Eu sei que não devia vir dizer isto para o jornal, mas estou tão farta de aturar a minha avó. Por um lado, quando me convidaram para escrever neste espaço onde figuram algumas das mais elevadas referências da nação, imagino que acreditassem que eu pudesse dar algum contributo de relevo, algum olhar sobre a vida em geral, algum conhecimento. Enfim, alguma coisa. Por outro lado, sofrer também é vida, a minha avó também é viva e, sinceramente, haja outra que a ature.

Quando a pandemia começou, os meus amigos temiam perder os avós. Eu temia ter de aturar a minha. Não é que as circunstâncias apontassem para aí, mas o medo é uma sombra que não larga. Fechada em casa, pensava que, pelo menos, não estava com ela. Sem poder ir a lado algum, pensava que pelo menos também não ia à casa dela.

Mais de 377 quilómetros distam as nossas casas. Os outros netos estão mais perto, eu seria a última a ter de levar com isto. Eles, claro, hão-de ter feito as contas e percebido que eu estava a ganhar com a migração para Lisboa, mas se pago mais pela casa, se me custa mais a estacionar, se nem sequer tenho garagem e muito menos um churrasco, se quase só tenho espaço para os livros, se num raio de 20 quilómetros, santo Deus, nem sequer há bolo com sardinhas, pelo menos podia colher o benefício de não ter de a ouvir, de a ouvir, de a ouvir.

Enfim, as minhas tias, que vivem com a minha avó, apanharam covid, e a partir daí foi cada um para seu lado. Um neto safou-se com os filhos e o trabalho, o outro argumentou com a vida em geral. Eu pensava que a A20 e a E1 me iam safar do tormento, mas nada, ei-los a exportar a minha avó num alfa, e eu a dizer adeus ao meu sossego, eu a dizer adeus ao meu descanso, eu a dizer adeus à alegria.

Eu sei que fica tudo contra mim, é tão fácil gostar dela, tão fofa e enrugadinha, uma rodilha encorrilhada que colhe a simpatia, e aquele sorriso que é luz, eu sei, o sorriso de gaiata que ainda não conhece o mundo. Olha-se para ela e parece tão fácil amá-la até ao fim.

Mas, por fofa e nonagenária que seja, a minha avó é capaz de infindáveis crueldades, é um Voldemort metido à força em 55 quilos de gente. Uma vez, do zero, sem provocação nem nada, só para me dar cabo da vida, meteu-me adoçante no copo de água. Também não sou de me ficar, reagi da única forma possível, e ela sem querer saber do meu tormento, do meu desencanto com ela e com a vida.

É sempre chato, e a má da fita sou sempre eu, que procuro forma de lhe infligir alguma punição para que ela não puna os outros. Umas vezes, aperto-lhe o nariz.

Outras, ameaço-a com o mata-moscas.

Mas nunca serve de nada. À volta dela, ninguém resolve o problema e os gatunos dos meus primos lá me exportaram a avó para Lisboa. Eu avisei logo que não tinha vida para a ir buscar ao Oriente, e eles explicaram-lhe “Sais na estação e vais para Sete Rios.” Já se estava mesmo a ver, às sete fui buscá-la ao rio. Saída em Santa Apolónia, curtiu o Tejo por ali fora, demorou a telefonar-me em busca de uma cabine, apesar de estarmos em 2021.

Claro, isto é queirosiano, mas não é oitocentista. Se o fosse, talvez a história desse um mortal para trás e tivéssemos aqui o relato de um amor. Afinal, é tão fácil imaginá-la a apaixonar-se pelo Jerónimo de Sousa, intuir-se que são almas gêmeas quando o vemos no Parlamento a dizer que já não estamos no tempo das cassetes, mas das disquetes, e as pessoas com menos de 40 já à toa. Seria bom, até romântico, mas esta é a história de como perdi a paciência.

A meio de uma reunião, lá atendi o telemóvel. Achei que fosse a NOS a chatear-me outra vez, mas não, era um senhor qualquer a dizer que tinha encontrado uma velhinha com um papel e a dizer-me, autoritário, “Venha já buscar a sua avó”. No chat da reunião, lá escrevi em novilíngua “afk”, que os mais desgraçados entenderão como “away from keyboard”.

Desliguei a câmera e o chefe há-de ter julgado que eu fui buscar um copo de água, mas não, tive mesmo de ir à outra ponta da cidade. Ainda fui optimista: 15 minutos para lá, 15 para cá. Lixei-me, que, assim que cheguei, a minha avó quis um lanchinho, e de nada lhe serviram as Padarias Portuguesas a brotar como cogumelos, o que ela queria era uma nata de Belém, que para um lisboeta será um pastel de Belém, e para um brasileiro será um pastel de Belém de Belém.

Como já ali estava, e como me é tão difícil dizer que não a um lanchinho, lá fiz a 24 de Julho a toda a velocidade possível, que foi de cerca de cinco quilómetros à hora. Quase a chegar, eu suava como os jogadores do Vilafranquese a levar uma abada do Vizela, ela reclamava porque Lisboa era um tormento. E queixava-se de tudo: era o trânsito, era o calor, eram os penteados dos rapazes. E pelo meio pôs-se a comentar um: “Como ele corre.” E eu: “Qual?” Ela apontou para um de calções verde alface: “Aquele rapaz novo.” Ora, o puto devia ter uns 65 anos, e apitei ao carro da frente para acelerarmos aquilo e eu não ter de assistir ao engate de uma avó.

Mas adiantemos. Em casa, recusou-se a comer sopa passada e disse, peremptória, que eu não devia ter posto pimenta. Às nove da noite, tive de ir ao take-away porque a menina não quis comer salmão. Às onze, acordada como se ainda fosse para o Bairro Alto, pôs-se a ver os Ubers da pizzaria da frente. E comentava, enquanto eu fingia de morta ou surda: “Todos morenos. Tanto músculo.”

No meio disto, esqueci-me de dar explicações ao chefe, de fingir que tinha desmaiado ou perdido um rim ou qualquer coisa que justificasse o meu “afk” durante horas. Aliás, até ao dia seguinte, não voltei a dizer-lhe uma palavra.

Às seis da manhã, a minha avó acordou-me. Queria saber dos copos, quando era óbvio que estavam dentro do armário. Dez minutos depois, quis saber da manteiga. Como não sou um animal, é óbvio que estava dentro do frigorífico, e zás, a meio da noite, levei com toda uma aula sobre resistência da manteiga, sobre a arquitectura de a barrar num pão. Ainda a dormir, lá lhe fiz um pequeno-almoço como deve ser, mas ela recusou-se a comer ovos e nem sabia o que era um abacate. Eram seis e vinte e eu na padaria à espera para comprar pão fresco como uma reformada que não ficou a ver Netflix até depois da meia-noite.

Depois disto, já não me adiantou tentar dormir. Fiz o meu café na máquina, tendo posto uma cápsula das caras porque merecia um mimo devido ao meu tormento. Procurei o tubo do adoçante, e ei-lo vazio, feito ironia da vida. Ao lado, estavam uns pacotes pequenos que a minha avó devia ter trazido, como se eu fosse uma troglodita que não tivesse adoçante em casa. Meti-o no café, enfiei tudo goela abaixo.

Comecei a trabalhar e disse que não queria ser interrompida. As pálpebras pesavam-me, mas aquilo era mais do que sono. O corpo pesava-me e parecia mais do que a nata da véspera.

Às 10h15, entrei na reunião. Os meus colegas falavam de gramática, mas eu pensava em matemática. Falavam de fonética, mas a minha capacidade de raciocínio era patética. Mencionavam as línguas europeias, eu ouvia-os falar de meias. O meu chefe falava devagar, qual indiano que medita, e o meu cérebro adormecido ainda lhe arrastava as sílabas, tirando um soninho a cada letra. Ele perguntou-me “Do you get it?”, mas ai Dharma, tenho a cabeça tão pesada que já não distingo hindi de inglês. Respondi-lhe “Ai yes, sim, sim, deve ser, I know it, good”. Acho que ainda me lembro de ouvir a Sarita a rir, de ver a Alicia a revirar os olhos, o Dharma a dizer qualquer coisa de útil ou inútil.

Quando abri os olhos, já a reunião tinha acabado, a noite tinha-se posto lá fora, a minha cabeça estava entornada na cadeira e eu tinha um torcicolo, a minha avó queixava-se a dizer que queria sopa, que não tinha vindo para aqui para passar fome, e o Dharma já me tinha enviado um email a dizer que eu estava despedida e que agora era com os Recursos Humanos.

Eu estava como quem leva com uma frigideira de ferro fundido na cabeça. Disse à minha avó “Acho que tenho covid” e ela disse-me que eu não tinha era idade para tomar a medicação dela em vez do adoçante. Só aí é que percebi que tinha sido drogada pela mãe da minha mãe.

Uma hora depois, já eu me sentia mais pessoa, embora me sentisse menos empregada. Disse então à minha avó que tinha batido no fundo, que ia ter de vender a casa, os livros, os miúdos. Ela, que é do tempo dos escudos e, mais ainda, que é do tempo dos centavos, deu-me um olhar profundo como o elevador de Santa Justa e a sua mão enrugada meteu-me dez euros na mão. Enquanto uma lágrima lhe caía, lá me disse “Mas não gastes tudo em vinho”, e eu nem sequer bebo.

Se calhar, não faz por mal, nem pensa em irritar-me. Resolvi perdoar e, enquanto punha a mobília à venda na Internet, dei-lhe um sundae

e ficámos amigas outra vez.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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6 Comentários

  1. Não consegui ler até ao fim. Apesar de dar a entender que poderia ser uma brincadeira, o texto “desagradável” é demasiado longo. Eu que já sou avó, mesmo a brincar não achei piada nenhuma no que consegui ler.
    Será que lá no fundo isto é o que os netos e filhos pensam de nós?
    Eu não pensei assim dos meus, nem a brincar…

  2. Também não consegui achar piada ao texto. Talvez por já ser avó, mas ainda não estou senil.
    Mas se estivesse demente o texto ainda seria mais cruel.

  3. Muito cómico! Corri a mensagem e escolhi o seu texto pelo título! Só com muito amor se escreve assim sobre a avó

  4. Nitidamente, é um texto humorístico. Começa por ser sarcástico, aparentemente agressivo, mas evolui com peripécias divertidas e acaba com grande ternura. Sou avó, já cuidei de netos, cuido agora de uma mãe nonagenária, entendo bem quanto gostaríamos de ter mais liberdade…, mas que nos dedicamos com amor… Gostei de ler, sim. E ainda aprendi segredos da “Novilíngua”!

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