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O meu avô nunca foi alguém importante no sentido em que as pessoas são importantes hoje em dia. Foi sem dúvida muito importante para a sua família e amigos e todos aqueles que o acompanharam nas suas aventuras, mas nunca foi importante no sentido em que hoje se fala de pessoas importantes.

Nunca teve um cargo sonante ou apelidos pomposos, nem nomes de ruas ou livros escritos. O meu avô nasceu, viveu e cresceu em Lisboa, de uma família de lisboetas desde sempre, e ali se fez bancário, depois pai e um dia avô. O meu avô era mais uma dessas pessoas sobre as quais não se escreverão poemas nem se contarão lendas. Mas era o meu avô António Abreu.

Hoje, enquanto escutava as histórias de gente importante que fez coisas ditas grandes durante a segunda grande guerra em Itália, eles velhos e velhas nascidos nos anos 1920, lembrei-me do meu avô. As histórias que eles contavam pareciam-me iguais às que ele contava e tinham as mesmas aventuras e pormenores deliciosos de quem viu quase uma centena de aniversários.

É certo que as deles envolviam salvar a pátria, tiros e mortes, enquanto as do meu avô eram de seminários, miúdos amigos, polícias carrancudos e muitos quilómetros a pé em Campo de Ourique. Em todo o caso, pelo menos para mim, aquelas histórias não eram nem mais nem menos do que as histórias do meu avô. Eram histórias de vida, de gente que contava coisas do antigamente, e todas elas me apanhavam a imaginação.

Nos passeios que dava com o meu avô pelas ruas de Campo de Ourique, o bairro onde nascera e fizera os seus amigos, e um dia conheceria a sua mulher, minha avó, ele contava-me sempre as peripécias por que tinha passado:

– Vês ali, no número 12, ali vivia eu mais a tua bisavó. Era uma mulher forte… assim como eu. Sempre fui para o gordinho. Olha e ali mais à frente, ali na esquina, um homem matou a mulher à machadada… assim no meio da rua. Olha e ali, ali jogávamos a bola – era eu, o Milhas e o Tozé – que era um génio da bola. De um lado da Igreja era uma baliza, do outro púnhamos uns sapatos ou o que encontrássemos. Eu ia sempre à baliza, já se sabe, porque era gordinho. E depois havia um polícia – chamavam-lhe o Orelhas – que apanhava os miúdos na rua e os levava para a esquadra do Rato por uma orelha.

– E a ti nunca te apanhou?

– Nunca.

As histórias do meu avô não seguiam nenhuma cronologia, nem respeitavam linhas de raciocínio ou sequer frases acabadas. Brotavam antes dos edifícios e das ruas enquanto as passávamos a pente fino, e iam para a frente e para trás no tempo, consoante as janelas ou as pedras da calçada o fizessem recordar momentos da sua vida.

Era em Campo de Ourique onde as histórias do meu avô tinham sido escritas e era só ali que podiam ser consultadas, com ele ao meu lado, dando passeios vagarosos pelas ruas do nosso bairro.  As histórias do meu avô eram edifícios, ruas e ele, ao longo de 87 anos de vida.

Quando morreu, no início do ano em que escrevo esta crónica, foram-se as histórias com ele. Durante meses chorei muito a sua morte, mas chorei ainda mais tudo o que aparentemente tinha ido com ele, e penitenciei-me por nunca ter escrito ou gravado tudo para que lhe pudesse prestar a devida homenagem.

Foi só num destes dias que me apercebi que as histórias do meu avô não tinham desaparecido com ele, mas estavam ali, vivas, em cada rua, beco e janela de Campo de Ourique. O meu avô continuava vivo no bairro e só precisava de alguém que por lá andasse e voltasse a interpretar as histórias invisíveis que subiam da Saraiva de Carvalho aos Prazeres.

Era nesse caminho, que ligava as duas pontas de Campo de Ourique, que o meu avô tinha conhecido a minha avó – ele de Santa Isabel e ela dos Prazeres – e cujo casamento só poderia para sempre significar a união daqueles dois extremos do meu bairro. Eram essas memórias que eu precisava de recuperar e a única forma de o fazer era trilhar os mesmos caminhos, desta vez sozinho e sem guia, esperando que os edifícios falassem comigo como há não muito tempo falavam com o meu avô.

Tal qual as histórias do meu avô, não saberei nunca distinguir o que é meu e o que é dele, ou o que é realidade e ficção. Tudo o que escreverei nestas crónicas de Campo de Ourique são as nossas aventuras, separadas por 60 anos, numa mesma Lisboa, num mesmo bairro de Campo de Ourique. Assim como o meu avô as contava, as minhas crónicas andarão para a frente e para trás no tempo, com personagens que entram e saem sem que se dê por isso, ligadas apenas pelo espaço físico daquele bairro.

São as peripécias do António Abreu, meu avô, enquanto caminhamos pelos suspiros das meninas à janela na Rua do Cabo, do rezingão Orelhas atrás dos miúdos na igreja de Santa Isabel, das velhas que coziam nos Prazeres, do senhor da mercearia que tinha um filho bastardo na Rua Correia Teles ou das duas irmãs professoras que ensinavam miúdos pobres na Rua da Arrábida.

Estas são as histórias de António Abreu, que viveu, cresceu e um dia desapareceu nas ruas de Santa Isabel, junto à Igreja onde casou, por entre ruas e vielas de memórias que hoje consulto, caminhando sozinho por Campo de Ourique.


* Lisboeta de gema, dividido entre o Saldanha e Campo de Ourique, Francisco de Abreu Duarte é doutorando em Direito e Tecnologia, fotógrafo amador e viajante profissional. Viveu em Bona, Nova Iorque, Bruxelas e Florença. O coração esteve sempre em Santa Isabel onde passeava com o seu avô.

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5 Comentários

  1. Que ideia fantástica, fico curiosamente à espera das próximas histórias!

  2. Interessante ideia. Não sou de Lisboa , mas estou preso a dois bairros lindos. Mouraria e Campolide. Tenho muitas recordações do largo do Terreirinho, Olarias, rua da Amendoeira do Capelão. Quando cheguei á Mouraria em 1944 ( quase todos tinham alcunha) passei a ser O Americano. Tempos do Arco do Pião do berlinde das caricas.

  3. Muito bom, é destas “pequenas histórias” que se faz a grande História, é por aqui que se encontram os verdadeiros heróis. Obrigado pela partilha e boa sorte e engenho para esta sua tão nobre tarefa.

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