uma parte de Lisboa – e da sua História – que a SHIP quer ainda dar a conhecer. A História que é também uma esperança de vitória para o futuro, como foi esse Dia da Restauração.

“Podemos olhar para a História como uma inspiração: aquilo de que não gostamos, não repetimos, aquilo de que gostamos, melhoramos”, resume José Ribeiro e Castro.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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