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Um dia, Ricardo Sebastião estava numa aula de design na faculdade. Não estava a “apanhar nada”, mas a música reverberava na sua cabeça. “Debaixo do chão…”, terá começado a trautear baixinho. “Acordo abaixo de cão…”, continuou. Ricardo pegou num lápis e pôs-se a escrever.

Escreveu e escreveu, até mesmo no transporte para casa, de Lisboa para o Seixal. “Só consigo escrever sobre aquilo que estou a sentir”, explica. E foi isso mesmo que fez: escreveu sobre a sua rotina diária monótona, de uma grande cidade, do centro aos subúrbios.

“Numa bicicleta e não na camioneta, estou farto de ser… semilisboeta”.  

Ricardo gravou a música e enviou-a aos seus companheiros de guerra e de música, os Sogranora, que foram logo trabalhar nela. Em pouco tempo, estavam a partilhar Semilisboeta, um hit que se tornou viral também, certamente, porque eram muitos os que assim se sentiam. Acabaram a levar a música ao EDP Live Bands 2019.

Foi graças a este single tão orelhudo que os Sogranora começaram a trabalhar com o seu produtor, José António Pedro do JAPESTUDIOS, e passaram a ser conhecidos por serem isso mesmo: miúdos do Seixal que, por fazerem grande parte da sua vida em Lisboa, se consideram “semilisboetas”. E havia tanta gente que se identificava com eles…

No Seixal, o estúdio onde os Sogranora gravam e ensaiam é um segredo bem escondido. Na sala de ensaios, as placas de isolamento forram as paredes e o que parecem ser estalactites (são painéis de difusão acústica feitos de esferovite) pendem do teto.

Ricardo Sebastião e Tomás Andrade percorrem as cordas das guitarras, Vasco Gomes gira as baquetas nas mãos. Têm o estilo de uma boy band de rock com influências que vão de Jack Johnson a Tame Impala e Capitão Fausto.

Parece um estúdio profissional, mas não é, como denunciam as prateleiras cheias de livros e jogos de tabuleiro e as janelas abertas para um terraço. É ali, na cave de casa de Vasco, que os Sogranora tocam e compõem. Fazem aquilo que sempre quiseram fazer e que ninguém (nem mesmo a pandemia) foi capaz de travar: música.

O estúdio nem sempre foi estúdio. Foi Vasco quem aqui montou a sede da banda quando a sua casa incendiou e ele e a família se viram obrigados a viver no piso subterrâneo.

Eram tempos de confinamento, e as distrações não seriam muitas. Vasco avaliou o espaço, onde ele e os amigos já se encontravam desde os tempos do secundário para tardes musicais, e imaginou ali os instrumentos, as placas de som, a régie. Aquele era o sítio ideal.

Afinal fora ali que, mesmo sem as tecnologias musicais, se deu corpo àquela que foi a primeira música destes “miúdos do Seixal”.

E foi o empurrão de que Ricardo precisava para se aperceber que o seu caminho não era o design, mas sim a música. Um pouco como Tomás, que por momentos pensou que o seu futuro seria a Biologia, mas essa ideia durou só um semestre.

Do John Mayer aos dióspiros

Hoje, têm pouco mais de 20 anos e têm todos estudos musicais: Vasco já terminou o curso de produção musical na Escola de Tecnologia, Inovação e Criação (ETIC), Ricardo está no último ano do mesmo curso e Tomás estuda Tecnologias da Música na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML).

Vêm os três de famílias com gosto pela música e começaram a tocar instrumentos cedo: Ricardo é autodidata da guitarra e sempre cantou (é o vocalista da banda), Tomás aprendeu a tocar guitarra aos 10 anos (é o guitarrista) e Vasco aprendeu guitarra aos 7 e bateria aos 11 (é o baterista). Juntos, escrevem, compõem e arranjam as suas músicas, com Ricardo geralmente mais na parte da letra e Tomás e Vasco na parte dos arranjos.

Conheceram-se no basquete e uniram-se através da música… e do John Mayer. “O John Mayer foi a minha primeira influência para me tornar um guitarrista”, conta Tomás, que um dia fez uma publicação de parabéns ao artista numa rede social.

John Mayer não lhe respondeu, mas Ricardo sim. Ao duo, juntou-se Vasco, bem conhecido no Seixal pelas suas bandas familiares, uma delas de metal com o pai.

Foram eles os resistentes de uma banda que começou por ser composta por seis elementos (que entretanto saíram por questões pessoais) e que tocava covers em festas de amigos, batizados e bares do Seixal. O problema? Não tinham nome…

Os Sogranora começaram por ser uma banda de covers… sem nome. Foto: Inês Leote

“Houve mesmo uma noite em que nos apresentámos como os ‘Dióspiro’”, recorda Vasco entre gargalhadas. A luta pelo nome – que se estendeu no tempo – reflete bem aquela que sempre foi uma característica da banda: o conflito. “Queríamos que o nome tivesse que ver com conflito porque somos um pouco conflituosos, é uma coisa semi-saudável”, diz Ricardo.  

Demorou, mas a questão seria resolvida com o comentário de um amigo deles numa festa: “Nunca percebi nada disso das sogras e noras”, referindo-se às relações confusas de parentesco. A sonoridade ficou-lhes no ouvido.

Ainda para mais, descobriram que “sogranora” é o nome popular atribuído à flor amarílis, que tem “duas cabeças” de costas uma para a outra, “como uma sogra e uma nora”. “Encaixava perfeitamente na nossa ideia de conflito”, afirma Tomás.

De uma banda de “cave” a uma banda “a sério”

No “estúdio-cave”, há quadros de amarílis expostos, a imagem que se tornou o logo da banda. A amarílis será aliás capa do segundo EP que vai incluir o tema Semilisboeta e algumas das músicas que escreveram nos primeiros tempos quando passaram de uma banda de covers para banda de originais.

Por aqui, há também uma memória do primeiro EP, já lançado e composto em tempos de pandemia, que se encontra encaixilhada: é uma fotografia da capa, com três reis magos a cavalgar no deserto. “Queríamos passar a ideia de viagem, de isolamento e de descoberta”, diz Tomás.

São EPs que contrastam um com o outro. Altivez e Castigo, o primeiro, foi o resultado de dias de isolamento, em que praticamente não estiveram juntos mas em que iam enviando faixas uns aos outros. É um trabalho de “rock progressivo” com um tom “melancólico e exótico”.

O segundo, que ainda não foi lançado, é “mais adolescente” e remete para as “inseguranças” de quem está a começar no mundo da música. “É um bocadinho sobre o cliché de seguirmos o nosso sonho”, conta Vasco. E por isso mesmo é mais “ingénuo”, “pop”, “upbeat”.

O último EP não foi gravado neste estúdio, mas eles querem conservar o espaço, que é cada vez mais deles. Sonham um dia poder gravar músicas aqui com as mesmas condições que encontram nos estúdios de produção. Até lá, têm vários projetos, que não passam só pelos Sogranora mas também por tocar com outros artistas e compor para curtas-metragens.

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“Cá para ver”, do EP que sairá em breve. Vídeo: Inês Leote

Mais de imediato, estão dedicados ao concerto de dia 5 de março no Fórum Cultural do Seixal. Sobre a terra deles, nunca escreveram. Talvez um dia o façam, como muitos outros artistas. Gostam de estar no Seixal e não se imaginam noutro lugar, pelo menos por enquanto. Ali, sentem-se próximos de tudo, e de Lisboa. “É mesmo caso para dizer que somos semilisboetas”, diz Tomás com um sorriso nos lábios.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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