No jardim do Campo Grande, junto ao Caleidoscópio, o sol da tarde inaugura mais um dia de trabalho. A equipa da ARS, coordenada pela médica Sara Martins, prepara o posto provisório onde vão decorrer os testes. Como todas as quintas-feiras, estão ali para testar, gratuitamente, qualquer cidadão que assim o deseje.

“A forma de dar a volta a isto é testar, testar, testar, isolar os positivos, continuar com a vacinação em massa e mantermos os cuidados”, apela a médica. “Porque há pessoas que têm a ideia: estou vacinado, estou safo. Mas mesmo com a vacina, continua a ser um meio transmissivo. E os testes são uma fotografia do momento.”

Em Lisboa, apesar dos testes gratuitos, a adesão não tem sido a esperada. O Programa Municipal de Testagem disponibiliza testes gratuitos nestas Unidades Móveis Itinerantes que percorrem as ruas da cidade e são uma parceria da Administração Regional de Saúde (ARS), da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) e do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), com o apoio da Proteção Civil.

Desde 15 de abril que o programa de testagem da Câmara Municipal de Lisboa, antes reservado às freguesias com mais de 120 casos por 100 mil habitantes, foi alargado a todos. Ao abrigo do programa #LisboaProtege, de combate aos prejuízos da pandemia para a saúde e economia, os lisboetas têm acesso a dois testes rápidos gratuitos por mês nas farmácias aderentes — são mais de 100 estabelecimentos, que podem ser consultados no site da iniciativa. E, sem marcação, podem ir a uma destas carrinhas, em vários pontos do centro da cidade.

Apesar do feriado, quem mais adere são os estudantes.

Por isso foram escolhidos lugares de convívio e estações de interface da capital — como Entrecampos, Sete Rios e a Gare do Oriente —, com um horário semanal fixo. Os testes são antigénios de leitura rápida e qualquer transeunte pode ser testado: basta apresentar um documento de identificação válido, cartão de cidadão ou passaporte. Pelo que nem migrantes, ou turistas ficam de fora.

A médica Sara Martins é a coordenadora da ARS envolvida na iniciativa de testagem gratuita em unidades móveis itinerantes que estão em vários pontos da cidade de Lisboa. Para ela, testar, testar, testar é a melhor forma de reduzir contágios. Foto: Rita Ansone.

“A nossa população alvo são os jovens, principalmente a população que não está vacinada — embora o objetivo seja testar o máximo de pessoas de todas as idades, como é óbvio”, explica a coordenadora.

“Na semana passada, testámos aqui 100 pessoas, muitas delas jovens da queima das fitas, que depois iam estar a conviver mais uns com os outros e quiseram fazer teste. Penso que a população universitária está muito bem informada, inclusive jovens que estão a estudar na área da saúde e vêm aqui fazer [o teste].”

É o caso de Manjil Diganta, estudante do 1º ano de Medicina na Universidade Nova de Lisboa. Estava a par da iniciativa de testagem gratuita, mas não sabia que hoje a carrinha estaria no Campo Grande. “É a quarta vez que sou testado, a primeira numa Unidade Móvel. Já fui testado três vezes por jogar futsal, mas, havendo possibilidade, é sempre melhor [fazer teste]”. Após o tête-à-tête com a zaragatoa, Manjil aguarda, com os colegas, o resultado que lhe chegará via e-mail e SMS na hora seguinte.

O estudante de Medicina Manjil Diganta já foi testado quatro vezes, a última das quais na Unidade Móvel que estava no Campo Grande. Foto: Rita Ansone.

Detetar casos assintomáticos

Mas nem todos têm a mesma preocupação. Cabe à Proteção Civil, que acompanha todas as equipas no terreno, tentar chamar o maior número de pessoas ao posto. Enquanto a equipa de saúde atua, os delegados percorrem o jardim do Campo Grande a espalhar a palavra. Apesar da adesão à iniciativa ter sido flutuante nas últimas semanas, a médica Sara Martins considera a experiência “bastante positiva”.

E a afluência tem aumentado, garante, à medida que a novidade se espalha. “As pessoas aproveitam, vêm, e já nos começam a perguntar quando é que voltamos a estar. Portanto, quer dizer que as pessoas estão alertadas e isso é bom”.

Filipe Almeida, investigador na área de virologia no Instituto Doutor Ricardo Jorge e voluntário nas Unidades Móveis, explica que a falta de resposta aos testes não acontece por falta de informação – quando muito por excesso dela, ou desinformação. “As pessoas têm é algum receio do teste, que envolve alguma invasão nasal. Têm algum receio de dor, de marcas.” A forma de contrariar esse medo, afirma, é compreenderem-se os benefícios da testagem. “A vantagem que nós temos é bastante compensadora, porque obtemos um resultado, negativo ou positivo, e no caso de ser positivo podemos atuar o mais rápido possível.”

A testagem ainda assusta muita gente, mas pode ser praticamente indolor. Foto: Rita Ansone

Filipe Almeida, de tablet em punho, é quem regista os testantes do dia. O papel do INSA tem sido muito importante na programação e processamento de dados da testagem gratuita, destaca.

Um dos grandes objetivos da testagem gratuita é precisamente detetar casos ativos em população assintomática e isolá-los da comunidade na cidade. Caso seja detetado um resultado positivo para a covid-19 numa destas iniciativas, é feita uma nova colheita para um teste PCR para confirmação. A pessoa fica em isolamento, esse teste vai para um laboratório do INSA e, uma vez confirmado o resultado, o indivíduo recebe instruções do delegado de saúde.

A situação está complicada, em Lisboa, e sobretudo entre os jovens que perfazem a maior parte dos quase mil novos casos por dia, e com uma tendência crescente. Observou-se ainda, segundo o INSA, um decréscimo do número de testes para a deteção de SARS-CoV-2, para o qual contribuíram os recentes feriados.

Seria bom, alerta Sara Martins, ter uma carrinha de testagem gratuita mais que uma vez por semana no Campo Grande, onde a adesão por parte dos estudantes é elevada, “mas há poucos recursos, por isso estamos a tentar [fazer um esforço de divulgação], uma vez estamos num local, outra vez noutro.” Como os recursos também estão a ser alocados para a vacinação, muitos enfermeiros da cidade estão impossibilitados de trabalhar no programa de testagem. Mas esta será, neste momento, uma luta tão importante como a outra.


* Luzia Lambuça é vilafranquense de coração e lisboeta por opção. É estudante de Ciências da Comunicação e está a estagiar na Mensagem de Lisboa ao abrigo da parceria Repórteres de Bairro. Este texto foi editado por Catarina Pires.  

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