1. A luz incide por último no pico da montanha, onde não está ninguém para ver.

Isto parece-me uma metáfora para qualquer coisa, mas para quê?

2. As placas assinalam coisas que se passaram. Grandes coisas: uma obra-prima escrita em poucos meses, depois de uma espera de longos anos. Pequenas coisas, na óptica de um utilizador muitos anos depois: um casamento, por exemplo.

Audrey Hepburn casou, aparentemente, numa pequena igreja na pequena cidade de Morges, na Suíça. Tenho uma fotografia dessa placa, coisas que fazemos como turistas.

Nesse dia de 1969 em que Audrey Hepburn casou, o sol incidiu por último no pico da montanha como sempre.

3.
Em Lisboa há poucas placas dessas, ainda menos que se refiram a estrangeiros. Talvez mude a partir de agora, que a cidade se torna um local de passagem.

Por passagem, quero dizer, um local de onde se espera ver para onde se vai a seguir: perceber onde fica o pico da montanha.

4. Actores. Realizadores. Escritores. Fotógrafos. Músicos. As montanhas, os lagos, a ideia de haver muitas fronteiras para atravessar. Rodeada por todos os lados, uma espécie de ilha, e uma ilha é um refúgio. Esses refúgios estão assinalados diligentemente num lugar como a Suíça. Falta, é claro, as placas para todos os homens e mulheres que não deixaram obras nem memória, mas apenas o seu trabalho, talvez filhos.

Essas pessoas nunca quiseram sequer estar de passagem, mas apenas regressar.

5.
Os monumentos em Lisboa estão quase todos dedicados às partidas. Em Portugal, é a partida que merece os hinos, os fados. É a partida que deixa saudade. E é com a partida que se fantasia.

Mas o regresso é o pico da montanha. Parece tão perto e não se alcança. O regresso não é uma passagem. É definitivo. É dizer que se sabe onde se pertence.

6.
No topo da montanha também há placas mas dispensam os nomes dos homens. Assinala-se apenas a altitude. E a medida em que a neve torna parte do mundo intransitável.

Para subir é preciso planear a descida, o regresso. Isto é, claro, outra metáfora.

7.
S. não tem interesse nas montanhas. Não faz escalada nem caminhadas. Não faz esqui no inverno. Não costuma subir aos picos para ir ver as vistas dos lagos e de mais montanhas e comer fondue de queijo num restaurante de madeira como os turistas. Tem dois filhos pequenos. Trabalha muitas horas. Um dos filhos precisa de acompanhamento especial fora da escola, e isso precisa de mais dinheiro que, por sua vez, precisa de mais trabalho.

A meio das tarefas de limpezas, S. conta-me um pouco da sua vida desde que saiu da sua aldeia no norte de Portugal. Em comum, eu e ela temos apenas uma língua e sermos mães. Eu faço parte das pessoas que deixam coisas para serem limpas.

Não é que S. não aprecie a beleza das montanhas quando percorre as estradas na Suíça entre casa e trabalho, mas os seus olhos estão pousados no regresso. É um regresso onde apenas ela se espera a si mesma. Ninguém lhe pede que volte.

8. Os trabalhadores migrantes são um pensamento entre dois lugares. Não são estas as palavras exactas de John Berger mas é disso que me lembro do livro Um Sétimo Homem, do escritor inglês, sobre trabalhadores migrantes na Europa, entre eles muitos portugueses, publicado nos anos 1970.

O livro inclui fotografias do suíço Jean Mohr. Mudaram as roupas, os penteados, as comidas, os sorrisos das crianças, a densidade de corpos no espaço. As expectativas, as dúvidas, as poupanças, as horas de trabalho, nem por isso. Nem a sensação de que a vida que se vive não é exactamente a vida que era para ser vivida.

9.
Constantemente, procuramos metáforas. Procuramos imagens como a da luz incidindo no topo da montanha já depois de o sol se ter posto no resto do território. Pensamos em túneis que terminam em belas visões.

Isto é como aquilo. O nosso pensamento é feito de relações. Mas, às vezes, as relações falham-nos. Mesmo a História só parece mostrar como não proceder.

10. Lisboa, para alguém como S., é uma cidade sem existência material. É o símbolo para o qual todos trabalhámos tanto sem saber exactamente para qual proveito.

11. Não me lembro em que aldeia portuguesa foi que vi uma estátua de homenagem aos emigrantes. Era um homem com uma mala. Não era claro se partia ou se regressava.

12. Quando subo ao topo da montanha, a metáfora desvanece-se. Pares de namorados bebem cerveja e assistem ao pôr-do-sol abraçados. Grupos de amigos montam tendas para passar a noite. O topo é apenas um miradouro mais alto para ir ver que o mundo não acaba logo ali.

13. Já T., filho de migrantes que atravessaram um oceano mas que cresceu na Suíça, quando lhe digo que a visão das montanhas é bela mas me faz sentir enclausurada, responde que é assim que se sente em relação ao mar. Para ele, a visão do mar é magnífica e simultaneamente perturbadora. Como se o mundo estivesse errado. Ou ele. Pensa, sempre, em regressar.

14. Chego a Lisboa depois de estar fora e passam-se dois, três dias sem ver o rio. Noutro século, antes de o mundo ser um lugar tão veloz, isso seria impossível. Antes, chegava-se ao porto, e o correr do rio daria uma noção mais exacta de como o tempo passou durante a nossa ausência. Na verdade, como se estivéssemos estado sempre cá.


Susana Moreira Marques

É jornalista e escritora. Tem colaborado sobretudo com o Público e o Jornal de Negócios. Publicou dois livros de não-ficção. Gosta de cidades pela quantidade de histórias que habitam nelas. Foi para se perder no meio de ainda mais histórias que viveu em Londres cinco anos. Saiu do Porto com 18 achando que era temporário, mas ficou em Lisboa e é a Lisboa que sempre regressa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *