Joana Pena, 86 anos, continua a não sair da sua casa apertada do Bairro da Amendoeiras, em Chelas. Tomou a vacina há cerca de 15 dias mas continua, tal como o marido, sem pôr o pé fora da porta. “Temos que nos proteger. Peço-lhe desculpa mas é impossível sair e não posso deixar estranhos entrar. A minha filha tem medo que me aconteça alguma coisa. Isto continua perigoso”, explica.

Não será bem assim, uma vez que a vacina dá um notável grau de proteção. Mas o medo pode ter efeitos prolongados, e parece que é isso que acontece a este casal. Joana saiu apenas três de vezes à rua, desde Março de 2020: uma durante o confinamento inicial, outra precisamente quando tomou a primeira dose da vacina e a última no dia da segunda dose. “Sentia-me bem, fui até à RTP com o meu marido e o meu genro. Só para estender um bocadinho as pernas porque já nem o ar fresco podemos respirar. Estamos sempre com máscara.”

Joana enviou uma foto sua, pelo telefone.

Há ainda outro fator que prejudica o pós-vacinação: as atividades da Associação de Moradores do Bairro das Amendoeiras que lhe ocupavam os tempos livres ainda não foram retomadas. A caminhada de cerca de meia-hora a passo lento não foi suficiente para matar as saudades das excursões organizadas. “As minhas pernas ficaram piores das varizes mas estou desejosa de voltar aos passeios. Se já não conseguir subir as escadas para a camioneta, espero que haja alguém que me leve em braços. Quero ir ao Alentejo e a Torres Vedras,” revela.

As aulas de bordado e de pintura que frequentava três dias por semana, também foram canceladas. “Com este bicho, parou tudo. Acabou-se o convívio, acabaram-se os passeios que dava com o meu marido depois de sair da associação,” lamenta.

Enquanto aguarda que as vacinas cheguem a mais gente, continua a matar o tempo com as únicas distrações que o seu confinamento de mais de um ano permite: “Vejo televisão e faço bordados. Ando aqui de volta de mais um paninho. Espero que um dia nos possamos encontrar, mostro-lhe os meus bordados nessa altura. Por enquanto, ainda é um risco.” Volta a pedir desculpa e desliga o telefone. 

Tudo na mesma, apesar de vacinados

Tem 91 anos mas foi preciso uma pandemia para Edite Costa sentir a sua autonomia posta em perigo. “Continuei a viver sozinha na minha casa mas pensei que a liberdade estava prestes a acabar-se”, recorda.

Edite Costa teve um ataque de tristeza na Páscoa, queria receber uma sobrinha em casa mas continuava com medo. Faz 91 anos em Maio. Foto: Orlando Almeida

O confinamento do último Inverno foi o mais difícil de suportar. Nunca abdicou de “ir esticar as pernas até à mata”, ali ao pé do Bairro das Amendoeiras, em Chelas, ou ao mini-mercado da frente “sempre que o sol espreitasse”. Mas os dias seguidos de chuva ininterrupta foram solitários. Aguentou à conta da televisão, da leitura, dos quebra-cabeças de Sudoku e das breves visitas das duas únicas filhas.

Perto da Páscoa desabou. As duas doses da vacina Pfizer estavam tomadas mas, ao contrário do que imaginara, as circunstâncias continuavam iguais. “Tudo na mesma: ainda trancada, mal via gente, tinha de andar de máscara, não podia chegar perto das crianças…”, queixa-se cerrando as pálpebras, um truque antigo que, quando resulta, funciona como uma espécie de barragem à enxurrada de água que ameaça inundar-lhe o rosto. (Além de uma estóica resistente às lágrimas e à solidão, Edite é, também, avó da autora deste texto). 

Foi mais ou menos por esta altura que decidiu “apanhar umas coisinhas” num supermercado grande. Mas avisou logo que voltaria a fazer o mesmo e ainda avançou que ia alojar uma sobrinha para passar a Páscoa. Mesmo quando os familiares lhe explicaram que o governo impedira deslocações entre concelhos e a relembraram de que tinha família para lhe tratar das compras de supermercado. “Mas agora vou ficar à espera, a incomodar os outros, quando posso despachar o assunto num instante? O que é que o governo disse desta vez? Já tomei a vacina, ainda não posso ver pessoas?”, disse. E a máscara? Outra vez fora do nariz. “Embacia-me os óculos e cai. Estou sempre a puxá-la para cima.” 

Sempre conheci a minha avó assim: independente, autónoma, indomável e muito refilona. Uma avó que é sinónimo de rodopio, um verbo ir, um tipo de pessoa em permanente plural, de agenda atolada de almoços, passeios, visitas a amigas, irmãos, primos, sobrinhos. Era raro o mês em que não fosse à casa ou à terra de alguém ficar uns dias. Apanhava autocarros, comboios, metro, barcos, camionetas. Tudo exceto aviões. Ou táxis.   

Aos 29 anos já era viúva e não voltou a casar. Preferiu estabelecer um compromisso com a própria liberdade e garantir que não voltaria a precisar da autorização de um marido. Numa época em que a condição feminina era ser-se propriedade de alguém, a minha avó foi cabeça de casal e criou um pequeno matriarcado. Tomava as suas decisões, trabalhava e criava duas filhas. 

Edite diz que a pandemia lhe trouxe lições, mesmo numa longa vida: não tomar nada por garantido, nem a liberdade. Foto: Orlando Almeida

A paralisação provocada pela pandemia soou-lhe a aviso divino. Pareceu-lhe um lembrete dos céus a recordar que ser-se livre é uma ilusão. Ficar fechada em casa na reta final da vida, só podia ser castigo. “Ou é para uma pessoa dar valor ao que tinha ou é para nos lembrar que a nossa vontade vale muito pouco”, vai dizendo, enquanto se senta num dos separadores de betão que delimitam a via pedonal em frente ao supermercado de onde acaba de sair.

“Ensina-me a pôr o telemóvel a funcionar”, pede. “Há uma tecla de emergência para chamar ajuda, caso me aconteça alguma coisa. Mas esqueço-me de o carregar e desliga-se. E a tua mãe e a tua tia tentaram mas não consigo aprender com elas. Já me zanguei. Tens de escrever num papelinho como se faz porque qualquer dia deito isto fora de tão farta que estou”, ameaça. 

Apesar das peripécias com o telemóvel, a assistência esteve sempre garantida. Assim como alguma companhia, mesmo em dias de chuva torrencial. “As filhas iam lá a casa mas nunca ficaram muito tempo. Era tudo sempre a correr.” 

Na Páscoa, escapou-lhe a sobrinha mas juntou-se aos bisnetos numa praceta do bairro. E é impressionante como dá chutos na bola e defende balizas sem cair. “Gosto de jogar com eles. Os pequenos alegram-me muito”, explica. 

Há uns dias, meteu-se a caminho da Matinha com a filha mais nova e voltou. Andou perto de seis quilómetros. “Ia parando para descansar e comer qualquer coisa”, recorda, feliz. Na esperança da minha avó, já falta pouco para o regresso total da animação. “No mês que vem, conto ir molhar os pés ao mar. E disse à São que está à vontade para vir a Lisboa. Estou à espera dela para mais passeios.“ 

Vacinados, o regresso à vida

Sinto o saudável coração 

“Olho e quero acreditar

O que me resta alcançar

É o restante da duração.”

Este é um dos poemas que Armando Labuzana, 81 anos, fez. E a “restante duração” a que se refere parece ter terminado. Finalmente, e pela primeira vez em quase ano e meio, a sua mulher saiu à rua. “Fui deixá-la ao cabeleireiro. Surpreendeu-me ter tido vontade de se arranjar.  É um dia especial”, diz, com um evidente entusiasmo na voz. Tão especial que decidiu recorrer a outra exceção: “Encomendei almoço no restaurante.” 

Armando Labuzana diz que sempre saiu para fazer compras. Mas ainda não recuperou os seus biscates na bilheteira do Pavilhão Atlântico. Foto: Orlando Almeida

Agora que estão ambos vacinados, há mais de 15 dias, o risco é calculado. E ver a mulher na rua é, para Armando, o verdadeiro marco que divide os tempos de desânimo do renascimento da esperança. Agora sim, acredita que sopram ventos de mudança. Isto apesar dos cuidados com que continuam a levar a vida. “A minha vida continuou igualzinha, triste como tem sido desde 2020.”

Quando chegou a ordem para primeiro confinamento, a 16 de Março de 2020, a mulher estava a recuperar da intervenção cirúrgica a uma hérnia que fizera em Janeiro. Com a dificuldade em aceder ao hospital, a recuperação tem sido quase nula. “A minha Nela mal se mexe. Começou a perder capacidades, a cabeça a ir também, a deixar de trabalhar como antes. Nem o pó conseguia limpar,” conta.

As idas diárias ao supermercado funcionaram como tábua de salvação. Era nessas alturas que aproveitava para desanuviar a cabeça e ver outras pessoas. Mesmo que estranhas.

Estar próximo dos outros foi sempre uma prioridade. Quando se reformou, a grande preocupação era não eliminar o convívio. “Arranjei uns biscates para a bilheteira do Pavilhão Atlântico. Via sempre gente.” Mas a pandemia cancelou espetáculos e eventos, sobrou-lhe a companhia da mulher. “Gosto de brincar com ela, de a pôr a sorrir. Tento mantê-la animada, menos cabisbaixa. E, olhe, fazemos bem um ao outro”, diz. 

Armando Labuzana passou o confinamento a tratar da mulher, que tinha sido operada mas não teve tratamentos pós-recuperação. Foto: Orlando Almeida

Quando a casa está calma e a mulher dorme ou se distrai com a televisão, Armando escreve. “Componho poemas, conto coisas sobre estes tempos e registo memórias de juventude.” Como esta:

“Mais tarde o amor fez penar

Quando o primeiro amor grelou.

Ainda mancebo deixei-me apaixonar

Que até o raio do pranto rebentou.”

“Ainda passo os dias a chorar”

Margarida Rebelo e o marido, 86 e 91 anos tomaram a segunda dose da vacina há cerca de duas semanas. Foi a sobrinha quem os transportou até ao centro de saúde. “Não doeu mas sinto-me pior. Não fiquei com o braço inchado, como ouço algumas pessoas dizer, mas estou mais esquecida e canso-me. É um mal estar geral, que não sei bem como explicar”, lamenta-se, embora sem saber se o problema é da vacina. “Passo o dia a pensar no meu único filho que morreu há seis anos. Há alturas em que não paro de chorar. Tem sido difícil e, em vez de aliviar, só piora.”

Margarida Rodrigues já foi vacinada, mas deu-lhe agora uma tristeza imensa, provavelmente do efeito do confinamento. Foto: Orlando Almeida

Provavelmente são mais os efeitos na sua saúde mental de um longo confinamento, em que Margarida foi também a cuidadora do marido e do muito trabalho que tem. “Tenho asma e epilepsia e trato da lida da casa: cozinho, lavo, limpo, há sempre que fazer. O meu marido está sempre a chamar-me para ao pé dele, gosta muito de conversar. Mas, olhe, só vou quando posso. Por ele, passava o dia sentada sem adiantar nada. É que só tenho ajuda para lhe dar banho. O resto faço sozinha.”

O primeiro confinamento cancelou-lhe as aulas de ginástica que frequentava três vezes por semana. Sobraram-lhe as saídas curtas para abastecimento da despensa e os passeios longos com o marido. “Ele já estava com alguma dificuldade de locomoção. Não queria que piorasse”, diz. As caminhadas foram-se tornando cada vez mais curtas à medida que diminuía o ritmo dos passos do marido. “Agora só saio com ele de manhã, faço umas comprinhas e volto logo para casa. Obrigo-o a ir porque, se o deixo parado, as pernas desabituam-se ao movimento. Ainda fica entrevado”, explica.

No princípio do confinamento do ano passado, pôs-se a fazer duas toalhas em renda para se distrair. Deu por si afogada em pensamentos insuportáveis e desistiu. Com o marido a precisar de cuidados, não podia deixar-se abater. “Parei com as toalhas e fui passear mais com ele. Dávamos voltas muito grandes aqui pelo bairro. Perder um filho é uma dor que nunca passa mas consegui controlá-la melhor.”

*Patrícia Paixão é jornalista.

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6 Comentários

  1. Fico grato por se lembrar dos mais antigos, que não velhos. Há um momento em que a vida pára de dar e, pior, começa a tirar. Temos é de conseguir retardar este momento. Parabéns.

  2. Gostei muito das tuas estórias querida sobrinha !
    Em contraste com essas estórias todas ,tinhas a minha : um maluco de 81 anos,já duplamente vacinado e que nunca deixou de fazer tudo o que lhe dá na real gana. Sempre no “larô “!
    Borrifando-se para andar de máscara ao ar livre !
    Sempre a escrever e a pintar . Sempre ocupado e distraído,sem chatear ninguém.
    Só não viaja ,porque não o deixam !!!
    Vamos a ver ,se será assim até ao fim !

  3. Parabéns Patricia, gostei das estorias e como tão bem descreveste o estado de alma destes nossos maiores.

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