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Quem passar à frente do número 83 da Avenida Gago Coutinho poderá reparar na inusitada aparição de uma capela quadrangular com ameias e um brazão nobiliárquico dentro do terreno de uma vivenda de finais de 1940 ou começos de 1950. Noutra zona da quinta encontra-se também um chafariz que parece construído do mesmo material granítico e muitas esculturas dispersas pelo terreno.

O chafariz da Quinta do Carvoeiro, com a inscrição “Anno de 1717” e o brasão de armas terá sido trazido do norte de Portugal para esta vivenda, construída nos anos 1960 pelo carvoeiro e depois construtor civil minhoto José Maria Gonçalves. Foto: Rui Martins.

O chafariz em granito possui a inscrição “Anno de 1717” e um brazão de armas. A capela, feita do mesmo material, exibe como única inscrição “1758”, sendo amuralhada, de planta quadrada e com a aparência algo anacrónica, mesmo para o século XVIII, de uma fortaleza.

De facto, o seu carácter religioso parece vincado apenas pela grande cruz de granito que possui na sua fachada. As pedras rectangulares parecem ter sido reunidas a cimento, o que é um indício claro de que provêm de outro local, e que toda a capela foi transportada e remontada em época muito recente.

A data de “1758” traz um nicho que, originalmente, deveria alojar a figura de um santo. A porta, de madeira trabalhada e pintada a vermelho, não parece original, se atentarmos nos encaixes laterais no granito que estão por utilizar.

Mais abaixo, à direita da porta aparece um pequeno nicho junto ao chão, muito trabalhado no estilo rococó, algo grosseiro, que caracteriza este edifício e que deveria ter alojado no passado também alguma peça de estatuária religiosa.

O edifício exibe também um brasão com a dita “cruz da evangelização” em quatro quadrantes. Outras peças escultóricas em pedra, uma com aparência de serem da década de 1920, outras de aparência mais grosseira (talvez de finais do século XX) e pelo menos uma representação de grande qualidade escultórica, talvez do século XVIII ou XIX, de uma das quatro virtudes cardeais que termina em “-ANTIA” (estando o resto da inscrição degradado ao ponto da ilegibilidade) o que significa que se trata da “temperança” (“temper”+antia) e cujo significado é reforçado pela presença de uma ave na sua base.

A temperança é a virtude da moderação, equilíbrio e parcimónia, algo que é essencial para o bom sucesso de uma carreira de sucesso conforme testemunha a riqueza da decoração da propriedade desta quinta.

Outra fonte, mas mais moderna que a da inscrição “Anno de 1717” coberta a azulejos de finais do século XIX, foi recolocada a partir de um outro local numa das paredes da vivenda.

Na porta principal, um casal com fatos regionais do Minho saúda o visitante desta intrigante moradia da Gago Coutinho.

Foto: Rui Martins.

Do outro lado encontramos dois carvoeiros na sua labuta diária de distribuição, numa referência direta à profissão e alcunha do proprietário da vivenda. Segundo Jorge Santos Silva, que conheceu os habitantes da casa hoje desabitada, quer a fonte, quer a capela vieram de Ponte de Lima.

Com efeito, segundo foi possível apurar junto de moradores da freguesia de Alvalade (onde se situa esta vivenda) o proprietário teria sido José Maria Gonçalves, conhecido como “Carvoeiro”. Não foi possível confirmar se a origem do mesmo se poderia ligar à família do mesmo nome que viveu no final do século XVIII na freguesia de São Cosme (Gondomar) e Goães (Amares) ou de um ramo da mesma família que vivia na primeira metade do século XX em Dominguizo, uma freguesia portuguesa do município da Covilhã.

Pela data e pelo carácter granítico da capela e da fonte que se encontram no terreno da propriedade tal parece provável. Por relatos de moradores, José Maria Gonçalves seria natural do Minho (de recordar o painel de azulejos junto à porta), o que torna a segunda das três hipóteses (Goães em Amares) a mais provável de todas. Contactos com as três freguesias não foram, até agora, frutuosos.

José Maria Gonçalves terá emigrado do norte do país para Lisboa, como tantos outros dos seus conterrâneos, na década de 1930 ou nos começos de 1940, tendo trabalhado como carvoeiro, uma profissão muito importante numa época em que não havia gás canalizado nem energia eléctrica na maioria das casas da cidade.

Montou a sua empresa no Alto do Carvalhão, na zona de Campo de Ourique, que depois converteu num negócio de construção civil, com sede nos terrenos de uma antiga pedreira que adquiriu a Gustavo Santos Moreira.

Um carvoeiro de Lisboa. Vindo do Minho, José Maria Gonçalves fez fortuna em Lisboa, a vender carvão, nos anos 1940. Dedicou-se depois à construção civil.

Estes “carvoeiros” vendiam o seu carvão de porta em porta, em carroças puxadas por mulas (mesmo na década de 1940) e durante a guerra lucraram muito com o aumento do preço dos seus stocks durante a II Guerra Mundial, tendo alguns feito fortuna, como foi o caso precisamente do “nosso” José Maria Gonçalves.

Com esse capital, o “Carvoeiro” iniciou uma empresa de construção civil e aumentou a sua fortuna tornando-se num dos maiores construtores da zona de Lisboa até, pelo menos, os finais da década de 1960, tendo sido responsável pela construção de vários hotéis da rede Alfa, pelo edifício da esquina da Avenida dos EUA com a Avenida do Aeroporto, pelo Hotel Roma (sito na avenida de mesmo nome), pela sua ampliação e pelo edifício onde estava, até há bem pouco tempo, a REN na Estados Unidos da América, entre outros.

Nos arredores de Lisboa, construiu no final da década de 1960 ou começos da de 1970, com o arquitecto Fernando Silva, alguns lotes numa técnica “Tipo Túnel” na Portela de Sacavém e o Edifício Concorde, em Portimão.

Teve dois filhos homens, tendo um deles falecido pouco depois do pai e estando o segundo agora na posse da propriedade na Av. Gago Coutinho e que exerceu atividade também na área do imobiliário. Teve também uma filha que haveria de casar com o Dr. Fernando Heitor Barros de Sequeiros, juiz em Sintra na década de 1960, e, posteriormente, Juiz-Conselheiro do Supremo Tribunal Administrativo.

Vista aérea da Quinta do Carvoeiro.

O terreno agrega dois lotes, sendo assim maior do que a maioria dos terrenos de vivendas em torno, e foi decorado por uma capela e pela fonte “Anno de 1717” de que acima falámos que, segundo moradores, o proprietário teria comprado em demolições tendo-os desmontando, transportado e reconstruído neste terreno.

A origem destas construções é incerta, sabendo-se que teriam vindo do norte de Portugal, provavelmente de uma da zona de onde era oriundo, e que José Maria Gonçalves terá trazido porque gostava muito de História.

Fontes: Baltazar Ferreira; Frederico Carvalho; Alfredo Barbosa; Jorge Santos Silva.


* Rui Martins nasceu em Lisboa, numa Rua da Penha de França, num edifício com uma das portas Arte Nova mais originais de Lisboa. Um ano depois já tinha migrado (como tantos outros alfacinhas) para a periferia. Regressou há 18 anos. Trabalha como informático. Está ativo em várias associações e movimentos de cidadania local (sobretudo na rede de “Vizinhos em Lisboa”).

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