trabalho
Ilustração: Lia Ferreira

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Se vos pedirem uma definição de trabalho, talvez sejam tentados a citar o juiz Potter Stewart do Tribunal Supremo dos EUA, que a propósito da projecção do filme Les Amants  não arriscou uma definição de pornografia explícita, escrevendo apenas:  “I know it when I see it”. Esta frase, retirada de um voto vencido de 1964, deve ser hoje a citação mais famosa de toda a prosa produzida por aquele famoso tribunal.

Aplicada ao trabalho, perde a sua comicidade, mas evita que fiquemos reféns de uma definição. Definir “trabalho” é uma tarefa mais complicada do que parece, que ocupa filósofos há milénios.  

Segundo a definição mais básica, o trabalho é uma actividade não forçada que resulta na produção de um bem e que é recompensada, habitualmente com dinheiro. A definição exclui – e bem – o trabalho de escravos ou de outro modo forçado, mas também –  e mal – o trabalho voluntário e os trabalhos domésticos.

E não explica que pessoas com as finanças resolvidas insistam em trabalhar, nem por que motivo a perda de um emprego lhes pode ser traumática. A explicação é óbvia: idealmente, o trabalho garante-nos um lugar na sociedade, relações com os outros e um modo de desenvolver as nossas capacidades e concretizar objectivos, dando mais sentido à existência.

Adam Smith e Marx escreveram sobre o trabalho, mas também o humorista Chris Rock, cujo sketch sobre a diferença entre ter um emprego ou uma carreira só não é perfeito porque não distingue depois a carreira da vocação. “Faz-se carreira” quando se entra num emprego com possibilidade de progressão e segue-se uma vocação quando o trabalho ainda seria a nossa escolha mesmo sem a pressão de garantir um rendimento.

Agora que está na moda promover o Rendimento Básico Incondicional como forma de libertar o indivíduo da pressão crescente do trabalho, a conversa sobre a vocação pode soar anacrónica, mas há décadas que se prevê a era do primado do lazer e começo a desconfiar de que nunca vai chegar, nem sequer com o aumento exponencial da automação.

O grande desafio para os indivíduos e a sociedade não será então como trabalhar menos, nem como atingir o pleno emprego, mas como maximizar as hipóteses de encontrar um trabalho que nos realize. Daí a importância de se passar o primeiro quarto da vida à procura de uma vocação.

A visão anterior choca com a realidade em qualquer deslocação por Lisboa. São inúmeras as interacções com cidadãos que não estão a seguir uma vocação, provavelmente a grande maioria.

Aprendemos que há dignidade até nas profissões mais humildes e um dos poucos efeitos benéficos da pandemia – ainda que de curta de duração, suspeito –  foi a súbita valorização dos “trabalhadores essenciais” e o alargamento deste grupo além dos profissionais de saúde e das forças de segurança, pois passou a incluir os imigrantes precários que asseguram as colheitas, os camionistas e outros profissionais da distribuição, incluindo o estafeta que levava comida às nossas casas, os empregados da restauração, as “mulheres-a-dias” e quem limpa as ruas e trata do lixo, entre muitos outros.

Por não se cumprir uma vocação nestas actividades tão mal pagas e por ninguém sequer “fazer carreira” a recolher o lixo, a essencialidade das tarefas é fundamental para dignificar estas profissões.

Subindo um pouco na escala remuneratória, menos importante se torna a essencialidade da tarefa para se respeitar a profissão, que no limite pode ser apenas uma forma de “ganhar a vida”, como sucede com  quem vive da pequena especulação diária no mercados de divisas estrangeiras ou satisfaz os caprichos da gente endinheirada, profissões que não produzem nenhum bem essencial.  

Diante da nossa casa há uma área triangular com uns 100 m2 que bifurca a rua. Nos últimos dois anos, passou por várias intervenções inconsequentes de arquitectura paisagista. Houve depois um período em que, intencionalmente ou não, terá estado ao abandono, permitindo o aparecimento de uma flora espontânea de prado, como começa a ser moda em algumas capitais, com vantagens evidentes para a gestão das áreas ajardinadas e a polinização das áreas circundantes.

Mas há uns meses houve uma grande intervenção, que deixou a área com cactos, outras plantas baixas pouco exigentes, o chão com uma cobertura de aparas de casca de pinheiro e o perímetro do triângulo com uma moldura de pequenos seixos polidos.

É discutível se houve um ganho estético por comparação à vegetação espontânea. Mas o jardim, que parecia exigir pouco, começou depois a ser periodicamente visitado por grupos de quatro a seis homens que passam dois ou três dias a arrancar à mão, em posição agachada, todas as ervas que irrompem pela cobertura de aparas de pinheiro.

A actividade tem um lado absurdo que lembra uma praxe académica. Não se percebe aquele esforço, pois em poucas semanas as ervas voltam a aparecer e o jardim não fica mais feio coberto de erva, antes pelo contrário. 

Diz-se que uma equipa é de ex-presidiários e confirmei que imigrantes indianos formam uma outra equipa. Haverá situações de exploração do trabalho muito mais condenáveis pelo grau de desgaste físico, exploração ou humilhação do que este arrancar reiterado de ervas inócuas, que poderá inclusive ter um propósito de reintegração social para alguns trabalhadores.

Mas o tempo é um bem precioso. Ocupar as horas de homens sem grandes opções de escolha numa tarefa inútil, ainda que com um propósito vagamente altruísta, não é só um desperdício dos recursos da autarquia. É sobretudo uma falta de respeito.     


Vasco M. Barreto

É biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

Lia Ferreira

Nasceu em Lisboa em 1974 e ali cresceu e fez a sua formação artística. É pintora, ilustradora e retratista. Mãe de 4 filhas, leva a vida na Arte.

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