Tenho uma profunda admiração pelos músicos de Fado, já aqui o disse algumas vezes. Confesso que por vezes sinto até uma pontinha de inveja. E não é de agora. Eu que “arranho” mal e toscamente a guitarra clássica – ou viola – sinto literalmente nos dedos o que custa dominar um instrumento destes. E nem vou falar da guitarra portuguesa, que o meu querido Ricardo Rocha apelidou de instrumento “maldito”, com as suas doze violentas cordas de aço, capazes de causar dolorosas tendinites nos braços mais musculados. Então e os calos? Ui…

Não. O que venho aqui falar hoje é de outras coisas.

Quem não esteja por dentro dos processos e dinâmicas do Fado, não tem ideia da exigência mental – para além da física, claro – a que um músico está constantemente sujeito. Há questões que são inerentes a qualquer profissional “do ramo”: o treino intensivo, as horas de dedicação a aperfeiçoar a técnica, a testar a resistência, a conhecer o instrumento, seus limites e potencialidades. Mas depois há algo mais de que a maioria das pessoas não tem propriamente noção e que todos os dias me surpreende. Mas, vamos por partes.

Tive a incomensurável sorte de ter, ao longo da minha vida, convivido com alguns dos maiores músicos de Fado de sempre. Não foi apenas uma convivência frugal e inócua, não. Com muitos deles foi uma partilha intensa de conhecimento, experiências, histórias (muitas inenarráveis) e aventuras várias.

Correndo o risco de me repetir, ao longo destes mais de trinta anos nestas andanças das casas de Fado, pude usufruir da companhia e beber da sabedoria de personalidades como José Fontes Rocha, Joel Pina, Carlos Gonçalves, José Pracana, Francisco Perez Andión (Paquito), Fernando Alvim, João Torre do Vale (Zina), Pedro da Veiga, José Luís Nobre Costa, Tó Moliças (estes infelizmente já desaparecidos – mas nunca esquecidos) e ainda nomes como António Chaínho, Arménio de Melo, Jaime Santos Jr., o já mencionado Ricardo Rocha, Paulo Parreira, Ricardo Cruz, João Mário Veiga, Paulo Valentim, Carlos Manuel Proença, Rogério Ferreira… entre tantos outros, de várias gerações, cuja mestria sempre me deslumbrou.

Para não cometer a imperdoável falha de me olvidar de referir alguém, destaco aqui apenas o meu querido e genial Mário Pacheco, com quem convivi durante vinte anos no então seu “Clube de Fado” e o meu estimadíssimo sócio e amigo Luís Guerreiro, um artista ímpar que tenho a sorte de poder ver e ouvir diariamente no nosso “Fado ao Carmo”. Esta lista de nomes serve apenas para lhes prestar sentida homenagem por tanto que com eles tenho aprendido… e continuo a aprender.

Agora exponho o motivo da minha enorme admiração por eles, bem como por todos os outros que aqui não referi, mas que nem por isso merecem menos destaque ou constantes elogios.

Existem cerca de duzentos fados tradicionais. São melodias com caraterísticas específicas, métrica regular e sem refrão, que quem faz do fado vida deverá conhecer uma elevada percentagem. Estão todos, de certa forma, interligados por uma linguagem melódica e rítmica comum, por vezes muito semelhantes entre si, mas todos diferentes.

Para além destes, existem também os chamados fados-canção, sem métrica regular, na sua maioria com refrão, música e letra compostas especificamente para o mesmo tema, que pela sua proximidade à linguagem do fado tradicional, foram, aos poucos, sendo assimilados pela comunidade fadista e encarados como verdadeiros Fados. Destes há-os às centenas, milhares, ninguém sabe. Só Amália Rodrigues deve ter gravado uns duzentos!

E ainda temos as marchas e muitos outros temas gravados por intérpretes do fado que por um motivo ou outro não incluo nestas categorias. Eu, que tenho alguns anos disto, deverei conhecer relativamente bem talvez um décimo de todo este vasto repertório fadista, sendo que saberei cantar talvez uns cem ou cento e poucos.

Nenhum músico conhecerá (e duvido que alguém conheça) todos os fados que existem. Mas o que é certo é que os que têm por hábito atuar em casas de fado têm de estar constantemente preparados para a qualquer momento precisarem de tocar qualquer tema. Pior… em qualquer tonalidade! Pior ainda… cada fadista tem a sua própria interpretação, o seu próprio andamento, suspensões, etc. Para cúmulo dos cúmulos… tudo isto, quase sempre, sem ensaios, sem informação prévia, sem rede e quase instantaneamente! E no fim, tem de soar bem, homogéneo, coerente, porque os ouvintes estão mesmo ali à sua frente, observando tudo ao pormenor.

É a perfeita loucura, uma insanidade que talvez só tenha equiparação no jazz (e mesmo assim…), mas que para a grande maioria dos músicos no mundo significaria terem de tomar vários calmantes antes, depois e durante a performance. No mínimo valeria uma valente dor de cabeça! Atenção que isto nada tem que ver com capacidade, técnica ou talento. Mas esta ginástica mental que os músicos de fado têm de ter para conseguirem boas prestações neste meio é verdadeiramente incrível.

Dirão alguns que é fundamentalmente uma questão de se entender a linguagem dos fados, de saber “ler” os fadistas para os conseguir acompanhar. Mas não é só isto. É preciso muito treino, muitas horas de música nos ouvidos, muitas noites a ouvir e a ver os outros músicos… e claro, muita intuição, muita técnica e muito talento.

Vida fácil temos nós, os “canários”, que apenas precisamos decorar música, letra e saber o tom… ah não, esperem, às vezes nem isso sabemos e quem nos “safa” são eles, os músicos.

A minha devida e constante vénia, meus caros.


Rodrigo Costa Félix

É lisboeta, fadista com trinta anos de carreira, letrista, produtor, agente e coproprietário do restaurante Fado ao Carmo. Tem quatro discos editados, vários prémios e distinções – nacionais e internacionais – e uma vida inteira dedicada à promoção e divulgação da “canção de Lisboa”.

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8 Comentários

  1. Esta declaração é de uma grande humildade para com os guitarristas.
    Eu sou de Grândola, sou autodidacta da guitarra portuguesa, por ironia do destino o meu primeiro violista, foi exactamente o pai do nosso amigo Rodrigo Costa Felix ,na Hedade próximo do Canál Caveira.aonde até as tantas da manhã tocáva-mos e cantava-se do muito que eu sabia na altura,
    Lembro-me bem do Dr Alberto Mateus, do Sr.José Manuel Mateus e claro do pai do Rodrigo C.Felix.
    Depois a vida levou-nos por outros caminhos mo meu cáso,a trópa a guérra,saí da minha querida térra natal ,Grândola e nunca mais me encontrei com o pai do Rodrigo Costa Felix, gostaria qua ainda nos encontrásse-mos e tocáva-sse juntos.
    Um abraço Rodrigo,um abraço ao pai.

  2. Parabéns Rodrigo por este pequeno relato, mas enorme no conteúdo. De uma forma sintética está cá tudo o que é o QB de um músico de Fado. É isto mesmo que aqui está muito bem explícito. Um grande abraço e da minha parte como Viola de Fado que se revê integralmente na tua descrição, o meu muito obrigado.

  3. Rodrigo, muito interessante o teu comentário/homenagem aos músicos de fado e às particularidades da sua profissão. Eu, que por breves momentos fui um paraquedista no fado, sempre fiquei admirado com o que um bom viola de fado faz, como ele é o motor da música, como dá o “swing” ao fado, como ele é a base harmónica e a base rítmica em simultâneo, como se fosse a bateria e o piano de um trio de jazz. E não é para qualquer um saber o manancial de fados e fados canção que são necessários para se trabalhar numa casa de fados. E os guitarristas, que sabem as introduções de um sem fim de fados, nos tons que tiverem de ser, tocados ali em cima da hora. O fado é um grande mundo e um universo muito particular de que a maioria dos outros músicos não tem ideia.
    Um abraço para ti e parabéns pelo teu texto.

  4. Muito obrigado pelo seu ensaio sobre o que o Fado nos faz viver e nos ensina.
    Em 1979 conheci o meu querido amigo Carlos Velez e comecei a tocar Fado com ele, deixando de parte a música Pop-Rock que nos meus tenros 18 aninhos me povoava a existência. Com ele, conheci o Raimundo Seixas e o Zé Pracana e as noitadas foram-se repetindo. Depois veio a comissão nos Açores onde conheci o grande Viola e Guitarra Batista Ávila e com ele passei mais 2 anos de verdadeiro júbilo com a Viola na mão. Mais tarde, foi a vez de aprender com a mestria de Senhores como o Sidónio Pereira, o Alberto Raio, o Arménio de Melo … Mas a carreira Militar nunca me deixou dedicar ao Fado com mais entrega, por isso continuo aquele pobre aprendiz-de-feiticeiro mas com grande paixão pelo Fado … Hoje estou já desvinculado da “tropa” mas não da Aviação, sou Instrutor de Pilotos de Linha Aérea em Gatwick, Inglaterra mas …. tenho aqui a minha Alhambra e, com o meu amigo Zé Pedro, um músico de formação Académica e muito bom executante de Guitarra Portuguesa, (também ele lhe chama a maldita), cá vamos acompanhando as noites Fadistas de Londres e arredores.
    É verdade tudo o que o Rodrigo diz, tem noites de acabar com 60 Fados ou mais, os dedos direitos com as pontas de um violeta carregado, quase a esguichar sangue por todos os lados … a mão direita já com cãimbras … e, por vezes, a paciência um pouco afectada porque tem sempre alguém que diz com eloquência que “os cordas” é que não souberam acompanhar … Abraço !

  5. Grande Rodrigo, belo texto e tão merecido, abraço e muito sucesso para o “Fado ao Carmo “

  6. Simples, belo e humilde, os grandes artistas fadistas medem se por isso belo artigo. Parabéns Rodrigo C. F.

  7. Que bela descriçao perfeita e correta bravo Rodrigo os Grandes talentos são humildes e sabem valorizaar os outros. Enquanto o fado tiver ARTISTAS assim, todos teremos o nosso espaço. Bem haja, Rodrigo e felicidades para a sua carreira. Corgas

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