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Rua Angelina Vidal acima, no cruzamento entre a Graça, a Penha de França e Anjos, desemboca um renovado prédio de paredes pintadas a rosa coral, que viria a inspirar o nome do Coletivo. No rés-do-chão, duas salas do Coletivo Coral, conseguidas através de um bem-sucedido crowdfunding lançado em abril deste ano.

Entre as salas Cardume e Recife encontram-se e circulam turistas, artistas, estrangeiros recém-chegados ou não, de passagem alguns, para ficar outros. Enquanto na primeira sala assistem a concertos, tertúlias ou debates organizados pela associação cultural Valsa, na sala ao lado provam as massas frescas com inspiração brasileira do Café Mortara acompanhadas por uma das cervejas artesanais selecionadas pela ArtesanaLis.

Foi na zona de Lisboa em que co-habitam mais de 92 nacionalidades diferentes e em que muitos imigrantes se fixam que o Coletivo encontrou o seu espaço ideal. “Aqui passa muito mais gente do que nos outros lugares. Estamos no cruzamento de três zonas e passa o elétrico, então tem muito turista, mas também muita gente que veio viver aqui para o prédio. Tem o nosso público antigo e tem muito estrangeiro. A diferença maior que eu sinto nesta zona é a quantidade de estrangeiros”, diz Letícia Mendes, 33 anos, membro do Coletivo Coral e co-criadora do Café Mortara.

Martha e Nika são duas dos sete dinamizadores do Coletivo Coral. Foto: Rita Ansone

No antigo espaço do Café, em Alvalade, o público mais tradicional não aderia tanto à cozinha italiana com influência sul-americana, mais atrativo para o público brasileiro que vieram encontrar naquela que é conhecida como a zona mais multicultural de Lisboa.

Sair do Brasil para começar do zero em Lisboa

Todos migraram do Brasil para Lisboa e só se conheceram cá. Victor e Letícia, de São Paulo, procuravam um lugar com mais segurança. “Eu acho que nunca abriria um negócio destes em São Paulo, porque nunca poderia estar às 22h com a porta aberta em segurança”, diz Letícia. Filha de pai português, a escolha por Lisboa foi fácil. Um clima de tensão permanente e a instabilidade política foram outros fatores decisivos para a mudança de país.

“Se já é difícil começar um negócio aqui, lá a gente nem começaria”, afirma Thiago Rocha, 39 anos, que à data vivia no Rio de Janeiro. Veio para Portugal à procura de maior tranquilidade e segurança e juntou as suas pizzas nómadas – Pizzandante – ao menu do Coral.

Já Nika, programadora na Valsa, encontrou a sua nova casa em Lisboa por acaso. Decidiu mudar de vida e veio a Portugal a passeio, ao encontro de uma amiga que estava a estudar cá. Tal como os companheiros de coletivo, apaixonou-se por Lisboa. Lembra-lhe a cidade onde cresceu em São Paulo, Santos, com a vantagem tão procurada da segurança.

Nika era programadora da Valsa, Letícia, que era jornalista no Brasil, abriu o Café Mortara em Alvalade. Agora, juntaram projetos no Coral. Foto: Rita Ansone

Todos emigraram para Portugal há cinco anos, à procura de maior qualidade de vida. Mas não seria fácil encontrar emprego na área em que se tinham formado. Letícia era jornalista, Marina era arquiteta e Martha e Pedro trabalhavam na área da Museologia. Perante tantas portas fechadas, decidiram reinventar-se e criar os três micro negócios que agora se unem no Coral.

Pedro e Martha já traziam a paixão por cerveja do Brasil e cá começaram a conhecer o circuito dos festivais de cerveja artesanal com o objetivo de abrir uma loja. Surgia a ArtesanaLis, em Alvalade, loja que ainda mantêm, a par com o espaço do Coral, por maior necessidade de espaço.

Vítor, de ascendência italiana, trazia o amor pela cozinha. Cresceu a fazer massa em casa e sentia falta de um bom restaurante italiano em Lisboa. Letícia tomou-lhe emprestada a paixão e criaram o Café Mortara, depois de terem começado a cozinhar em casa e a vender para amigos. “Eu acho muito mágico a gente comer ou cozinhar um negócio que alguém fez com a mão dela. Você sabe de onde vem, está apoiando uma pessoa”, diz Letícia.

A Valsa foi igualmente criada do zero. Surgiu há pouco mais de três anos e estava inicialmente sediada na Penha da França. Mariana Serafim (Nika), 32 anos e Marina Ginde, 30 anos, batalharam para entrar no meio cultural, foram atrás de editoras e artistas, trabalharam para se afirmar e agora até já são requisitadas para programar.

Criar um espaço confortável e seguro para a comunidade LGBTQIAP+ e para mulheres era essencial. Para isso, desenham mensalmente uma programação que inclui concertos, tertúlias e debates, com artistas de diferentes nacionalidades e eventos dedicados à comunidade, como o Karaoke Queer.

Apoiar artistas e produtores independentes é outra missão do Coral. Desde a identidade gráfica do coletivo à criação dos cartazes com a programação mensal, aos artistas que lhe dão vida ou aos doces, tudo é feito por pessoas independentes que ali encontram uma rede de apoio, com um espaço e um público para divulgar o seu trabalho.

Manter um pequeno negócio durante a pandemia: a dificuldade que gera união

Foi só em Portugal que os sete se conheceram. Em 2018, o espaço da Valsa abriu e Letícia, Victor, Marta e Pedro começaram a frequentá-lo. Letícia, apaixonada por cinema, começou a programar sessões mensais com a Associação e rapidamente criaram uma admiração mútua pelo trabalho uns dos outros. Ajudaram-se desde o primeiro dia e só faltaria uma reviravolta como a pandemia para que se unissem de vez.

Aos fins de semana encontravam-se e desabafavam sobre a semana. Partilhavam a angústia de ver as lojas desertas durantes vários dias e de não terem conseguido apoio algum do Governo. Confiavam uns nos outros e tinham-se tornado amigos, mais que futuros colegas.

Foto: Rita Ansone

O Café Mortara chegou a fazer entregas de pizza de bicicleta durante os confinamentos, a ArtesanaLis fez também entregas de cerveja ao domicílio, a Valsa fez uma programação online. Mas era insuficiente para manter os negócios.

O futuro parecia demasiado incerto e só a união abria horizontes. Foi por aí o caminho. Encontraram um espaço, lançaram um bem-sucedido crowdfunding com o apoio de antigos clientes e amigos e recomeçaram juntos num novo espaço. Passaram a partilhar tudo: gastos, lucros, decisões, conselhos e um público, que já era comum. “A gente já arranjou de tudo, de melhores amigos a casamentos, a apartamentos”, conta Nika. E até já lançaram um novo serviço de delivery.

A esplanada é um dos spots mais concorridos do Coletivo Coral. Foto: Rita Ansone

Abriram as portas do novo espaço em junho, com a programação do Circuito Lisboa. Recomeçaram com o novo fôlego que têm guardado para continuar a resistir à pandemia. Salva-os o uso da esplanada que, em jeito de varanda, recebe cheia os finais de tarde ao som de uma melodia feita de várias línguas e que sempre se mistura com o som arranhado e alto do elétrico.


*Rita Velez Madeira nasceu em Évora e aprendeu a fazer casa nas viagens de comboio entre a sua cidade e Lisboa, com vontade de escutar e contar histórias, de viver nesse lugar de fronteira que há entre nós e o outro. 

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