Foto: Elena Mozhvilo/Unsplash

Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Sophia de Mello Breyner Andresen, num dos seus poemas que mais não é que uma oração pela paz, pedia a Deus uma paz sem vencedores nem vencidos: “Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos / A paz sem vencedor e sem vencidos”.

Não sei em que circunstâncias o escreveu, sei que foi publicado em 1972, mas, ao olhar para o que se está a passar na Ucrânia, esta tem sido também a minha prece.

Nunca pensei que neste segundo milénio, em que todos vivemos aparentemente num mundo civilizado, em que todos percebemos que cabemos neste mundo grande e belo, em que todos somos seres humanos com os mesmos direitos e os mesmos deveres, assistíssemos a esta invasão de um país que se acha mais soberano, potente e superior que os outros.

Nunca pensei que pudesse vir a assistir (por agora ainda só a assistir) a tanta desolação, crueldade e angústia. Quanta regressão nas balas e mísseis disparados contra pessoas inocentes; quanta regressão ao vermos famílias separadas, com mulheres e crianças a chorar e a fugir de medo, deixando para trás não só casas, bens e empregos, mas também os homens que amam, que há uma semana abraçavam as suas mulheres e os seus filhos e agora abraçam armas para defenderem o seu país, a sua liberdade, o seu futuro; quanta regressão quando as sirenes e o barulho do material de guerra teimam em falar mais alto que o diálogo que levaria sempre mais longe…

As armas destroem, o diálogo constrói.

Todos sabemos que a guerra nunca é caminho para a paz, todos sabemos que há muito lucro injusto com a guerra, todos sabemos que quem acaba por sofrer as consequências são os mais pobres, os mais abandonados, os mais vulneráveis. Sabemos, mas não nos convencemos.

Sophia, no seu poema, não pedia a Deus o fim da guerra, mas sim a paz. Nas suas palavras: “Dai-nos a paz que nasce da verdade / Dai-nos a paz que nasce da justiça / Dai-nos a paz chamada liberdade”.

Há um trabalho árduo, permanente e urgente a fazer em favor da paz. Ela é, ao mesmo tempo, forte e frágil: forte pela harmonia e segurança que traz, frágil porque, por muito pouco se pode acabar com ela.

A paz das grandes escalas começa com a construção dos pequenos actos: o reconhecimento do outro, do seu modo de pensar e de agir, da sua dignidade integral acompanhada da justiça, da liberdade… só os loucos e perversos podem alguma vez pensar que o ataque, a violência e a morte são solução de alguma coisa.

O mundo precisa de construtores de paz. De homens e mulheres tolerantes que falem, mas que respeitem o que outro tem para dizer; de crianças que entendam que se pode crescer sem inimigos, de homens e mulheres mais velhos que nos ensinem como se pode superar a violência e a intolerância.

A paz tem de ser o património da humanidade desejado, assumido e preservado por todos. Se assim não for perde o mundo e perde o futuro. Sophia era crente e pediu a Deus uma paz sem vencedores nem vencidos. Não é preciso ser crente para ser promotor de paz. Basta ser humano.


* Nasceu e cresceu em Marvila, Lisboa, há 46 anos. E há 23 que vive em São Domingos de Benfica. Frade dominicano, de 46 anos, a sua vida divide-se entre o convento e a cidade, sobretudo no apoio aos mais pobres, como voluntário da Associação João 13. Escreve por gosto e também por necessidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.