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Sempre me neguei a baixar os braços e entrar na onda derrotista que o comum português tem perante o domingo. Temos dois dias de fim de semana, são eles a sexta e o sábado, já o domingo é uma espécie de profecia da dolorosa escalada que a jornada semanal compele.

Movido por este espírito refratário, um fim de semana destes decidi sair de Lisboa de carro e ir visitar os meus pais e amigos a Setúbal. Raramente sei a que dia estamos e caso saiba é sinal de que algo não está bem comigo. Naquele fim de semana, estava tudo normal, daí ter ignorado o facto de ser o último fim de semana de julho. Aproveitei o sábado e quando abri os olhos já era domingo, mas desta vez tinha-me precavido, fintando a ressaca e a paranoia existencial que a acompanha, criando planos auspiciosos e de certa forma ambiciosos para o dia seguinte.

O dia correu de feição, poucas ou nenhumas foram as vezes em que pensei na minha jornada laboral que teria início no tão infame dia seguinte e ao final do dia sentei-me no carro com a minha mulher e rumei A2 acima em direção às sete colinas.

Eu sei que aos domingos a autoestrada está reservada a todos os que regressam à capital. Cruzaram-na, dias antes, com o rei na barriga rumo aos diversos cantos do país, mas durante o regresso, aos domingos, ao cair da noite, o rei ordena que se construa uma estrada apenas para a sua estirpe.

Ora lá fomos nós. “Só o homem incorre nas mesmas ações uma e outra vez esperando um resultado diferente”. Não me lembro quem disse isto, talvez Einstein, talvez Voltaire ou Arquimedes, ou talvez nenhum deles, mas uma coisa era certa, estes senhores sabiam que a ponte 25 de Abril ao domingo é a receita perfeita para uma tremenda camada de nervos.

Nem tínhamos chegado sequer ao Fogueteiro quando começo a ver aquele mar de olhos vermelhos brilhantes e zangados a contrastar no lusco-fusco. Fui reduzindo a velocidade até parar por completo a marcha, a minha mulher suspirou, retirou as sandálias, reclinou o banco para trás e informou-me que ia dormir.

A rádio parecia não querer nada comigo e continuava a agredir-me com temas desprezíveis até que a acabei por desligar e contemplar o silêncio. É nessa altura que começam a chegar outros automóveis com corpos lá dentro. Estava na faixa do meio, obedecendo à minha pouco acutilante intuição, que tinha um talento especial para escolher as filas mais lentas, idiossincrasia com a qual vivia em paz.

Na faixa da direita parava uma jovem que aparentava ter uns trinta e picos anos, desdenhava o seu passado e repudiava ir visitar a sua mãe ao Alentejo, a primeira refeição que comeu com faca foi em Lisboa na faculdade e sentiu vergonha e raiva por ser uma provinciana, voltava à terra com um ar superior e passava os dias fechada no quarto a reclamar da velocidade da internet.

Não tardou até chegar o meu parceiro da faixa da esquerda, um alcoólico funcional que até da língua suava, foi aos anos do melhor amigo a Alcácer e mal pode esperar para que chegue o outono e o seu clima mais fresco para que possa ir para as esplanadas só de t-shirt e sobretudo, e sem aquele boné horrível que lhe tapa a tonsura.

Dei mais uma chance à rádio, podia ser que estivesse a dar a repetição de alguma boa entrevista ou algum programa especial, mas chamou-me a atenção o casal de velhotes que parou atrás de mim num Saab de cor encarnada comida pelo sol, um modelo dos anos 70 que o velhote passeou toda a vida com orgulho (hoje morre de medo de atropelar alguém e a sua pulsação dispara cada vez que entra na sua máquina sueca). Ele já não devia guiar e ambos sabiam disso, mas a filha única é médica e consegue ir renovando a carta ao pai à revelia do sistema. A velha é uma fascista carrancuda que nunca trouxe nada de bom ao mundo, não sabe guiar e nunca trabalhou, o único prato que sabia cozinhar era lombo de porco no forno e não se podia permitir andar de transportes mesmo que isso rebentasse o coração do simpático velho.

O carro à minha frente retira o pé do travão e avança uns poucos metros, eu faço o mesmo e paro ao pé de uma carrinha Audi topo de gama à minha esquerda. Lá dentro está um casal jovem com um golden retriever de pelo imaculado atrás. Ela no início não gostava de levar o cão no carro quando iam de férias ou fim de semana porque largava muito pelo, mas ele prontamente a acalmou ao explicar que no dia seguinte deixava o carro na lavagem da garagem das Amoreiras, local onde a sua consultora tinha reservado um lugar de estacionamento seu. Faziam amor às quintas feiras de luz apagada. Estavam a olhar para destinos exóticos no telefone e ambos se beijaram quando finalmente concordaram que as férias de 2023 seriam em Aruba num hotel de categoria. Toda aquela felicidade deu-me nojo e aguentei a marcha para os perder de vista, deixei até que um carro ruidoso de marca não perceptível se metesse bruscamente à minha frente, mal sabia ele que tinha escolhido a minha fila, aquela que inevitavelmente o levará mais devagar ao destino.

O escape da traquitana colorida que este jovem guiava era mesmo muito irritante, mas ainda assim conseguia ser menos do que a merda que passava na rádio. Fitei os seus olhos pelo seu retrovisor e percebi que estava incomodado. Ele detestava aquele carro mas era o único que a família tinha. Tentou focar-se no que o levava à cidade, tinha a sua apresentação final para completar o curso de Direito no dia seguinte e ia dormir a casa da namorada que também frequentava o mesmo curso, para acordar mais perto da universidade. A família era guineense. “Já viste algum advogado preto?! Isto não é a América mano”- foram as palavras que ouvira mesmo antes de sair do bairro, mas a confiança dele era inabalável, sabia que ia deixar a mãe orgulhosa, sabia que ia mudar o mundo.

Continuei naquela marcha lenta até finalmente vislumbrar os postes vermelhos da ponte. É aí que cada metro começa a contar e os motores começam a grunhir fortemente. Um experiente condutor sabe que a Via Verde da direita anda muito mais rápido do que a da esquerda e lá vai ganhando jarda após jarda para lá conseguir chegar.

Um Seat novinho em folha passou-me uma rasteira e eu fui obrigado a travar para ele prosseguir. O condutor vinha com a mulher e a sua camisa boa de fim de semana. Tinham ido passar férias juntos com os pais e a família do irmão, mas logo no primeiro dia a mãe espetou-lhe um punhal no coração, quando disse que o BMW em segunda mão do irmão era muito mais carro do que o bólide dele comprado a preço de novo. Para alegrar o seu domingo de volta ao trabalho, o frasco de cera que coloca no cabelo tinha acabado e não gostava de se ver com aquele volume capital. Sem o tal efeito molhado, a sua confiança não era a mesma.

A mulher estava ao lado dele como um corpo presente, tinha detestado as férias e as supostas lições de moral da sogra que lhe dizia como ser uma “boa esposa”. Estava contente por voltar ao laboratório, onde acreditava estar prestes a descobrir algo realmente valioso para a sociedade. Tinha desfrutado mais daquele linguado que deu na sua amiga Sónia quando estava bêbada na faculdade do que todos os quilómetros sexuais com o seu marido misógino. Desejei-lhe força para dar o passo em frente, ainda que apenas telepaticamente.

Finalmente, entrei no tabuleiro onde a marcha fluía e os automóveis dançavam ao som daquela nota grave e metálica até cruzar o Tejo. A minha mulher acordou e pediu para mudar de faixa, pois aquela vibração incomodava o seu sono, eu assim o fiz. A autofagia de segunda-feira não tardava em começar e lá estava Lisboa, pronta para mais uma vez nos tolerar.


*João Santos Pereira vive entre o Mediterrâneo e a sua querida Lisboa. Fingiu estudar em vários sítios, de onde até um Mestrado em Gestão Desportiva surgiu, mas sempre aprendeu mais com as pessoas do que com o ensino estabelecido. Viaja pelo mundo, a pé sempre que pode, o mesmo aplica na cidade das sete colinas. Gosta de beber vinho tinto e de jogar à bola, acompanhado por gentes de falas várias, sempre que possível. Dedica posteriormente o seu tempo a escrever as aventuras que daí advêm.

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