Cabul

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Os dias difíceis foram ficando cada vez mais difíceis após a tomada do poder pelos Talibã no Afeganistão, a 15 de agosto de 2021. Dois meses depois de o regime Talibã ter sido imposto no Afeganistão, todos tentavam encontrar forma de sair do país. Mas todos os países vizinhos fecharam as suas fronteiras com o Afeganistão.

Então, mesmo tendo conseguido o visto paquistanês online, quando nos prepararávamos para viajar por terra para o Paquistão, soubemos que a fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão não estava aberta. Restava-nos esperar. Ainda assim, estávamos muito felizes e alimentávamos a esperança de conseguir encontrar refúgio noutro país e livrar-nos da situação no Afeganistão. Mas a Embaixada de Portugal no Paquistão dar-nos-ia realmente um visto ou não? Entrámos em contacto com a embaixada portuguesa em Islamabad e garantiram-nos que sim, que estavam a par da situação pelo govermo e que quando chegássemos a Islamabad, fosse quando fosse, emitir-nos-iam um visto para Portugal.

Foi um alívio.

A maioria do povo afegão estava à espera que a fronteira com o Paquistão se abrisse e quando isso aconteceu, todos correram para lá. Mas grande parte não tinha visto e tentava apenas, em desespero, sair do Afeganistão. Mais de dez mil pessoas iam para a fronteira com o Paquistão todos os dias, mas era muito difícil conseguir atravessá-la.

Quando decidimos fazer a viagem até a fronteira, ficámos a saber que a situação lá era complicada: mais de 100 mil pessoas à espera para a atravessar. Parecia muito difícil. E, tendo em conta o nosso contexto familiar [uma filha pequena e a Roya grávida], era uma loucura metermo-nos ao caminho. Decidimos, então, esperar até que a multidão diminuísse.

Entretanto, recebemos um e-mail da Embaixada de Portugal no Paquistão a dizer que devíamos mudar-nos para o Paquistão o mais rápido possível – eles poderiam ajudar-nos lá, mesmo na fronteira. Fiquei entusiasmado ao receber este e-mail e eu e a Roya conversámos sobre quando deveríamos mudar-nos.

A situação na fronteira era muito instável e todos os dias ouvíamos notícias diferentes. Começaram a surgir rumores de que se continuassem a chegar à fronteira mais de 10.000 pessoas, diariamente, esta poderia ser novamente fechada aos afegãos.

Ao mesmo tempo, a situação em Cabul piorava. E piorava a cada dia e a cada noite: ouviam-se tiros e pessoas eram mortas misteriosamente ou sequestradas.

Então, embora tenha sido uma decisão muito difícil para todos nós, deixámos para trás a nossa casa, família, tudo, e fugimos do Afeganistão.

A cada questão que surgia, tentava sempre informar o Bruno Maçães, o português que nos estava a ajudar. Queria a opinião dele porque o Bruno verificava sempre todas as questões corretamente. Ficou muito feliz quando conseguimos o visto do Paquistão.

Decidimos, então, partir o mais rápido possível – nessa mesma semana. Saímos a 25 de outubro de 2021, uma segunda-feira, exatamente duas semanas depois de a fronteira ter sido aberta.

A afluência de afegãos à fronteira ultrapassava as 100.000 pessoas, mas não havia outra escolha para nós, tínhamos de ir. Foi uma decisão muito difícil – a situação da fronteira não era boa, Roya estava grávida, Sama era pequena, e eu sabia que seria muito difícil para mim cuidar de ambas. Mas conseguimos atravessar a fronteira porque tínhamos o visto e todos os documentos necessários.

Preparámo-nos para a viagem e com tanta gente a tentar sair do país era óbvio que não poderíamos levar muita coisa connosco. Decidimos levar apenas uma muda de roupa e alguma comida.

As nossas últimas despedidas, dos amigos próximos e dos familiars, foram feitas pelo telefone.

Pedi a um dos meus amigos que nos levasse até à fronteira, porque era a primeira vez que íamos para o Paquistão e não sabíamos o caminho.

Era domingo à noite e enquanto nos preparávamos para a viagem os sentimentos eram contraditórios: estávamos muito assustados, mas ao mesmo tempo entusiasmados. Tudo nos poderia acontecer, mas não havia outra hipótese para nós se não avançar para o Paquistão.

Depois do jantar, queríamos descansar um pouco, mas estávamos com tanto medo que foi impossível, nunca tínhamos viajado à noite durante o regime talibã. Os talibã poderiam mandar-nos parar no caminho e perguntar para onde queríamos ir. Finalmente, às duas da madrugada saímos de casa em direção à fronteira entre Paquistão e Afeganistão.

Na próxima crónica, escreverei mais sobre como chegámos à fronteira e o que aconteceu.


* Samim Seerat é refugiado afegão em Lisboa, onde chegou em novembro de 2021 com a mulher e a filha. Foi pai, novamente, no dia 7 de janeiro. Em Cabul trabalhava como executivo de media no grupo MOBY detentor da Tolo News.  É também fundador de uma start up chamada Paiwast Health Services. Escreve na Mensagem sobre a sua experiência em Portugal todos os meses.


[ENGLISH VERSION]

Last days in Kabul. Frightened and scared, we crossed the border. We couldn’t stay

Exactly one year ago, the Taliban regime took Kabul and installed terror in Afghanistan. It was August 15, 2021. Samim Seerat and his family managed to flee the country two months later. Samim has been narrating, at Mensagem de Lisboa, the odyssey through which he, his pregnant wife, and their young daughter went through until they reached Lisbon. Today he talks about the last days in Kabul.

The difficult days were getting more difficult day by day after the domination of Taliban to Afghanistan on the 15th of August of 2021. Two months had passed after Taliban regime into Afghanistan, and everyone was looking for the ways of getting out of Afghanistan. But all the neighbor countries were closed their borders with Afghanistan.

So even if we had our Pakistan visa online, and we wanted to get ready to travel by land to Pakistan, we got know that the border between Afghanistan and Pakistan was not open. So, we had to wait. Yet we were very happy, and our hope increased that we could go and seek refuge in another country and get rid of the situation in Afghanistan. But would the Portuguese embassy in Pakistan really issue us a visa or not?  We contacted the Portuguese embassy in Islamabad Pakistan, and they reassured us that they were already aware of this issue by the government. And whenever we come to Islamabad, they will issue us a Portugal visa.  

This was a relief.

Most of the afghani people were waiting for the border to be opened and when the border was opened for the Afghans, everybody rushed to the Pakistan-Afghanistan border. But most of them did not have visas and they were just trying to get themselves out from Afghanistan. More than ten thousand people were going to the border of Pakistan every day. But it was very difficult for them to cross.

When we decided to make the trip to the border, we heard about the bad conditions – more than 100 thousand people were waiting to cross. It seemed very difficult. Also in our family condition, it was insane. So, we decided to wait until the crowd lowered at the border.

Then we received an email from the embassy of Portugal in Pakistan, which suggested that we should move to Pakistan as fast as we could – and they could assist us there, even at the border. After receiving this email, I was very excited. We discussed, Roya and me, about when we should start moving.

The situation at the border was not stable and every day we were hearing different news. There were some rumors that if the border remained in that condition, with more than 10,000 people invading, daily, the border might be closed again to Afghans.

But at the same time, conditions in Kabul had worsened. And became worse day by day and every night: gun firing was heard, and people were being killed mysteriously or kidnapped.

So, although it was a very difficult and hard decision for all of us, we left behind our house, family, country and everything and left Afghanistan.

Every issue that came up, I always tried to inform Bruno Maçães, the Portuguese who was helping us.  I would like to know his opinions, and Bruno always checked all the issues correctly. He was very happy that we could get Pakistan’s visa.

So, we decided to move as soon as possible – even during that week. And we did on 25 October 2021, Monday, exactly two weeks since the border had opened. The rush of people was even more than 100,000 at the border. But there was no other choice for us so: we had to go. It was a very difficult decision that we had to make – the situation of border was not good, and Roya was pregnant, and Sama was small, and I knew that it will be very difficult to me to take care of both. But we had the possibility to cross the border because we had the visa and necessary travel documents.

We got prepared for the travel, and since there was this crowd at the border it was obvious that we could not take so much stuff with us. We decided to take only one extra clothe and a little bit of food.

Our last goodbyes were through phone calls with our close friends and family.

I asked one of my friends to go with us to the border and take us there, because it was the first that time we were going to Pakistan, and we did not know the way.

It was Sunday night, and we got ready to travel. We were very frightened and excited: anything could happen to us, but there was no other solution left for us except to move towards Pakistan.

After dinner we wanted to rest, but we were very scared because we had never travel at night during the Taliban regime. The Taliban could stop us on the way and ask us “where we want to go”. Finally, it was 2 o’clock at night and we left our house towards the border of Pakistan and Afghanistan.

In the next part, I will write more how we reached to the border and what happened.


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