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A última vez que Melina Wazhima Monné conversou com o pai por telefone foi em outubro de 2020. Melina estava à porta da escola da filha, na Encarnação, e o pai estava doente, no Equador, sem acesso aos cuidados intensivos.

Ele perguntou-lhe como era Lisboa no outono. Ela contou-lhe que o seu bairro, nos Olivais, outrora estava cheio de oliveiras, mas quando os portugueses voltaram em massa das antigas colónias, nos anos 1970, a maioria das árvores teve que ser cortada para dar lugar a blocos de apartamentos. Restaram apenas algumas, em canteiros, a cumprir um papel decorativo. “Todos os outonos, as azeitonas caem e mancham os passeios brancos, como se a Natureza se vingasse”, disse Melina ao pai.

Melina Wazhima Monné em sua casa na Encarnação. Foto: Inês Leote

Monné veio de Cuenca, Equador, para Lisboa em 2019 para fazer um doutoramento na Universidade de Lisboa. O seu trabalho de investigação combina artes performativas, memória e migrações.

Karla León Aguilera fez o mesmo percurso, um pouco antes. Professora na Universidade de Cuenca, está cá a fazer um doutoramento em expressão corporal.

Melina vive no bairro da Encarnação, nos Olivais, com a filha María e perto de Karla Aguilera, amiga de longa data, com quem estuda na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Lisboa acolheu-as e conquistou-as, dizem. É a cidade mais calma em que já viveram.

Em 2019, quando o Equador enfrentou uma onda de protestos contra o corte dos subsídios aos combustíveis, os professores de Karla em Lisboa foram solidários. “Lisboa é uma cidade que te abraça”, diz Monné. “Estamos muito gratas pela nossa experiência cá”, completa Aguilera.

No passado mês de junho, os protestos voltaram em força às ruas do Equador. No dia 13, os equatorianos encheram a capital, Quito, para protestar contra a subida de preços na alimentação e nos combustíveis, que aumentaram apesar de o Equador ser um país produtor de petróleo. Os lucros das companhias petrolíferas quase duplicaram, diz Melina, mas esse dinheiro não está a ser investido no bem estar da população.

O Equador investiu menos dinheiro nos hospitais durante os primeiros cinco meses de 2022 do que em 2019, antes da pandemia, com graves consequências. As duas amigas ouviram relatos de médicos sujeitos a trabalhar sem recursos aos meios mais básicos – “têm que fazer cirurgias com a lanterna do telemóvel, porque não há luz suficiente”, dizem.

“Protestar é uma forma de provocar a mudança no Equador”, diz Melina. “Resistir é um direito constitucional”.

Karla León Aguilera. Foto: Inês Leote

As manifestações subiram de tom, tornando-se cada vez mais violentas. “O Equador era uma ilha de paz naquela região”, lembra Monné. Assistir à distâncoa ao que se passa no país delas tem sido difícil. Partilham notícias de “órgãos de comunicação alternativos” para manterem as pessoas informadas do que realmente se passa, pois, dizem, nos media tradicionais, os manifestantes são apelidados de “delinquentes e narco-terroristas” ou simplesmente “não mostram o que está a acontecer” no país.

Mas não é só na internet e através das redes sociais que se fazem ouvir. No dia 25 de junho, Melina e Karla saíram com María rumo à Marcha pela Paz. Empunhavam a bandeira do Equador e cartazes em que se lia: “SOS Equador” e “Não à guerra, contra a luta dos povos”.

A intenção era dar visibilidade aos acontecimentos mais recentes no país, trazer o assunto para as ruas de Lisboa e pôr as pessoas a falar sobre isso. “Se cinco pessoas, ao voltarem para casa, tentassem compreender o que se passa no Equador, já seria bom” diz Melina.

Depois da Marcha pela Paz, juntaram-se ao Arraial Pride, no Terreiro do Paço, na esperança de trazer mais gente para causa delas. No final, estimam ter falado com cerca de cinquenta pessoas, umas curiosas, que fizeram perguntas, e outras que, com conhecimento de causa, demonstraram o seu apoio. “A diversidade e a empatia foram muito importantes”, explica Karla, “interessaram-se sobre o que se passa, aplaudiram, desejaram fuerza a Ecuador. Ouvir isso tão longe de casa encheu-me o coração”.

Em Portugal, a comunidade equatoriana é muito mais pequena do que em Espanha, diz Melina, o que reveste esta receção tão positiva dos portugueses de uma importância ainda maior.

No próximo ano, Karla regressará à sua profissão como professora na Universidade de Cuenca. Embora queira regressar para junto da sua família no Equador, não esconde as saudades que terá de Lisboa. “Esta também é a minha casa”, diz.

Melina e Karla estudaram juntas em Barcelona no final dos anos 1990, onde viviam com a família de Melina. Lá, aprenderam “como participar e proteger-se em manifestações”, conhecimento que agora veem ser passado aos seus alunos, em Cuenca. Artistas, professores e estudantes acolheram manifestantes nos campus universitários públicos.

“Aprendemos a protestar pacificamente aqui, na Europa”, recorda Melina, que também olha com curiosidade para a história da conquista da democracia em Portugal.

No final do mês de junho, o governo do Equador cedeu às reivindicações dos manifestantes, amenizando o clima de protestos. O líder indígena Leonidas Iza e o ministro Francisco Jiménez Sánchez assinaram um acordo para diminuir o preço dos combustíveis e aumentar o investimento em saúde e educação.

“Acho que não chega ficar satisfeito com os resultados [dos protestos], é preciso compreender o processo e a sua importância histórica que, apesar de tudo, ainda nos dá esperança”, dizem. Creem numa mudança já nas próximas eleições, em 2023.

Em breve, Cuenca receberá Karla, mas, antes, Barcelona e Carmen, a “abuela” Monné de 98 anos, receberão Melina e María. “Queríamos ter ficado mais tempo em Lisboa”, diz, mas ela e Maria sentem-se agradecidas por poderem estar com a avó/bisavó, antes de voltarem para o Equador. “Se já somos nómadas, por que não passar algum tempo com a Carmen?”.

Quando pensarem em Lisboa, lembrar-se-ão as três de como foram “acolhidas”, de como a cidade cuida dos seus “mais velhos” e de como a última coisa que Melina disse ao seu pai foi que no outono, as oliveiras pintam a calçada portuguesa de preto, por vingança.

Protests and strikes paralyzed Ecuador in June. These Ecuadorians marched through Lisbon to spread awareness

Melina Wazhima Monné and Karla León Aguilera came to Lisbon from Cuenca, Ecuador to pursue their PhDs. Watching violence spread through their home country compelled them to take whatever action they could.

Melina Wazhima Monné and Karla León Aguilera hold the Ecuadorian flag. Foto: Inês Leote

The last time Melina Wazhima Monné spoke with her father, she was outside her daughter’s elementary school in Encarnação. It was October 2020, and her father was sick back home in Ecuador, unable to access the ICU.

He asked Monné what Lisbon was like in the fall. She told him how her neighborhood used to be full of olive trees. When migrants moved en masse to Portugal from its former colonies in the 1970s, most of these trees were cut down to build houses. But some stayed for decoration. Every autumn, ripe olives fall onto the white Lisbon sidewalks, as if exacting their revenge, she said. 

Monné moved to Lisbon from Cuenca, Ecuador in 2019 to work toward a PhD at the University of Lisbon. Her work combines performing arts with memory and migration. 

Monné’s longtime friend Karla León Aguilera made the same migration shortly before. A professor at the University of Cuenca, she’s pursuing a PhD on bodily expression. 

Monné and Aguilera say that Lisbon took them in. It’s calmer and safer than other places they’ve lived. In 2019, while protests against the rescission of fuel subsidies took over Ecuador, Aguilera’s professors in Lisbon were empathetic. “Lisbon is a city that embraces you. We’re very grateful for our experience here,” Aguilera said. 

Last month, protests took over Ecuador again. Beginning on June 13, demonstrators took to the streets to protest rising costs of food and fuel, despite Ecuador’s position as an oil producer. Oil companies’ incomes had almost doubled, Monné said, but that money wasn’t being invested in the population. Ecuador put less money towards hospitals during the first five months of 2022 than in 2019, pre-pandemic, with grave consequences. Monné and Aguilera heard of doctors who lack even the most basic supplies, having to operate under cell phone flashlights, they said. 

“Protesting is a way of getting things done in Ecuador,” Monné said. “We have a constitutional right to resistance.” 

Aguilera shows the signs she and Monné carried around Lisbon. Foto: Inês Leote

The demonstrations became increasingly violent. “Ecuador used to be an island of peace in the region,” Monné said. Watching from afar has been hard. She shared information from non-mainstream media outlets, trying to keep people informed. Larger networks called the protesters delinquents and narcoterrorists, or didn’t show what was happening at all, she said. 

But Monné wanted to step away from the computer and do something. On Saturday, June 25, Aguilera, Monné, and Monné’s ten-year-old daughter, María, carried an Ecuadorian flag and signs reading “SOS Equador” at the March for Peace in Lisbon. 

Their goal was to increase visibility and get people talking about what’s going on in Ecuador. “If five people go home and try to understand what’s going on, that’s all we ask,” Monné said. 

After the march, they walked to the Pride festival in Praça do Comercio, figuring the attendees would be open to conversation. All in all, they estimate that fifty people stopped to take a picture, share their support, or ask about the situation. While Ecuadorians are one of the largest groups of foreigners in Spain, they’re a tiny minority in Portugal, making the positive reception even more powerful. 

“The diversity and empathy was really great,” Aguilera said. “Some people asked what’s happening in Ecuador. Others clapped, said fuerza a Ecuador or vive Ecuador, if they already knew. It filled my heart, feeling this support so far from home,” she said. 

Monné at her home in Encarnação. Foto: Inês Leote

In a year or so, Aguilera will return to her teaching post at the University of Cuenca. She’s looking forward to reuniting with her family, but she’ll be sad to leave Lisbon. “This is my home, too,” she said. 

Monné and Aguilera studied in Barcelona in the late 1990s, living with Monné’s family. There, they learned how to behave and stay safe at protests, skills they say their students in Cuenca are learning now. Artists, professors, and students cared for and fed protesters on public university campuses, Aguilera said. 

“We learned how to protest peacefully right here in Europe,” Monné said, recalling the three years when she and Aguilera lived in Barcelona. 

On June 30, the Ecuadorian government agreed to protesters’ demands, bringing the demonstrations to a close. Indigenous leader Leonidas Iza and Minister Francisco Jiménez Sánchez signed a deal to decrease gas prices and increase funding for healthcare and education, among other agreements. 

“I think it has less to do with being satisfied with the results, and more to do with understanding the historical process that, despite everything, gives us hope for the immediate future and presents the possibility of an important change in next year’s elections,” Monné said. 

Soon, Monné will return to Barcelona. “I would’ve loved to stay longer,” she said. 

But she and María are grateful to spend time with her 98-year-old grandmother. “We’re already nomads. Before going back to Ecuador, why don’t we spend time with Carmen?” María told her when asked about the move. 

When Monné thinks of Lisbon, she’ll recall how the city embraced her, how it takes care of its elders, and how the last thing she told her father was that the olives turn the white sidewalks black in the fall. 

Andean instruments in Monné’s home. Foto: Inês Leote

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