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Foto: Amélia Monteiro

Há mais de dez anos, Patrick Ribeiro estava sentado num laboratório de Física, em Dresden, na Alemanha, a trabalhar no seu doutoramento. A vida era então ocupada pelas horas de trabalho intenso e tédio a olhar para uma máquina. Com as olheiras cavadas bem fundo, o jovem passou a consumir documentários para se manter acordado. E, sem o saber, começava a criar espaço na imaginação para as ideias que lançariam o Umundu, um festival coletivo para a transformação sustentável, hoje já na sua 13ª edição em Dresden e segunda em Lisboa.

No palco do auditório Orlando Ribeiro, na Junta de Freguesia do Lumiar, onde se dá início ao lançamento do festival Umundu, Patrick recorda a história que o arrancou da cadeira de laboratório e o fez mudar de vida.

“Comecei a ficar viciado nos documentários”, conta, “Fiquei espantado por temas tão importantes não estarem a ser falados nos media”.

Foi assim que decidiu criar uma noite de filmes documentais aberta ao público que, contrariamente às suas expectativas, atraiu a comunidade e levantou a discussão, chegando mesmo a causar choque e revolta. “Fosse qual fosse o tema do filme, no final de contas, o debate centrava-se sempre no sistema económico – no consumismo –, e no impacto que este tem no planeta Terra e nas sociedades”.

Perante as conversas que iam surgindo, o português começou a sentir que faltava “uma plataforma”, “um espaço onde as pessoas pudessem aprender e trocar ideias para pensar soluções”. E assim a ideia de um festival com uma dimensão informativa, mas também cultural e atrativa, começava a fervilhar.

Em parceria com o seu amigo Sascha Kornek, Patrick conseguiu…

Patrick Ribeiro recorda a criação do festival Umundu, na sessão de lançamento da segunda edição em Lisboa. Foto: Amélia Monteiro

Em setembro de 2009, o festival Umundu chegava a Dresden, incluindo uma variedade de eventos como palestras, projeções de filmes, exposições, oficinas, visitas guiadas e, no final, um mercado onde se juntavam todos os participantes. Tudo isto sem esquecer a música, as performances artísticas e os convívios.

“As pessoas sentem que fazem parte de algo maior”

Escusado será dizer que o festival foi um sucesso. Mas o que é que, afinal, faz do Umundu um evento realmente diferente?

“As pessoas sentem que fazem parte de algo maior”, explica Patrick. “No Umundu, cria-se um sentimento de família e de coletivo”. Na Alemanha, conta, houve mesmo anos em que até os bombeiros se juntaram para pendurar cartazes nas ruas.

“É um festival intergeracional e interdisciplinar, que conecta pessoas, e é onde muitos projetos nascem”, acrescenta o fundador. Patrick dá o exemplo das sociedades de transição, em Dresden, que se consolidaram através do festival, e até mesmo da criação da maior rede de hortas urbanas da cidade alemã, que sem o Umundu não teria sido possível.

“O Umundu dá visibilidade. Os projetos que trabalham numa área de nicho têm uma possibilidade de serem vistos. O festival torna-se, assim, numa plataforma”, resume.

Mais surpreendente ainda: este festival já mudou vidas. Como a de Sara, uma jovem estudante de doutoramento em Química que integrou a organização de uma das edições em Dresden. É Patrick quem conta a sua história: graças ao Umundu, Sara desistiu do doutoramento, conheceu o marido e, com ele, foi viver para o campo, onde hoje leva uma vida “mais simples e mais sustentável”.

Patrick Ribeiro, Hans Eickhoff e Maria João Cordeiro na sessão de lançamento do festival Umundu, no auditório Orlando Ribeiro. Foto: Amélia Monteiro

Uma iniciativa destas certamente não passaria despercebida, pelo que a terceira edição do Umundu arrecadou o mais alto prémio de sustentabilidade do Estado Alemão. Patrick descreve o dia da receção do prémio (que contou com a presença da chanceler Angela Merkel) com grande entusiasmo.

Transformado por toda esta experiência, o português a estudar na Alemanha viria a fundar uma empresa de consultoria e apoio a projetos de reflorestação a nível mundial. Foi esta empresa que o levou a sair da organização do festival, regressando entretanto a Portugal.

E, um dia, ao acordar, questionou-se: “E porque não um Umundu em Lisboa?”.

Um e-mail, um sonho e um plano

Hans Eickhoff, médico natural do norte da Alemanha, vive em Portugal há já 30 anos. E foi no dia 2 de setembro de 2019 que recebeu um e-mail inesperado com um link para o evento kick-off do festival Umundu, em Lisboa, a realizar-se em Alcântara.

Curioso, foi. E, num instante, passou a fazer parte do sonho de Patrick Ribeiro.

 “Criámos um grupo de cinco, seis pessoas que decidiram levar este projeto para a frente”, conta Hans. “Encontrávamo-nos para discutir o que é que poderia ser um festival Umundu em Lisboa”.

O objetivo? “Criar um sonho comum”, passando por quatro fases: “o sonho, o plano, a realização e a celebração”.

O grande obstáculo? A covid-19, que viria ameaçar a concretização do festival. Mas nem assim o grupo recém-formado perdeu a esperança. Continuaram a reunir-se – desta vez virtualmente –, até ser possível regressar às ruas. No entretanto, lançaram uma campanha de crowdfunding, angariando 6500 euros.

Hans Eickhoff é médico, natural da Alemanha, mas vive em Portugal há 30 anos. Ao receber um e-mail, entusiasmou-se com a ideia de realizar um festival Umundu em Lisboa. Foto: Amélia Monteiro

Finalmente, o primeiro Umundu em Lisboa arrancou dia 9 de outubro de 2020, na escola secundária Pedro Nunes, onde se apresentaram as ideias por detrás do festival, exibindo-se um filme sobre a idade do gelo. No final, como previsto, organizou-se o mercado, no Príncipe-Real (que se repete este ano, claro), o ponto de encontro entre todos os projetos que o festival agrega.

“Contra o vírus, e todas as suas limitações, conseguimos fazer o nosso festival Umundu”, termina Hans, com um grande sorriso.

Fazer a diferença em 2021

E em 2021, em Lisboa, que mudanças poderá trazer o Umundu? É Maria João Cordeiro, que trabalha na área da produção de eventos, quem sobe ao palco do auditório Orlando Ribeiro para falar dos próximos dias.

Este ano, são quatro os temas em foco: a sustentabilidade, a restauração de ecossistemas, o DIY (“do it yourself” – “faça você mesmo”) e a justiça social e ambiental. Um dia para cada tema.

Ao todo, serão mais de 90 eventos (51 presenciais, 25 online e 13 híbridos), com caminhadas, palestras, oficinas, documentários, jantares, conversas, eventos musicais, o mercado (que contará com uma instalação sonora sobre sons da biodiversidade) e ainda, pela primeira vez, um evento conjunto com o festival em Dresden, a ser transmitido online.

O festival estende-se até dia 5 de outubro e, para fazer parte de qualquer um dos eventos, basta inscrever-se no site.

Maria João Cordeiro apresenta o programa do festival Umundo 2021 em Lisboa. Foto: Amélia Monteiro

A grande missão acaba por ser sintetizada no discurso da última oradora do lançamento do festival, a mexicana Belén Carmona, psicóloga que se mudou para Lisboa depois de ter estudado a língua portuguesa e ter-se apaixonado pela cultura lusófona.

“O problema não é de amanhã, é de agora”, explica. “Começa-se a notar que jovens com menos de 25 anos estão a sentir ansiedade, não só pela mudança climática, mas também pela apatia dos governos”.

“Tenho-me sentido tão cansada, pergunto-me se faz sentido fazer algo”. Belén então respira fundo e contempla a audiência, para depois continuar, com garra: “Tenho trabalhado com crianças em situação de rua, em comunidades rurais, em comunidades indígenas, e se há algo que aprendi é que a esperança é uma estratégia de sobrevivência, a esperança ajuda-nos a refletir, a reagir e a procurar coletivos para fazer algo de maior impacto. Sem esperança, não há resiliência”.

A sessão de lançamento do festival chega a um fim, mas não sem antes se fazer um último apelo: o de que o público levante os braços, se ainda acreditar numa mudança em relação à emergência climática.

E, subitamente, os braços erguem-se pela plateia, simbolizando aquele que é o grande sonho idealizado por Patrick Ribeiro.


* Ana da Cunha nasceu no Porto, há 24 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna.

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3 Comentários

  1. Parabens Patric pelo sonho cumprido estou muito orgulhosa em saber que as tuas causas são pelo universo e pela conservação do planeta e que arrastas contigo os jovens , que bem precisam de ter líderes óptimos como tu um abraco

  2. Boa Patrick!!!
    Sabes uma coisa: Na minha velhice, que apesar de tudo é boa, só tenho pena que a minha geração tenha feito tantos tantos estragos no planeta e que agora a vossa tenha que remediar, ou pelo menos minimizar. Força e um abraço grande do vizinho do lado.
    Balixa

  3. Gostei muito da apresentação do festival. Muito interessante o seu conteúdo

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