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A beata que no Dia de Todos os Santos escreve poemas aos fetos abortados

Vista à distância, parece normal, mas eu lembro-me de ter feito uma cadeira de Estudos Portugueses com ela. Não leva sequer uma cruz ao peito, nada que leve alguém a achar que julga que uma mulher engravidou virgem, que um homem se levantou depois de morto e voou em direcção à luz.

Quando abre a boca, as vogais demoram-se numa afectação desnecessária. Nos tempos livres, organiza encontros de jovens que querem evangelizar pretos em África ou faz angariações de fundos para pagar cabazes a quem se dirige a uma clínica para interromper uma gravidez indesejada. No dia 1 de Novembro, chora a morte de quem não nasceu por ser muito sensível e ter muito boas intenções e estar tão cheia de bondade e comiseração por inocentes.

Chama-se Carminho, foi para a cama com dois ex-namorados, não casou com nenhum, o pecado só existe quando é feito pelos outros. Sabe que os gays existem e diz que não tem nada contra eles, só contra serem gays. E, claro, sonha casar mesmo à antiga. Ir à igreja com o noivo, sair de lá com um nome que não é o dela, tal qual escritura de uma casa, desistindo do que foi até então, e aí mudar-se para a casa dele, que se chamará Martim ou Lucas ou Vicente e terá morada em Campo de Ourique, Alvalade ou Belém.

Só aí será hora, dirá ela, de estrear os lençóis, ainda que tenha estreado outros com o Afonso e o Lourenço, agora com três filhos cada um. A partir desse dia sagrado, os contraceptivos serão pecado, que o corpo existe para procriar e a voz para espalhar pelos filhos tudo o que diz na Bíblia.

O beto de calça bege e sapatinho

Ali perto da Carminho, mas sem lhe falar, segue o Sebastião Maria. A coisa entre os dois deu para o torto há muitos anos porque o pai de um se meteu na Opus Dei. Achou mal que o outro não se metesse também e a partir daí foi ver os beatos em conflito. Se um dizia “herege”, o outro chamava “ganda parvo”.

Os filhos, ainda adolescentes, deixaram de se dar. Já se davam pouco, que isto de falar com outro sexo exigia muita coisa. Ela na escola com católicas, ele com católicos, e as hormonas diferentes como mistério insondável.

O Sebastião Maria, bem se vê, sente algum desprezo pela Carminho, que tem 29 anos e ainda está por casar. De calça bege e sapatinho, fala ao telefone. Primeiro, parece-me, com um amigo qualquer, fala de quem tem à espera em casa. Diz mulher em vez de esposa e, descubro na chamada seguinte, trata-a por você. Que bem que você está, minha querida. A voz sempre anasalada, o tom sempre de quem é só pompa e circunstância. Em público, é um arauto da heterossexualidade, mas, Deus me perdoe por dizê-lo, sempre me pareceu que era gay.

O freak das rastas sem champô

Mal vê o Sebastião Maria, e se o vê olha-o com desprezo. Ali segue o Pedro, cujo nome não diz nada. Dele, sabe-se só que gosta de fingir que é pobre. Outrora, foi liberal, depois curou-se. Se para melhor ou pior, é difícil saber.

De heterossexual empedernido, virou omnívoro no espaço de um semestre da faculdade. Literalmente no espaço, atrás de um pavilhão. Em vez da NOVA Business School, como os primos, meteu-se na FCSH, e foi então que a coisa deu para o torto. De um dia para o outro, começou a escrever com arroba, depois com x, depois com terminações -es, e daqui a uma semana ressuscitará os hieróglifos e dirá que quem não os usar é gordofóbico.

Não trabalha, os pais pagam-lhe um apartamento nas Avenidas Novas, tem sempre que dizer sobre a especulação imobiliária, dedica-se à investigação científica a sós (estuda antropologia, vejam lá), e acha muito mal o privilégio, apesar de se cobrir dele.

Cobrir, mas não vestir. Não contem com botinha Massimo Dutti, polozinho da Lacoste. Em cima do seu corpo suado, que começou a achar um banho uma imposição burguesa, só há trapos largos com alergia a detergente. É fácil reconhecê-lo por causa das rastas. Tem-nas não por estilo, mas porque não mete um pente no cabelo há vários anos.

A miúda que desistiu dos sonhos logo no primeiro mês

É a Joana. Coitada, veio cheia de vontade do glamour da capital, acabou a dividir quarto numa lavandaria transformada, num T3 sem sala onde vivem dez pessoas. Sonhou com conversas noite dentro com uns intelectuais quaisquer, mas acaba as noites a estudar no McDonald’s.

Em Viseu, acreditava que a vida em Lisboa seria como nos filmes. Os filmes, essa é que é essa, passavam-se todos em Nova Iorque, e a Nova Iorque de Hollywood não é a mesma que a da vida. Ninguém luta pelo espaço, ninguém sofre o aborrecimento de não conhecer ninguém. Tudo é vida e magia, os amigos brotam das pedras, casos de uma noite também, e que dizer do amor da vida inteira? É só sair da padaria e cair nele. Assim é na Nova Iorque do ecrã, assim era Lisboa antes de a Joana meter aqui os pés.

Assim que chegou, foi Lisboa a sério: senhorios carniceiros e sombrios, colegas de casa desarrumados e sujos, gente na rua a enganá-la a torto e a direito, pura indiferença para com quem chega.

O senhor do café não lhe dá um sorriso, ninguém lhe pergunta como está. Não se fez amiga de um Sá Carneiro nem de um Fernando Pessoa. Ninguém vive com ela lado a lado nesta montanha-russa que é Lisboa. O tipo de montanha-russa é outro e aqui está ela a apanhar o comboio até Roma-Areeiro, onde apanhará o metro e depois um autocarro para ir para a Faculdade.

Imaginou Harvard, levou com o ISCSP. Fica no meio do monte, perde a vida em transportes, e às vezes chove-lhe em cima. Em casa, aquece o que sobrou do quilo de massa que cozinhou há dois dias para poupar tempo.

O trepador social

Tem três nomes e um ar sério, quase austero. O rapaz saltou do ISEG para uma secretaria de Estado e a partir daí mudou de amigos. Ainda os vê de vez em quando, acena-lhes à distância. Eles não entendem a pressão da vida dele, ele não suporta a lassidão das deles.

Agora, acha mais graça às noites no Lux com os novos do jet set. Votou contra a legalização das drogas leves, mas adora cocaína. Diz que tem de se hidratar, mas bebe água só para afogar as drogas.

Tem o ar presunçoso de quem chegou aonde queria, mas falta-lhe alegria, noites na cama, satisfação plena. Sobretudo, falta-lhe um amigo que goste dele mesmo sóbrio. As conversas passam de projectos-lei para o momento em que vai meter mais uma dose, e tudo é velocidade, indecência, intensidade. Não dá é para perder nada, seja o estado do país ou mais uma noite acordado.

Vai no comboio a ler um dossier qualquer e nem lhe vejo os óculos Ray-Ban, só as olheiras pretas. Tão novo para tanto sono, tão velho para tanto cansaço. Vai fritar da cabeça em poucos meses, o Lux continuará cheio dos “amigos”, os ex-amigos nada farão por ele, afastados que estarão pelo prefixo.

O analista financeiro

Quando chega, toda a gente dá por ele. Calças de fato, camisa boa, sapatos, blazer faça sol ou chuva. Tem menos barba do que eu. Todas as manhãs, raspa a pele da cara como um maníaco, nem um só pêlo sobrevive à chacina.

Depois, nas férias, já se sabe: bandalheira total. Veste uma porcaria de um pólo qualquer que comprou na Tommy Hilfiger ou na Sacoor, mesmo só para estragar, e durante uns dias posa para as fotos sem ter feito a barba. Sinceramente, até lhe fica melhor, e digo-o sem apreciar esta espécie que faz peito das nove às cinco, e algumas horas extra de graça para passar a mão no pêlo ao chefe.

Este é o Tiago, tem o sonho de ser promovido, é o rei dos compinchas das reuniões, ri das piadas de toda a gente, de cabeça e crista levantadas, voz no alto, não diz nada de jeito mas é sempre um campeão. É tão parvinho da cabeça que parece saído de Wall Street: Vamos lá para cima deles, isto agora é tudo nosso, temos de mostrar o que somos, quem somos, o que valemos, what we are, who we are, what we’re worth.

Acabou Gestão na Católica com 12, mas o pai era amigo do dono da empresa de consultoria e serviços financeiros e é óbvio que só precisa de continuar a aparecer mais duas ou três vezes para ser promovido com distinção e honrarias. Até há lá mulheres que são melhores do que ele, mas não têm connects nem próstata nem vontade de rir de estupidezes. Para isso, falta-lhes stamina, como dizia o Trump, um homem de negócios.

O gajo que se esqueceu de comprar phones

Se não é o que mais dá nas vistas, é o que lhe dá a sério nos ouvidos. O Manjas, em abono da verdade, é um palerma. Senta-se no comboio e isto é tudo dele. Ao contrário dos outros todos, saltou a catraca e sentou-se sem pagar.

Veio de Queluz da Mó de Baixo e vem a chatear o pessoal desde que entrou. Leva um rádio aos ombros, põe um ar descontraído que toda a gente sabe que é pose e inunda os ouvidos alheios de som que, em vez de música, é tortura.

Tem mofo e humidade em casa, volta e meia há infestações de percevejos, porrada entre a família e os vizinhos. A mãe não lhe liga puto, ele não liga puto à vida. E o dia-a-dia é mesmo isso, as poucas horas até ser outro dia, e há que fazê-las contar com o que houver.

Vai um bocado de música para animar? Não anima ninguém, mas não quer saber. Um dia, a brincadeira ainda lhe corre mal e leva uma lambada por não ter levado phones, por ter achado que podia fazer o que lhe desse na cabeça. O que lhe vale é que o povo em Lisboa é manso. O que lhe vale é que está tudo tão metido em si que ninguém quer saber.

O desgraçado que nem queria estar aqui

E então abrem-se as alas para o gajo do Porto que odeia Lisboa. Com cara de enfado, vai calado no comboio, pensando “Que porcaria, tanto sol”. Ainda hoje leva a mal que a empresa o tenha mandado para este pardieiro. O aumento salarial foi qualquer coisa, o aumento dos custos foi qualquer coisa vezes quatro e o tamanho da casa onde vive é qualquer coisa a dividir por três.

Um gajo que se habitua à magia da Ribeira e do Bolhão não está para isto. São ruas tão clarinhas, é um céu tão azulinho, é irritante. E como jantar com alguém que, em vez de francesinhas, emborca vogais à desalmado?

Difícil para o Zé Mário perdoar ao patrão que o mandou para ali. Um gajo tenta subir na vida, acaba perdido em Lisboa. Foi treinado desde a infância para odiar alfaces, e aqui está ele no meio das saladas de abacate, gomos de romã, mozzarella de búfalo, sementes de chia e molho balsâmico.

Apanha o comboio para o trabalho, só queria apanhar um para casa. Ao fim-de-semana, tem pena de ver o alfa tão caro, seria bem melhor ir passear para a Foz, mas lá acaba debaixo da ponte 25 de Abril a ver a beleza em pleno e conclui, sem que o diga, que isto afinal nem é assim tão mau.

A recém-imigrada que já se arrependeu

A Dulcineia deve ter vindo em busca do sonho europeu. Lá em Acarajuba, era muito trabalho para pouco real, muito suor para pouco descanso. Desistiu de lá morar assim que pôde, depois foi combater com São Paulo, uma só mulher contra uma cidade inteira.

Não teve um minuto de descanso, mas sempre pôde inventar outra vida. Depois, foi só enxugar cada centavo até ter dinheiro para comprar uma passagem que a fizesse voar sobre o Atlântico. Foi a primeira vez que voou, e logo para vir parar aqui.

Ao chegar, viu que isso de os europeus serem brandos e felizes e ricos era mito, e que deste lado só tinha trabalho à espera. Partilhou casa com a prima, agora com sabe deus quem. Sai de Chelas de manhã e passa o dia munida de esfregona. Engraçado, por muito que rompa as mãos, nunca fica a cheirar a detergente.

Como está atrás do Manjas, ele ainda não a viu, mas percebe-se que se a visse não ia tirar os olhos dela. O Sebastião Maria é que não pára de a galar. Se calhar não é tão gay quanto eu julgava.

A escritora que não queria estar no comboio

E aqui vou eu, que até costumo andar de mota. Depois desta, não tenciono voltar a esquecer-me dela em casa. Saio à rua e é um excesso de informação para alguém tão pouco permeável. Nem sequer trouxe os phones para me proteger do exterior – de conversas paralelas ou da música do Manjas.

O livro que trouxe já acabou, resta-me olhar até que o tempo passe. Meti-me a ver beatos, analistas, desgraçados em geral, mas quando a Dulcineia chegou já só tive olhos para ela.

Pus os óculos de sol para disfarçar os olhares e houve um momento em que bem a vi a olhar para mim. Não sei se está aqui a pintar um clima, mas nunca mais ando de comboio. Isto é um perigo para quem tem anel no dedo.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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