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A praia da Cruz Quebrada. Foto: Inês Leote

Da estação ferroviária da Cruz Quebrada – na linha de Cascais – já se avistam pessoas na praia que leva o mesmo nome para um dia à beira-mar… que aqui ainda é um pouco rio. Mas pode tomar-se banho aqui? É que na entrada principal da praia há uma pequena placa da Agência Portuguesa do Ambiente que diz: “Banho Desaconselhado”. Estes e outros banhistas todos os dias preferem não seguir o conselho.

A praia da Cruz Quebrada não consta entre as quatro praias oficiais do concelho de Oeiras, identificadas com águas balneares, qualificadas para banhos e que em 2020 passaram mesmo a ter bandeira azul: Caxias, mesmo ali ao lado, Paço de Arcos, Torre e Santo Amaro. A qualidade da água destas praias é monitorizada pela Agência Portuguesa do Ambiente-ARH Tejo e Oeste. E os níveis de ocupação, equipamentos disponíveis, temperatura e qualidade da água e horas das marés podem mesmo ser consultados numa página na internet.

Na Cruz Quebrada nada disto acontece. Mas nos últimos tempos, a página de facebook da Associação Vamos Salvar o Jamor tem divulgado análises à qualidade da água que a mostram boa.

Os relatórios do SIMAS, serviços municipais da água, analisaram as águas em 2021 e em 2022 e os resultados são positivos. Os relatórios estão aqui e aqui.

Como explicar isto? Segundo a Câmara Municipal de Oeiras, a praia não é aconselhável, mas não está interdita aos banhistas.

A CMO explica que nos últimos três meses os resultados das análises feitas à água da praia de Cruz Quebrada têm-na classificado como própria para banhos, mas que isso não é suficiente para que seja classificada como uma área balnear. Isto porque a classificação de uma água balnear não é realizada com base num único boletim, mas sim no conjunto de avaliações das quatro últimas épocas balneares e com um mínimo de 20 análises realizadas com distribuição uniforme por ano.

E a praia de Cruz Quebrada não preenche estes requisitos – por isso não está registada, nem tem bandeira, nem vigilância.

Daí que a pesquisa por Praia da Cruz Quebrada não produza qualquer resultado no site da Agência Portuguesa do Ambiente, responsável pelo referido cartaz à entrada.

https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2022/07/CruzQuebradaSOM.mp3
Muitos visitantes desconhecem o conselho que a Agência Portuguesa do Ambiente colocou à entrada da praia. Desaconselham-se os banhos, mas na água vêem-se crianças com pais e avós. A proximidade e a acessibilidade da Praia da Cruz Quebrada incentivam os banhos de quem depende do comboio da linha de Cascais, mas o estacionamento sem parquímetro também motiva a escolha. Oiça o áudio. .

A associação ambientalista ZERO diz desconhecer os resultados destas análises efetuadas na Praia da Cruz Quebrada, mas adianta que a não classificação desta como área balnear poderá ter a ver com o facto de o rio Jamor desaguar ali e poder existir ainda alguma contaminação das águas.

A praia de Cruz Quebrada é ladeda por dois pontões, agora meios destruídos pela maré, que não tiveram qualquer reparação depois de terem sido afetados pelas cheias. Os pontões têm a função de proteger a extensão da areia da praia, e é entre eles que desagua o rio Jamor. É a própria Associação Vamos Salvar o Jamor que divulga com frequência no Facebook imagens da poluição.

Poluição ou não, eis a questão

A CMO diz que por vezes não é possível impedir que os poluentes do rio Jamor cheguem à praia de Cruz Quebrada. “Pontualmente são detetados pequenos focos de poluição que derivam da utilização indevida dos sistemas de drenagem de águas pluviais, ou residuais, ou pelo colapso pontual das estruturas de saneamento existentes”, explica a vereador Joana Batista.

Não é tanta poluição como já foi, em parte por causa da entrada em funcionamento do Sistema de Saneamento da Costa do Estoril, e porque a grande maioria dos caudais de águas residuais passaram a ser canalizados para Estações de Tratamento (ETARs). Segundo a CMO até já se fixaram algumas “espécies raras e ameaçadas no Rio Jamor e nas outras linhas de água municipais.” Mas, volta e meia, aparece.

O rio Jamor. Foto: Inês Leote

A Associação Vamos Salvar o Jamor acusa a CMO de se demitir “de proporcionar os equipamentos de conforto e as condições de segurança para que a população possa tirar todo o proveito desta praia de proximidade” – tendo em conta as análises conhecidas. Isabel Sande e Castro, presidente, acusa, aliás, a falta de fiscalização do município pelas descargas ilegais de poluentes no rio Jamor que acabam por chegar à praia.

“Tem de haver fiscalização da Câmara Municipal e da empresa municipal que gere a água para detetar quem é que não fez corretamente o saneamento, e cujas descargas estão a ir para a ribeira.”

A vereadora da Câmara Municipal de Oeiras, Joana Baptista, contrapõe que se realizam diariamente as monitorizações das linhas de água. E que, quando detetam alguma descarga, é encaminhada para identificação e resolução da situação.

Uma polémica que vai além da praia da Cruz Quebrada e se espalha ao Jamor

A praia da Cruz Quebrada está no meio de uma polémica, a mesma que conduziu à criação da Associação Vamos Salvar o Jamor – o enorme empreendimento que está previsto para toda esta zona da costa, chamado Porto Cruz, que abrange os terrenos da praia e das vizinhas fábricas de fibrocimento Lusalite e de fermentos holandeses Gist-Brocades.

O projeto está parado por ordem judicial – uma providência cautelar pedida pelo Ministério Público pela aprovação irregular do Plano de Pormenor da Margem Direita da Foz do Rio Jamor, quando a presidência era de Paulo Vistas, em 2014, e que inclui este projeto da responsabilidade do Grupo imobiliário SIL.

Segundo a Associação, isso fará com que a praia deixe parcialmente de existir.

Segundo Joana Batista, não. A vereadora diz que haverá uma “área de praia, superior em superfície ao areal existente, a par de uma piscina oceânica, da continuidade do passeio marítimo e de um Porto de Recreio.”

O Porto Cruz é contestado por causa da sua localização à beira do estuário do Tejo – estão previstos 27 hectares de construção e cinco torres, de apartamentos e escritórios, uma delas com 19 andares.

A CMO alega que o projeto “vai resolver o problema do amianto na antiga fábrica Lusalite e aumentar a área pública de 3.000 m2 para 70.000 m2. Além disso, serão criados 2.000 postos de trabalho”. Diz também que terá espaços pedonais ” uma alameda que conectará o vale do Jamor ao Rio Tejo, um espaço-canal destinado ao elétrico de superfície, visando restabelecer a ligação Algés – Complexo Desportivo do Jamor e a requalificação da estação ferroviária da C. Quebrada.”

Enquanto nada disto acontece – a praia da Cruz Quebrada continua com um futuro envolto em incertezas e um presente votado ao abandono das autoridades e ao cuidado de alguns banhistas destemidos ou icautos.

Cruz Quebrada: de praia do garrafão a praia da poluição

Conhecida antigamente por praia do “Garrafão”, “pelo hábito de muitos dos seus frequentadores levarem consigo um garrafão de vinho tinto para acompanharem o farto almoço (bacalhau, arroz de frango, favas) que a família ia partilhar de um enorme tacho devidamente embrulhado em jornais”, como conta Eurico de Barros na revista Time Out, a Praia da Cruz Quebrada já esteve entre as mais populares para os lisboetas menos endinheirados.

Hoje praia de má fama permanece ainda assim na memória de uns e continua a ser a escolha balnear de outros – por vários motivos, entre eles a proximidade.

Foi por isso que Solange Lopes e a amiga Filipa Gonçalves escolheram a Cruz Quebrada: pela proximidade do Cais do Sodré. Ambas tinham de voltar para casa cedo, mas queriam dar um mergulho. Nem viram a placa informativa à entrada. É a segunda vez que Solange vem à praia da Cruz Quebrada. “E provavelmente será a última”, diz, quando alertada para a placa.

Emílio Teixeira até costuma ir ao Estoril, mas como sempre que passa pela Cruz Quebrada de comboio vê a praia cheia de banhistas resolveu experimentar, apesar de ter percebido que a praia não era própria para banhos, uma vez que não tinha vigilância.

A praia da Cruz Quebrada. Foto: Inês Leote

Aos 82 anos, Emílio desfruta a sua reforma com uma rotina bem definida. Mora em Lisboa, apanha o autocarro 760 da Carris até ao Cais do Sodré e depois apanha o comboio até à praia do Estoril. Na hora de regressar a casa, vai a pé até Cascais e apanha lá o comboio. Agora, quis fugir à rotina, mas acabou desiludido.

A experiência também não está a ser agradável. “Caí várias vezes porque não me consegui aguentar-me em cima das pedras”, diz. “Além disso, a maré está baixa e vê-se o tubo de esgoto que vem dar à beira-mar. O canal que vem para aqui partiu-se e não concertaram, devia levar a água para mais longe. Vê-se que está suja, gordurosa… Toma-se um banho para molhar o corpo, mas é desconfortável”, diz.

Isso não parece impedir o grupo de duas mulheres e três crianças que, sentadas nas toalhas, estão já a almoçar à sombra do chapéu de sol. Natália Rangel é brasileira e frequenta a praia da Cruz Quebrada há três anos. Mora em Algés e costuma trazer os filhos. Desta vez, trouxe também uma amiga. Por ser uma praia tranquila, diz que acaba por ser convidativa para trazer crianças, o que, segundo Natália, é basante comum.

“No ano passado fiz amizade com várias mães e combinámos de trazer os miúdos”, conta.

Fernanda vive na Amadora e a praia de Cruz Quebrada é sua primeira escolha, porque o estacionamento não tem parquímetro. Diz saber que a água está poluída e que a qualidade da praia deixa a desejar em relação às praias vizinhas, no concelho de Oeiras, mas acredita que se os banhistas corressem perigo de vida, seriam alertados pelas autoridades.

“Eu já venho para aqui há muitos anos e ainda não morri. Vou fazer 62”, diz Fernanda, descontraída.

Mário, que corre todos os dias pelo Passeio Marítimo, tem o hábito de parar na Praia de Cruz Quebrada para apanhar sol, mas sempre se recusou a ir a banhos. Foto: Inês Leote.

Mário não acredita muito nisso: mesmo indo ali todos os dias, para o seu jogging, quando, no fim do exercício, se senta nas rochas a apanhar sol, nunca entra na água, garante. Aliás, nunca entrou. “Sempre soube que não era própria para banhos”, diz.

Mesmo quando era mais jovem e ia com os amigos aconselhava-os a não entrarem na água, por causa de estar poluída. “Não me davam ouvidos”, recorda.

Em cima do estreito muro do canal do rio Jamor, que desagua na praia da Cruz Quebrada, está Pedro, com uma cana de pesca. Pedro pesca desde os 7 anos e é a segunda vez que vem para aqui pescar. Sabe da probabilidade de a água estar poluída, mas isso não o preocupa. “Isso não importa nada, para a pesca tudo serve”, diz.

A qualidade da água não parece ser uma preocupação para quem frequenta a praia da Cruz Quebrada nem dos vários sites que a recomendam quando se faz uma breve pesquisa no Google. Seja como for, a poucos quilómetros de distância e a uma ou duas paragens de comboio há quatro praias com bandeira azul.

Talvez sejam uma opção mais saudável, por via das dúvidas.


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* Apaixonada por jornalismo desde os 12 anos, Charline Vaz Lopes cresceu entre Lisboa, cidade que a viu nascer e Bissau, capital do seu país de origem. Aos 23 anos, divide-se entre a música e o amor pela comunicação. Estudou Ciências da Comunicação na Universidade Católica Portuguesa de Braga e está a estagiar na Mensagem de Lisboa. Este artigo foi editado por Catarina Pires.

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