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Na inclinada rua do Largo do Mastro, junto ao Campo Mártires da Pátria, Arroios, Carlos “Tasqueiro” serve cafés há 11 anos. Ao senhor que naquela tarde se aproximou do balcão, marcando o passo com a sua bengala, serviu um copo de tinto e a sua atenção – eram novidades sobre a saúde da mulher. Recebeu também a visita de uma velha cadelinha a quem aguardavam pequenos biscoitos em forma de osso. Mas, para além dos clientes habituais, é bem vindo quem lá passar e pedir para comer, sem ter de pagar pelo que consome.

A quem pergunta, Carlos diz que o seu Doce do Mastro é uma “tasca antiga típica”, e no Facebook promete aos clientes comida caseira, bom vinho e um ambiente familiar. Mas à entrada e atrás do balcão estão afixados dois cartazes de fundo preto com destaque para algo que a distingue: “Café PARTILHADO”. E mais: PARTILHADO, OBRIGADO e AMOR.

Apesar de atravessar “alturas difíceis”, Carlos diz que só não dá aquilo que lhe pode fazer falta: “Ajudar não custa nada.” Estar em declarada falência técnica – o número de mesas foi reduzido no último ano e meio pelas restrições impostas devido à covid-19 e com ele Carlos viu reduzir também o número de clientes – o Doce do Mastro é também recorrente ponto de recolha de roupa, alimentos e produtos de higiene que Carlos e Susana Pinto, a companheira de luta, entregam diretamente a quem necessita pelas ruas de Lisboa.

Segundo Susana, que idealizou esta iniciativa em setembro de 2020, é a “vontade de ajudar” que deve sustentar o voluntariado e “não o paternalismo” em relação às pessoas mais vulneráveis. É esse o espírito do projeto social Teach How to Fish, que fundou em 2015, foi adotado por Carlos e consiste na possibilidade de qualquer cliente adiantar o pagamento de um café, uma refeição, uma sandes, um bolo, uma água ou um salgado.

A quem faltar uma cama e um teto ou a quem faltar um aconchego ao estômago, pode encontrar nestas casas uma alternativa às filas nas carrinhas de distribuição, pedindo uma refeição quente e um lugar sentado.

A ideia, pode ler-se no website do projeto, é “ajudar não apenas alguém que necessita, mas também os estabelecimentos que normalmente suportam sozinhos este tipo de contribuição”. Carlos mantém a tabela da contagem visível: havia, naquela tarde de dezembro, seis cafés, três refeições, sete sandes, quatro bolos, duas águas e um salgado por consumir.

Qualquer pessoa pode pedir, mas “muitos não sabem que podem comer aqui” e Carlos confessa não seguir as regras à risca – “às vezes nem conto os cafés”.

A ideia de adiantar o pagamento de uma bebida ou refeição quente em Lisboa tem já alguns anos. A Associação Renovar a Mouraria foi pioneira na cidade e abraçou na sua cafetaria a tradição napolitana do Café Suspenso e alargou-a a mais produtos: tornou possível pagar dois cafés, consumindo um e deixando o segundo em suspenso para ser servido a quem pedisse.

Ementa do Café Suspenso da Mouraria, em 2014. Foto: TVI24

Registavam-se com giz branco num quadro de ardósia as bebidas quentes, as sopas, pratos do dia, tostas mistas e bifanas pagos pelos clientes. Suspensos, somavam-se ao longo do dia e aguardavam por ser servidos.

Para alguns, a sopa suspensa tornou-se o almoço habitual, como David e Johnny, entrevistados pela TVI em 2014, quando a iniciativa foi implementada. Mais do que servir, a intenção, dizia Inês Andrade, que coordenava o projeto, era convidá-los a entrar e a integrar o espaço, como todos os clientes tinham direito a fazer.

Era uma prática diferente daquela que Susana descreve como uma rotina automática praticada por quem se dirige todas as noites, em fila, às carrinhas de distribuição de refeições no Martim Moniz ou no Cais do Sodré. Formam-se aglomerados de caras já conhecidas, entre si e entre os voluntários, que partilham um hábito “robotizado”, sem conversa, pouco humano.

Café em Nápoles, que adotou a iniciativa do Caffè Sospeso. Foto: Caffè Sospeso (2017) realizado por Fulvio Iannucci e Roly Santos

O direito ao café como prática de socialização está na base do movimento que surgiu em Nápoles entre uma comunidade italiana fragilizada pela Segunda Guerra Mundial e solidária com os mais necessitados. O antropólogo italiano Marino Niola conta, no filme Caffè Sospeso, que há quase uma regra natural no consumo do café em Nápoles: é algo inegável, “mesmo aos mais pobres”.

Nem tudo são rosas… ou cafés

Mas nem tudo são rosas. A concretização da iniciativa do Café Partilhado tem pouca expressão no Largo do Mastro e Carlos acha que se deve principalmente ao desconhecimento, mas “a vergonha de pedir” também pode ser decisiva. A fraca adesão também desmotivou a Pastelaria Mordido, em Odivelas, que há três anos deixou de praticar a iniciativa. 

Pedro Mordido foi apresentado à ideia por um amigo e decidiu adotá-la em 2014, quando também começou a circular a “Petição A FAVOR DO PROJETO “CAFÉS SUSPENSOS”. Conta que a realidade em Odivelas não se assemelha à das ruas do centro de Lisboa, não se veem “pessoas a pedir”, mas ainda assim manteve durante três anos disponível a ementa que criaram especificamente para o Café Suspenso.

“Eram mais as pessoas que deixavam algo [suspenso] do que as que apareciam para consumir”. Havia, contudo, uma preferência do lisboeta por deixar uma sopa ou um pão com queijo pagos, em vez de um café.

Diz que no bairro “há problemas, mas não são tão visíveis” e, como “todos se conhecem, não apareciam muito por vergonha”. Mesmo as pessoas mais carenciadas, “famílias numerosas, mas também famílias pequenas” recorrem a serviços sociais sem que os vizinhos saibam. “Sentem-se envergonhados”.

No caso do Mordido, o próprio estabelecimento optou por contribuir para a iniciativa, como Carlos tem gosto em fazer quando não atualiza a tabela. Quando Pedro decidiu cessar a iniciativa em 2017, a ajuda suspensa não tinha quase expressão mas havia um saldo – “acabei por doar o pouco valor que tínhamos”.

Pedro trabalha desde a sua juventude na pastelaria que o pai abriu no Bairro dos Pombais há 38 anos. Recorda-se de estudar e trabalhar de sol a sol para ajudar o pai com o negócio, mas hoje faz questão de chegar a casa a tempo de jantar com os filhos – e à hora do fecho, pelas sete horas, quando há “sobras”, são distribuídas entre os funcionários. Pode acontecer que com um pedido de café nos últimos minutos do serviço, o cliente leve consigo “um bolinho” que esteja na vitrine – recusam-se a “desperdiçar”.

Apesar de não ter tido sucesso, quatro anos depois a ideia de partilha e solidariedade permanece nesta casa em Odivelas.

Em Campo de Ourique, o “Café partilhado” está na renovada padaria Da Esquina, a uma passadeira do Mercado da freguesia, do chef Vítor Sobral, um dos sócios do grupo, a quem se junta Mário Rolando, o padeiro Da Esquina.

É no balcão de pré-pagamento que se pode ver o mesmo cartaz de fundo preto, que continua a convidar a ajuda de quem visita esta padaria. Foi Susana que a trouxe para aqui quando contactou alguns estabelecimentos em Lisboa para apresentar a ideia. A Padaria Portuguesa por exemplo, não teve facilidade em implementar a iniciativa devido à pandemia, diz.

Na Padaria da Esquina, apesar de a especialidade ser o pão, pode-se deixar pago um salgado, uma refeição ou uma sopa. A adesão à iniciativa é mais frequente, novamente, por quem pode adiantar o pagamento – e nem sempre por quem pode usufruir dele. “Como está [afixado] no balcão, as pessoas veem e querem deixar pago”, mesmo quem não é cliente habitual. Desde o último verão, esta padaria Da Esquina recebe pedidos de sandes, sopas e cafés.

É pouco comum, contudo, alguém pedir e sentar-se para comer ou para beber, como clientes – “pegam e vão embora com alguma timidez”, têm uma “certa vergonha”.

Ao final do dia, a casa distribui “o que sobrou” por três paróquias em Lisboa e, quando têm muita comida, entregam à  VITAE, a Associação de Solidariedade e Desenvolvimento Internacional, que presta apoio a pessoas em situação de sem abrigo, mas também à PSP ou aos Bombeiros, que ajudaram durante o confinamento.

Quando adotaram a iniciativa, não era possível alargá-la às restantes casas: em Alvalade, por funcionar apenas com um balcão no Mercado e fechar ao almoço, e no CCB, por ser “mais direcionado à atividade turística” e ter estado encerrado. A partir de janeiro, avança Inês, voltarão a equacionar a expansão desta ideia de partilha.

Dificuldades não matam esperança de ajudar

Embora exista ainda algum desconhecimento e quem pense que aderir à iniciativa requer custos adicionais, Susana acredita que se o propósito for bem explicado, pode “chegar a muito mais estabelecimentos” em Lisboa e pelo país fora. Até porque é muito fácil.

Qualquer funcionário ou dono de um café que tenha interesse em aderir, pode descarregar os posters e os autocolantes do “Café PARTILHADO” aqui, imprimi-los e implementar a iniciativa livremente.

Poderá gerir os pagamentos e as ofertas com post-its, funcionando por senhas, pode utilizar uma tabela como faz Carlos diariamente, ou ainda optar por registar num quadro de ardósia como se começou por fazer na Mouraria. O importante, no final, é que todos se sintam “humanos, como nós”, como Susana, como Carlos, como Inês e como Pedro.

Em dezembro de 2020, segundo os resultados do Inquérito de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, contabilizavam-se no concelho de Lisboa 3780 pessoas em situação de sem abrigo. Dessas, 3333 eram “pessoas sem casa” própria, que pernoitavam em albergues, alojamentos temporários, apartamentos de transição ou quartos sociais.

As restantes 447 viviam da e na rua e dormiam em “locais públicos e precários”: nos bancos dos jardins de Lisboa, nos vãos de escada de um qualquer edifício devoluto, nas arcadas e nas traseiras de edifícios de grandes empresas e conhecidos hotéis do centro.

Para Susana, esses números contam muito pouco sobre quem não tem um colchão limpo e um lavatório próprio. É por isso que prefere conversar diretamente com eles, fazendo diversos trajetos por Lisboa a pé, principalmente ao cair da noite, quando começa a ser preparada a pernoita.

Pelo arrefecer das noites, leva consigo na mochila algumas mantas, gorros e meias recolhidos ou doados por associações que colaboram com o projeto Teach How to Fish e a sua abordagem é sempre cautelosa, não querendo incomodar o final do dia de alguém a quem o dia pode ter custado a passar.


* Inês Leote nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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