Foto: Mariana Mateus

Mais um dia, mais uma fornada de doçaria artesanal, polvilhada pelo amor ao ofício. Assim se faz história n’A Biscoiteira, conhecida em Linda-a-Velha por 46 anos de bolos e boas recordações. Vêm pelos doces, ficam pelos dois dedos de conversa. Foi em novembro de 2019 que Paulo Pereira também ficou. Entrou por estas portas com uma missão: devolver o sucesso de outrora ao negócio dos pais. E, entre a tradição e a inovação, o atual gerente conseguiu conduzir o legado familiar a bom porto, para sua surpresa, no meio de uma pandemia.

Na cozinha que o viu crescer, Paulo recorda a trajetória que o empurrou. Na infância, neste mesmo espaço, aprendeu os segredos da arte de bem cozinhar e bem servir ao lado da mãe, Maria de Fátima Pereira. Desde cedo as receitas marcavam presença no quotidiano do filho único, já a indiciar um talento que não tardou a transcender os limites da casa.

Requisitada por fregueses e estabelecimentos locais, Maria de Fátima levantava-se cedo para entregar bolinhos na zona de Algés, paixão que ganhava forma enquanto negócio rentável. Do futuro incerto, assinalado pelo advento da revolução dos cravos, surgia uma certeza – os que pretendiam adoçar o palato, batiam à porta da biscoiteira.

A pouco e pouco, a morada da família tornava-se demasiado apertada para albergar trabalho e vida doméstica. Foi em Linda-a-Velha que Maria de Fátima e o marido, António Pereira, procuraram expandir a microempresa, começando justamente por comprar a casa com a melhor cozinha. A 11 de março de 1975, o sonho de longa data materializou-se, por fim, na inauguração d’A Biscoiteira.

O filho, Paulo, acabou por trocar as formas culinárias por computadores. Licenciado em informática de gestão, o empresário correu mundo à boleia de grandes firmas ligadas ao mercado das telecomunicações. Mas aos 53 anos, as origens falaram mais alto. A intenção era regressar à Biscoiteira por seis meses, no seguimento de uma “má experiência” profissional. Contudo, rapidamente, a vontade de ficar prendeu-o. “Já ando por aqui há um ano e qualquer coisa e, como pode ver, ainda cá estou”, diz.

À procura de novos problemas

Quase meio século depois da sua inauguração, A Biscoiteira volta a ter à porta uma fila de clientes que aguarda pacientemente a sua vez, cenário tão otimista quanto curioso nos tempos que correm. As mudanças introduzidas por Paulo parecem ter compensado.

Mas afinal, o que motiva um homem de negócios a render-se às artes culinárias? Meia dúzia de palavras são suficientes para esclarecer a questão. “Estava farto dos meus problemas, então decidi arranjar problemas novos”, brinca Paulo. 

Os anos passados a responder perante CEO’s e hierarquias internas começavam a pesar. Mas nunca foi pessoa de desistir. Descobriu n’A Biscoiteira o seu escape, que em breve se converteu numa ocupação permanente. Os desafios resolvem-se agora junto aos fornos e balcão, sem dispensar as restantes lides burocráticas. À moda dos negócios tradicionais, Paulo encontrou o traquejo necessário para fazer “um pouco de tudo”. Acabei a discutir cêntimos quando antes tinha negócios de milhões”.

Trocou os negócios modernos por um com história e que parecia ceder à erosão temporal. Durante o período pós-revolucionário, as circunstâncias sorriam ao pequeno comércio, favorecido pelo maior poder de compra e pela, ainda escassa, industrialização do setor. Sob a tutela dos pais, a confeitaria começou, então, por florescer, conquistando um considerável leque de admiradores. Mas o início do milénio ditou outros ventos, ao favorecer as grandes superfícies. O equipamento ultrapassado e o comodismo da venda a granel constituíam sintomas de um mal maior: a confeitaria tinha parado no tempo.

Paulo Pereira atrás do balcão, pelo qual trocou a carreira em informática e gestão. Foto: Mariana Mateus

Só o olhar clínico de gestor do filho Paulo poderia fazer entrar a sorte por estas portas novamente. “Primeira lição de gestão que se deve aprender na vida é que não há empresas que se consigam manter. A empresa cresce ou morre”, diz. Ao ver o estabelecimento a estagnar e os pais a precisarem de pendurar o avental, Paulo percebeu que estava na altura de inscrever A Biscoiteira no contemporâneo.

Inovar em tempos de pandemia

“Mal tinha começado a trabalhar e achei logo que o negócio já ia acabar mal.” Temor que, veio a verificar-se, estava longe de se cumprir.

O negócio não só conseguiu manter o ritmo, como depois prosperou, em contracorrente com o início da pandemia de covid-19 que confinou o país. Paulo Pereira troca o extraordinário por miúdos: “as pessoas estavam em casa e precisavam de doces para serem felizes”. Uma missão feita à medida d’A Biscoiteira.

Conta-nos que as restrições sanitárias chegaram mesmo a despertar vários consumidores para a oferta do comércio local. Não foram poucos os que, obrigados a confinar, deram de caras com aquilo que sempre esteve ao seu alcance. Ao primar pelo regime take-away, a própria natureza da confeitaria favorece-se face à crise. Em caixinhas, saíam a bom ritmo húngaros, línguas de veado, areias e bolos de canela. Os clientes fiéis iam atrás das iguarias de sempre, os recém-chegados ansiavam por sabores inéditos.

Mas Paulo não se limitou a colher os frutos do acaso. Auxiliado pelos anos de experiência em multinacionais, alavancou um processo de reinvenção num negócio com história. Era necessário registar o nome, introduzir máquinas no processo produtivo e criar uma linha de montagem eficaz. Tudo tarefas que não lhe causavam estranheza. A equipa cresceu, passando de três a cinco empregados, com Paula Pereira, esposa do empreendedor, pronta a dar uma mãozinha ao balcão. 

A equipa d’A Biscoiteira é composta por (da esquerda para a direita) Paulo Pereira, Paula Pereira, João Marques, Paula Santos, Manuel Cabeças e Claudia Dinis. Foto: Mariana Mateus

A mudança tornou-se visível até no plástico em que são embalados os doces, onde está desenhado um novo logótipo – como os tempos modernos pedem. Foi idealizado enquanto homenagem a Maria de Fátima, a memória mais antiga desta casa. Um rolo da massa num fundo azul e um retrato da própria criadora destes doces fazem agora parte da nova imagem. Antes, um desenho de um rolo de papiro que anunciava a vermelho de onde chegavam estes biscoitos: d’A Biscoiteira. 

Nada melhor do que deixar a autenticidade falar por si e, nesse aspeto, este informático de profissão sabe que entrou no negócio em vantagem. O que nos diferencia dos outros eu não sei, mas o que é certo é que há muitos por aí que precisaram de comprar uma história. Se há coisa de que eu não precisei, foi disso”.

Obrigado e volte sempre!

Embora os ventos da mudança tenham enaltecido como nunca o potencial do espaço, no fundo muito se preservou. Das receitas de Maria de Fátima à qualidade dos ingredientes, as antigas imagens de marca estavam longe de ser subestimadas. Acima de tudo, continua a proximidade, indispensável no atendimento ao velho público – e que também vai aliciando o novo. Conversar com as pessoas, conhecer quem são e ao que veem, transformou-se na parte favorita deste doce que Paulo levava novamente ao forno.

“Uma das maiores perdas das empresas de maior escala é que não existe a genuinidade das pessoas que vêm a um ponto de venda comprar bolos”, diz. E a conversa é interrompida para o provar. Paulo sai duas vezes de cena para cumprimentar amigos e clientela fiel, episódios que fazem da rotina uma aventura todos os dias diferente.

Uma das missões de Paulo passou por revolucionar a imagem d’A Biscoiteira. Foto: Mariana Mateus

Como empresário, não deixou de ter os olhos sempre postos no futuro. No dia 15 de junho inaugura um ponto de venda na Praça de Londres. Até lá, Linda-a-Velha continua a reclamar A Biscoiteira como ponto de encontro local, aonde, mesmo os que estão longe, fazem por voltar. Porque Paulo não é o único que escolhe retornar às origens. “São as pessoas do bairro. São pessoas que vêm visitar os pais e aproveitam para vir comprar bolos de infância. São as pessoas que já nem moram aqui, mas que a caminho do trabalho passam por cá. A ligação à comunidade é total.”


*Matilde Dias é estudante de jornalismo na NOVA-FCSH e está a estagiar na Mensagem ao abrigo do projeto Correspondentes de Bairro. Este texto foi editado pela jornalista Catarina Reis

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2 Comentários

  1. Retrato de realidade polvilhado de apontamentos deliciosos.
    A história faz-se todos os dias. Parabéns Paulo.
    Excelente texto. Obrigado e escreve sempre.

  2. Fantástico trabalho!!! Demonstra a capacidade de, numa conversa perfeitamente informal, retirar os detalhes da história e captar os sentimentos por detrás da mesma.
    Obrigado!!!

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