A designação dos primeiros museus evidenciava a sua função original. Pedro I, da Rússia, teve o seu Wunderkammer, o Xá do Irão, o seu Ajayeb-khane e o Paxá do Egito o seu Muthaf. Todas estas palavras significam “casa das maravilhas”. Os primeiros museus não continham pinturas nem esculturas. Estas obras de arte eram admiradas em palácios, casas ou igrejas. A maravilha e a raridade não tinham lugar na decoração dos espaços familiares. Precisavam de lugares específicos, designados em consequência dos seus conteúdos.

O empreendedor portuense Álvaro Sequeira Pinto começou há quarenta anos a colecionar, inspirado pelas histórias asiáticas dos seus avós maternos. A sua coleção é atípica no seu foco:  tenta recriar o sentimento de descobrimento que tiveram os Europeus nos seus primeiros contactos com a Ásia. Não era a arte asiática que interessava aos portugueses do século XVI, mas os materiais naturais exóticos e os produtos trabalhados, disponíveis no mercado oriental: pedras de bezoar, presa de narval, corais, cristais de rocha, meteoritos e muito mais.

Estes objetos parecem-nos tão maravilhosos, hoje, como pareceram ao cientista Garcia de Orta, que os descreveu pela primeira vez em 1563. O cartaz para a nova exposição “Histórias de um Império”, na Fundação Oriente, mostra uma pedra de bezoar, montada em prata, com um remate de coral. Estas pedras, extraídas dos sistemas digestivos dos animais, eram consideradas antídotos contra o envenenamento e também por terem características afrodisíacas. 

Os Europeus compravam no Oriente este remédio potente com entusiasmo, sobretudo na Malásia. Também os chifres do unicórnio, depois identificados como presas de narval, vendiam-se por vinte vezes o seu peso em ouro. Dois exemplares estão expostos na exposição.

O foco da Fundação Oriente é um pouco mais tradicional. Em vez de se centrar nos elementos científicos ou exóticos da coleção, escolhe 140 objetos de entre quase mil, para narrar a história da interação de Portugal e com a Ásia, e as sínteses artísticas que resultaram dessa interação.

Uma simples caixa medieval, coberta de veludo, por exemplo, é transformada pelos artistas indianos e japoneses numa maravilha iridescente em madrepérola. Uma peça excelente da exposição é uma destas caixas em laca e em madrepérola, onde peônias, paulínias e camélias ondulam num ritmo gelado.

Artesãos indianos, chineses e japoneses começaram a executar encomendas de objetos ocidentais produzidos com técnicas locais. Dos contadores omnipresentes, a exposição mostra lindíssimos exemplares em teca, ébano, incrustados com marfim, e com puxadores metálicos dourados. Responder à procura ocidental tornou-se numa grande empresa para a dinastia chinesa do Qing, que produzia numa escala industrial serviços de mesa em porcelana, com as armas feudais da nobreza portuguesa.

Por fim, os objetos de culto para a liturgia católica, feitos em marfim e ébano, apresentam-se com destaque. Um menino Jesus é decorado com ouro e esmalte, posando com a transcendência do Buddha. 

A chegada dos portugueses resultou não só no comércio das artes. Chineses e japoneses observavam com ansiedade a aparência exótica dos viajantes nos seus grandes navios pretos. Uma telha em terracota mostra um desfile militar dos soldados portugueses, como a ameaça ou, se calhar, uma publicidade aos seus serviços. Uma pintura da época Edo mostra um casal da Ibéria com uma advertência explícita “estas pessoas são perigosas para o Japão.”

Os visitantes da exposição talvez achem que há demasiados objetos semelhantes, ilustrando o mesmo ponto. A organização e a pedagogia da exposição são muito claras. Aprendamos a história de porquê os portugueses terem navegado para o Oriente e qual era o impacto sobre a produção e o consumo de luxo na Europa e na Ásia.

Pessoalmente, eu preferia ver mais variedade da coleção. Esta oportunidade chega rapidamente, porque a nova extensão do Museu da Cidade do Porto vai servir como casa permanente desta coleção notável.

Talvez o Doutor Sequeira Pinto reserve o melhor para mais tarde.


* David Chaffetz é nosso leitor e é autor do livro Three Asian Divas: Women, Art and Culture in Shiraz, Delhi and Yangzhou (Abbreviated Press, November 2019). Esta crónica foi publicado originalmente no Asian Review of Books.

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