Jornal da Praceta Alvalade Carlos Fontes
Foto: Inês Leote.

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O ano era 1972 e Carlos Fontes, então com 18 anos, descobriu que para escapar à guerra bastava estar empregado num estabelecimento militar. Não teve dúvidas: como vivia em Santa Engrácia, foi bater à porta da Manutenção das Forças Armadas, no Poço do Bispo, em Lisboa, à procura de trabalho.

A iniciativa foi tão sui generis que o desconcertado soldado, apanhado de surpresa, remeteu-o para o diretor e, coisa vai, coisa vem, o jovem de barba mal semeada e um saco às costas onde se lia escrito à mão “Minha pátria está na lua, meu país está na tela e eu estou no pincel” conseguiu o emprego e escapou da frente de luta.

A versão resumida da parábola – e já voltaremos a ela – condensa o espírito irreverente e pragmático de um anarquista por princípio, dadaísta por simpatia e aristotélico por formação que há duas décadas é a voz e os olhos de Alvalade.

Carlos Fonte caminha por Lisboa atrás de notícias para o Jornal da Praceta, o mais antigo jornal local online lisboeta. Foto: Inês Leote

Um bairro escrutinado por um Carlos Fontes de 68 anos, mas com a mesma ousadia e método da versão adolescente, através dos artigos publicados no Jornal da Praceta, o primeiro meio de comunicação local em formato digital de Lisboa, fundado em 2001.

Um jornal que nasceu da contestação dos moradores da tal praceta José Lins do Rego, no Campo Grande, perante uma tendência em voga na Câmara Municipal de Lisboa de privatização dos espaços públicos. “A partir do início dos anos 1990, a CML passou a liberalizar dezenas de jardins, espaços e equipamentos públicos, transformando-os em parques de estacionamento”, recorda Carlos Fontes.

“Soubemos que a praceta na rua José Lins do Rego, o único espaço de convívio dos vizinhos na zona, seria o próximo. Decidimos organizar um grupo para tentar saber mais sobre o assunto, porém havia um muro na Câmara a bloquear as informações. A alternativa foi mobilizar os moradores de Alvalade e passámos a trocar informações numa lista de e-mails”, explica.

“Nos anos 1990, a CML passou a liberalizar dezenas de jardins, espaços e equipamentos públicos, transformando-os em parques de estacionamento”

Carlos Fontes

Desta troca, iniciada em 1997, nasceria mais adiante o jornal, como um espaço de divulgação das informações que faziam parte da extensa base de dados do grupo. O aparecimento de uma publicação online surtiu efeito imediato. “Não havia nada semelhante na internet à época e aquilo teve um êxito enorme, um impacto imenso”, diz Carlos Fontes.

De tal forma que o braço de ferro travado com a CML acabou por pender para o lado dos moradores e após 15 anos de luta as sucessivas tentativas de privatizar a praceta foram engavetadas, em 2013, e o histórico da epopeia está minuciosamente narrado e documentado no site.

Duas décadas de vigilância, com algumas baixas

As várias batalhas travadas nas últimas duas décadas pelo antigo jovem que driblou a guerra protegendo-se nas trincheiras do Exército levaram Carlos Fontes a escolher uma outra praceta para a entrevista, o Jardim Fernando Pessa, fora dos limites de Alvalade, no Areeiro. E por uma razão simples: o espaço público é vizinho à Assembleia Municipal de Lisboa, a arena onde o Jornal da Praceta disputa os braços de ferro com o poder público.

Carlos não renega suas origens filosóficas, anarquistas e dadaístas em todos os trabalhos que se propõe a fazer. Foto: Inês Leote

É nas sessões plenárias semanais do parlamento municipal que um atento Carlos Fontes acompanha da tribuna de imprensa os andamentos das atuais batalhas e os encaminhamentos dos futuros embates.

É um rosto conhecido dos deputados e vice-versa, pois Carlos costuma entrevistar os candidatos à presidência da Junta de Freguesia de Alvalade, bem como escrutinar os nomes que compõem as listas dos partidos e coligações.

“No início, as pessoas enviavam e assinavam os artigos. Com o tempo, porém, passaram a temer pela exposição, o que é natural num meio de comunicação de bairro”

Carlos Fontes

Através da sua investigação, sabe-se por exemplo, que o atual presidente da Junta de Alvalade, José Manuel Amaral Lopes (PSD/CDS), não reside na freguesia, assim como o segundo nome da lista vencedora, o economista Miguel Gonçalves, que segundo o Jornal da Praceta, nem sequer vive no Continente, mas sim no Funchal.

“Costumo entrevistar todos os candidatos à Junta nas Autárquicas. Lembro-me que a entrevista com o candidato vencedor, José Amaral Lopes, foi no restaurante Luanda, ainda durante a campanha. Duas horas de conversa registadas no meu gravador”, recorda, e a menção ao gravador não é feita por acaso, pois a tecnologia tem evitado problemas nestes mais de vinte anos de luta.

As baixas, porém, foram inevitáveis.

“No início, as pessoas enviavam e assinavam os artigos. Com o tempo, no entanto, passaram a temer pela exposição, o que é natural num meio de comunicação de bairro, onde todos se conhecem e são facilmente assinalados”, explica Carlos Fontes, sobre o ADN colaborativo que marcou os primeiros anos do Jornal da Praceta, hoje praticamente substituído pelo sistema de “eu-quipa”.

“Os moradores ainda passam informações, mas não dão a cara. Publicar ou assumir a informação é muito raro, ainda mais num bairro envelhecido como Alvalade”, continua. “Eu próprio tive de lidar com alguns constrangimentos, os telefonemas anónimos e vandalismos no meu carro”, conta. Apesar do receio das fontes, ainda costuma receber informações e denúncias que, sozinho, apura, redige e publica, no melhor estilo de exército de um homem só.

Carlos Fontes na tribuna de imprensa da Assembleia Municipal, uma das suas frentes na luta do jornalismo local. Foto: Inês Leote

Para além das informações que recebe e das sessões plenárias, outra fonte de informação do jornal é bem prosaica: as caminhadas pelo bairro. “Costumo sair de casa sem destino definido, mas atento ao que acontece. Se alguma coisa chama a minha atenção, paro, fotografo e questiono”, explica o jornalista, que na manhã da entrevista havia abordado universitários durante uma experiência social no Jardim Mário Soares.

“Os estudantes estavam a amarrar umas fitas no jardim, condicionando a travessia dos peões, para perceber como estes se comportavam diante dos obstáculos”, revela Carlos Fontes. “Abordei-os, fiz umas perguntas e dei o meu cartão para que entregassem ao professor e daí surgisse a hipótese de uma entrevista”, conta.

A filosofia aplicada num jornal de bairro

O dialético processo de apuramento das notícias não nega as raízes aristotélicas deste professor de filosofia, formado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, antigo docente da cadeira aos alunos do Padre António Vieira e Rainha Dona Leonor, ambas em Alvalade.

A entrevista prossegue com um passeio pelo bairro na companhia de quem conhece Alvalade como a palma da mão. A cada dois passos, Carlos Fontes aponta para um sítio e outro, a dizer “aqui foi isto, ali era aquilo” ou “tal político ou artista mora neste prédio”, orientando o percurso como a voz de um curioso GPS.

De Aristóteles, herdou também o conceito de “topos” não apenas como um marco físico, mas um lugar no qual é possível estabelecer argumentos. “Trouxe da filosofia para o Jornal da Praceta o propósito de levar as pessoas, no caso os leitores e os moradores, a tomarem as suas próprias decisões sobre o bairro”, resume o antigo editor e colaborador de publicações filosóficas, como a revista Logos.

“Trouxe da filosofia para o Jornal da Praceta o propósito de levar as pessoas a tomarem as suas próprias decisões sobre o bairro.”

Carlos Fontes

A carreira como articulista e editor anterior ao Jornal da Praceta, contudo, não se restringiu às publicações sobre filosofia. Antes, Carlos Fontes já havia sido redator do jornal anarquista A Batalha, uma lenda do jornalismo anarcossindicalista em Portugal, fundado em 1919 e ainda em atividade, e que já chegou a ter a terceira maior tiragem entre os jornais do país, atrás de O Século e Diário de Notícias.

O cartão de visita com a indicação de “Pintor Dadalogista” que Carlos guarda até hoje. Foto: Arquivo Pessoal.

Além das andanças pelo jornalismo, Carlos Fontes coleciona experiências profissionais em áreas diversas. A primeira delas, na publicidade. Antigo aluno da até hoje conceituada escola artística António Arroio, não tardou em ser contratado pelas agências publicitárias. Fez de tudo, inclusive, “colorir fotografias em preto e branco ”.

Apesar do trabalho formal do tipo nove às cinco, Carlos Fontes também costumava ser visto no horário pós-laboral na companhia nada disciplinada dos dadaístas, uma espécie de vertente anarquista do mundo das artes, empenhada em desconstruir os conceitos artísticos vigentes.

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Participava em performances nos cafés onde os dadaístas eram habitués, na avenida Almirante Reis, que culminavam com irreverentes desfiles sobre os tampos das mesas.

Ao apresentar-se, retirava um cartão de visita que o apresentava como “Pintor Dadalogista”, o qual ainda guarda até hoje, assim como os mandamentos que redigiu para definir os preceitos do movimento. “Preferi dadalogista para dar um ar mais académico à coisa”, diz, a rir.

A intensa vivência estética em jornada dupla – como publicitário e dadaísta – culminou com outras experiências profissionais, digamos, mais focadas, como dirigente na Direcção-Geral dos Espectáculos e Direitos de Autor e na Inspecção de Actividades Culturais (Ministério da Cultura). “Fui ainda coordenador e diretor de cursos de moda”, enumera.

Um anarquista nas Forças Armadas

Porém, bem antes disso, antes da agência publicitária, dos cursos de moda e das aulas de filosofia, foi justamente o anarquista e dadaísta que, aos 18 anos, bateu à porta de um quartel a pedir emprego, em meados de 1972.

Carlos Fonte, com o megafone à mão: vida dupla de ativista e funcionário de instalação militar. Foto: Arquivo Pessoal

“O soldado disse-me que o diretor não estava no momento. Insisti, pedi a morada do superior e ele, sem saber o que fazer, indicou-me”, relembra Carlos Fontes. “Então, fui ao sítio, um prédio, toquei à campainha e esperei. Uma voz de mulher atendeu, disse que queria falar com o comandante e ela mandou-me subir”, conta.

A tal “voz de mulher” era da esposa do militar, o diretor responsável pela Manutenção das Forças Armadas. “O diretor estava no banho e enquanto esperávamos conversámos sobre o que havia me levado lá. Argumentei com ela que estava sem trabalho e a culpa era da guerra. Tive a sorte de encontrá-la num dia de irritação com o marido – só depois soube que o genro havia sido preso pelos militares – e assim que ele surgiu na sala, a mulher apenas disse para ele resolver o meu problema.”

E assim foi feito.

“Se não fui preso naquele dia, não seria nunca mais”, diz hoje Carlos, que durante o tempo em que trabalhou nas instalações militares não abandonou os protestos. “Levava uma espécie de vida dupla: pela manhã, na Manutenção Militar, à noite a protestar”, conta.

Numa das manifestações, a polícia apanhou-o em cheio. “Fiquei todo partido. Fui salvo por um taxista que parou o carro e me socorreu”, diz. O curioso é que os ferimentos provocados pelos oficiais acabaram por ser tratados pelos militares. “Passei uns dias com dores terríveis no corpo e na cabeça. Contei umas histórias e foi o médico da Manutenção que cuidou delas”, conta.

A indicação do diretor concedeu a Carlos o estatuto de protégée nas instalações militares. “Durante dois anos, não fiz a ponta de um corno”, diverte-se. É uma meia-verdade. No fim de contas, apesar de não ter feito nada do que a sua função previa, a incursão do anarquista e dadaísta pelo quartel não passou, propriamente, em branco.

“Organizei um coro e montei uma peça, que foi encenada na própria Manutenção, o Amansar da Fera, de Shakespeare.”

Carlos Fontes

“Fiz parte do Coro da Manutenção Militar e entrei na peça O Amansar da Fera“, lembra. Com o comandante devidamente amansado pela esposa irritada, Carlos Fontes organizou inclusive uma greve, a primeira da Manutenção Militar, logo após o 25 de Abril. “Descobri que alguns funcionários não recebiam o décimo-terceiro mês, entre eles, eu.”

Carlos Fontes. Foto: Inês Leote

Antes da greve, a partir de uma caixa de sapatos, o artista esculpiu um peditório e passou dias a pedir doações aos militares para os empregados sem subsídio para o Natal de 1973.

“Até o próprio comandante acabou por fazer uma doação”, conta Carlos Fontes. A lembrança pontuada por uma gargalhada e os olhos deste senhor quase setentão ainda a faiscar, como os do jovem anarquista de dezoito anos que um dia driblou a guerra, mas acabou por encontrar no jornalismo a trincheira para travar as suas batalhas.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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