Os primeiros acordes de Crazy Little Thing Called Love ecoam pela pista e os pés timidamente começam a martelar o chão, ao ritmo do hit dos Queen. Cabeças agitam as melenas e os brincos de argola, os ombros ganham vida, para cima e para baixo. Um indicador desponta no ar e gira sobre o próprio eixo. Seguido de outro. E outro. As palmas fazem-se ouvir, num crescendo. Um “U-huuuu!” estridente corta o salão, oriundo do fundo do peito. Da alma. A mítica discoteca reabriu.

A Primorosa voltou à vida, pondo fim a uma silenciosa e melancólica pausa de 581 dias, forçada pela pandemia. A última vez que os primorosos e primorosas dançaram como se não houvesse amanhã foi a 7 de março de 2020, também um sábado. E para não deixar dúvidas de que os Saturday on Fire estavam de volta, a programação da rentrée foi a mesma da derradeira noite, ao som da banda Back Up, seguida da pickup do DJ residente Jay Lion.

Após mais de 500 dias encerrada pela pandemia, a Primorosa d’Alvalade voltou a abrir as portas e a pista de dança. Foto: Rita Ansone

Também como de costume, o set list foi composto hegemonicamente pelos sucessos da década de 1980, com ligeiras concessões aos 70 e 90… do século XX. Tudo do século passado.

“A nossa linha musical é o segredo do sucesso da casa”, explica Jay Lion, 45 anos, desde 2018 o responsável pelo espírito Regresso ao Futuro da Primorosa, para o deleite dos frequentadores, a maioria deles (assim como o repórter que vos escreve), com idade suficiente para ter ouvido o repertório em primeira-mão no rádio, gira-discos ou em cassette.

O DJ residente Jay Lion, responsável pelo set ao estilo “Regresso ao Futuro” da Primorosa, um dos segredos do sucesso da casa. Foto: Rita Ansone

“A ansiedade dos frequentadores era grande para o retorno”, revela Jay, que durante a longa suspensão manteve o moral dos primoroso em alta através de publicações na página da discoteca no Facebook. A noite de reabertura foi a oportunidade para cerca de 200 deles matarem as saudades da atmosfera alegre e bem-comportada da Primorosa, um número impressionante pelas circunstâncias, mas longe dos áureos tempos. “Houve uma noite em que chegamos a receber 450 pessoas”, lembra o DJ.

O recorde de frequentadores pode soar exagerado estando a Primorosa numa zona residencial, incrustada no subsolo de um prédio de dez andares, no número 128 da avenida dos Estados Unidos da América, a poucos metros de uma esquadra e de um centro hospitalar. O segredo para evitar que centenas de moradores irritados com o barulho e atormentados por noites insones apelem aos vizinhos da PSP ou recorram aos serviços da clínica, pode vir dos tempos anteriores ao da discoteca.

Caixa-forte, caverna e útero

“Isso tudo aqui antes era uma oficina de lapidar diamantes”, revela Ferreira, o chefe de sala da Primorosa, uma função que remonta a tempos distantes, como os refrães cantados pelos Back Up. Há 25 anos, é Ferreira quem recebe os clientes no salão do dancing, a conferir as reservas ou a indicar as mesas ainda livres aos visitantes tardios. Discreto, é também o responsável em manter a festa num nível civilizado, sugerindo a quem porventura destoar que talvez seja hora de voltar para casa.

A antiga oficina de lapidação de diamantes deixou como herança estruturas reforçadas por questões de segurança, quase como se a discoteca fosse erguida dentro de uma caixa forte. Some-se o revestimento de dez centímetros de isolante térmico que cobre paredes e tetos dos quase 500 metros quadrados do espaço e do lado de fora não se ouve nenhum piu.

“Passei dias encafuado com o escultor a moldar toda a estrutura interna com uma espátula”

Fernando Jorge, proprietário da Primorosa

O responsável por tudo isto é o empresário Fernando Jorge, o diligente e pacato proprietário da casa, um vívido senhor que nem de perto aparenta os seus quase 83 anos. Low profile assumido e renitente, ele nem se permite fotografar – nem com os frequentadores da Primorosa. E foi só mediante a este acordo de cavalheiros – devidamente honrado nas imagens que ilustram a matéria – que decidiu quebrar outro de seus princípios e conceder uma entrevista.

Aberta em 1966 como Pope Clube (assim, mesmo, com “e” ao fim de pop e club, por determinação do nacionalista Estado Novo), Fernando Jorge conta que a versão anterior da Primorosa tinha, mesmo com nome aportuguesado, “para Salazar, a reputação de um antro de perdição”. Embora mantenha discrição a respeito, reza a lenda que o Pope Clube só não fechou em definitivo pois tinha como habitués ministros do governo.

A atual denominação é de abril de 1974, após uma ampla reforma para receber os ventos de liberdade que a partir daquele mês soprariam em Portugal. Uma repaginação que foi além do novo nome, A Primorosa d’Alvalade Bailes. A aparelhagem passou a ser a mais moderna do país à época. E, especialmente, na arquitetura à Gaudí, até hoje impressionante, com as sinuosas paredes a emularem o interior de uma caverna.

O estilo “gaudiniano” da Primorosa levou um psicanalista a identificar traços “uterinos” na arquitetura.

Tranquilamente sentado a uma das mesas do imenso lounge bar anexo à pista de dança – sugestivamente batizado de Cyrrose – Fernando Jorge conta que mandou erguer estruturas de aço nas paredes e tetos, e preencheu-as com centenas de quilos de massa plástica. Os detalhes ondulados exigiram uma laboriosa técnica: “Passei dias encafuado com o escultor a moldar toda a estrutura interna com uma espátula.” Foi dele também o curioso detalhe de os sulcos que riscam as paredes nunca se cruzarem.

Fernando Jorge conta que o estilo “gaudiniano” da Primorosa levou um psicanalista a identificar traços “uterinos” na arquitetura. “Disse que a natureza ondulada indicava o meu temperamento não conflituoso, como uma pessoa que não gosta de criar arestas, o que é verdade”, analisa, recordando-se de quando a discoteca deitou no divã.

Cenário digno dos filmes de 007

Mais do que freudiana, a decoração extravagante da Primorosa – com destaque para os candeeiros de cobre fabricados em Marrocos que adornam as mesas – remonta a um espírito bondiano. Quase é possível ver o próprio 007 a circular pelo espaço, o smoking branco em contraste com o halo escarlate do ambiente, deixando a mesa de snooker para trás rumo ao balcão, onde está Clemente, o polido barman de gestos meticulosos, até mesmo quando empunha uma coqueteleira.

Se dependesse de Clemente, James Bond não ficaria sem o seu inseparável dry martini, a mítica mistura de gim e vermute, embora o barman confesse que a bebida preferida dos primorosos e primorosas seja outra. “Em primeiro lugar, está o gin tónico, acompanhado com lascas de zimbro ou pepino”, garante.

Desde 2010 na Primorosa, Clemente já perdeu a contas de quantas doses preparou, mas tem a certeza de uma única coisa: nenhum foi para o patrão.

“Pode parecer difícil de acreditar, mas nunca pus um gole de álcool ou um cigarro na boca”, jura Fernando Jorge, apesar dos 55 anos de vida noturna. Para além da abstinência, o segredo da sua longevidade em grande forma pode estar nas sagradas sete horas de sono diárias, independente da hora a que se for deitar. Um repouso que faz bem ao coração, assim como outro detalhe bem importante: “Nunca fumei ou bebi, mas namorar… ah, isso eu fiz bastante.”

Equilíbrio para abrir com segurança

Apesar do desejo de evitar conflitos, como analisou o psicanalista parágrafos acima, Fernando Jorge garante que a reabertura da Primorosa lhe provocou sentimentos ambíguos de alegria e apreensão. “Fechei a casa antes da determinação do governo e acredito que ainda era cedo para as discotecas abrirem”, confessa. Com o sinal verde, sentiu-se pressionado a suprir os anseios dos profissionais envolvidos no negócio.

Para não perder a tranquilidade, Fernando Jorge orientou aos funcionários para seguirem à risca às normas de segurança. Todos os profissionais não dispensam as máscaras e, na entrada da Primorosa o atento gerente Henrique escrutina os passaportes verdes de vacinação de cada um dos frequentadores.

O acesso à discoteca é um capítulo à parte, através de uma porta que surge do nada na garagem de superfície do edifício, como num delírio de Lewis Carroll. É por lá que se desce ao País das Maravilhas, não sem antes cruzar um improvável jardim tropical e topar, rumo ao subsolo, com uma enorme balança.

“É da coleção do patrão”, avisa o gerente. “Chegou a funcionar perfeitamente, tinha um moedário e tudo, até que uma cliente subiu, desequilibrou-se e tombou agarrada nela, avariando-a”, completa.

A solitária balança no jardim tropical recebe os visitantes e é paragem obrigatória para a selfie dos frequentadores. Foto: Rita Ansone

Mesmo avariada, a balança funciona como point para a primeira selfie da noite dos frequentadores que, ao contrário da fama de uma discoteca para senhores e senhoras, é bastante heterogêneo no quesito etário.

“Já é a terceira geração de clientes da Primorosa”, explica Fernando Jorge. “Perdi a conta de quantas pessoas se conheceram aqui, namoraram e casaram. Depois, vieram os filhos. Hoje, são os netos”, calcula.

A avaliação do proprietário constata-se na pista de dança, onde jovens com o telemóvel em punho dividem o espaço circular com homens e mulheres de cabelos prateados ou, no caso deles, sem cabelo algum, num inequívoco sinal de que a felicidade e a disposição não têm idade.

A pedido do dono, todas as noites na Primorosa religiosamente terminam embaladas por My Way, na voz de Frank Sinatra.

Apesar de bem-disposto, Fernando Jorge não se aproxima do dancing. “Gosto de outro tipo de música”, justifica-se. “Sou do tempo de Glenn Miller, da Moonlight Serenade”, diz o dono da discoteca, que segue sem criar arestas e não se intromete no repertório da casa. Com uma só exceção: a pedido dele, todas as noites religiosamente terminam embaladas por My Way, na voz de Frank Sinatra.  

O DJ residente não vê problemas. “Acho até que combina”, avalia Jay Lion.

Após encerrar as portas por mais de 500 dias por causa da pandemia, a Primorosa d’Alvalade voltou a receber os primorosos e primorosas de todas as idades.

E na noite de reabertura da casa não foi diferente. Por volta das quatro da manhã, Frank Sinatra deu a senha aos heróis da resistência de que a noite estava a terminar. Mas não a alegria, essa nunca, pois ao contrário dos meses sombrios do passado, na semana seguinte a Primorosa voltará a embalar as madrugadas de primorosos e primorosas. De todas as idades.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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4 Comentários

  1. Sou do tempo em que os jornais publicavam também a informação útil dos sítios sobre os quais escreviam: morada, contactos, horários – pelo menos isto.

    Penso que ainda faz falta ao bom jornalismo.

    Tirando isto, gostei de ler.

  2. Pena que já não se lembrem de alguns clientes!
    Temos de pedir por favor que nos deixem entrar????
    Temos de pôr os galões? Por acaso temos e humildade ! O nome não é Pomposo? Pois às vezes esses estão na cadeia e outros fogem!Por favor façam uma seleção, concordo mas é só para o amigo do amigo.
    Desculpem a sinceridade mas nasci na Av . de Roma e ainda vivo bem perto de vós.
    Boa noite e muitas felicidades.

  3. Gostei da reportagem, e tenho saudades de uma casa que gostava de ir na juventude, hoje ao fim de mais de 35 anos fora e pelo que li já deve ser difícil o ingresso na casa, mas nos meus tempos assim também o era.
    Continuação de muito sucesso

  4. Frequentei o Pope e o Pope 2 ( em Monte Gordo ) e a Primorosa desde a abertura até ao princípio dos anos 90 quase diariamente e sempre fui muito bem tratado por todos os que aí trabalharam ao longo desses anos . Mesmo no período em que foi Sarabanda continuei a ir mas mais raramente. Agradeço a forma que como sempre fui tratado .

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