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Em Agosto, os subúrbios de Lisboa prolongavam-se por mais de 200 quilómetros, até ao parque de campismo de Melides. Um alvéolo 9x6m na zona com mais pinheiros – e, por isso, com mais sombras – pago a prestações todos os meses era, durante os anos noventa, o oásis motivacional dos utentes diários da linha de Sintra.

As principais diferenças deste dia-a-dia estival residiam em não usar sapatos e optar por versões de plástico compactas ou dobráveis de tudo o que habitualmente usávamos em casa. O que requeria alguma perícia: evitar a caruma com os pés nus, arrancar um garfo de dentro de um trem de cozinha arrumado num composição-matrioska ou abrir cadeiras que se assemelhavam na complexidade a cubos Rubik.

Como nos subúrbios de Lisboa, a vida no campismo nunca era o que aparentava ser. Do estômago de inofensivos sofás de poliéster saíam superfícies de refeição desdobráveis que se multiplicavam como as cobras que perdem a pele, para se transformarem – à noite – em camas com odor intenso a azeite de regar pimentos.

E se assim era com as coisas, mais seria com as pessoas. As personagens que povoavam estendais públicos, lavabos ou o café junto à entrada do parque pela hora do bagaço não eram lineares, mas complexas como as dos subúrbios. Das mesmas mãos, saíam as maiores canalhices e as maiores generosidades.

Inveja e entreajuda servidas em travessas de sardinhas ainda a borbulhar gordura onde nos lambuzávamos como pães.

Se no resto do ano, as plantas da Dona Cilene cresciam na marquise fechada do 2º andar, com vista para o televisor sempre ligado e o napperon de renda; em agosto, as plantas da Dona Conceição cresciam no avançado da roulotte em frente, com vista para o televisor sempre ligado e a toalha de plástico laranja às flores.

Usufruíam, em ambos os casos, das temperaturas húmidas das estufas, ideais para a saúde dos verdes.

Ali, os sinais de riqueza também se mediam em tamanho e potência, como nos subúrbios. A música dos geradores e o fedor a gasolina que libertavam faziam lembrar as corridas de tuning da praceta e os centímetros das antenas de televisão eram medidos com a mesma precisão que na cidade. Apontando ao vizinho as culpas das interferências no aparelho, subíamos a nossa antena até sermos o pinheiro mais alto daquela floresta de arames.

Como nos subúrbios de Lisboa, os conflitos versavam sobretudo a usurpação de espaço e hábitos de higiene. Se passávamos o ano a discutir se o vizinho tinha estacionado na rua a ocupar dois lugares ou deixado o saco do lixo no patamar por mais de duas horas; em agosto, discutíamos sobre se as cavilhas dos outros avançados estavam em transgressão no nosso território e a respeito dos restos de comida deixados nos lava-louças comunitários.

Mas nem tudo era igual.

Ir à rua em tronco nu ou de pijama seria, nos subúrbios, levemente reprimido; no campismo, era encorajado. No caminho para a casa de banho, durante os churrascos e em todas as restantes ocasiões, passei a minha pré-adolescência a comparar o meu crescimento mamário com o do Rei dos Grelhados.

O meu amor pelas roulottes não tinha tamanho. Ou tinha: as 672 páginas do Cisnes Selvagens, lidas no conforto da habitação sobre rodas durante as semanas de campismo. Com os olhos a arderem com o suor, sem saber se as emoções do livro me provocariam lágrimas ou pingas de transpiração.

Conseguia a proeza, todos os anos, de chegar ao final do verão mais pálida do que quando o começara.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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