O primeiro "exemplar" de Covid-19 detetado em Portugal já faz parte do acervo do Museu da Farmácia, em Lisboa. Foto: Líbia Florentino

A pandemia ainda faz parte do presente, mas em Lisboa a covid-19 já é peça de museu. O primeiro “exemplar” do vírus em Portugal compõe o acervo que o Museu da Farmácia está a construir e que reúne ainda a primeira vacina aplicada, máscaras, viseiras, um ventilador made in Portugal e até um item um bocadinho insólito: a TAC de Jorge Jesus.

A ideia de transformar a covid (e Jorge Jesus) em tema museológico foi do diretor do Museu da Farmácia, João Neto, 55 anos, um historiador cuja própria história se mistura com a do museu que dirige, desde a abertura das portas do espaço ao pé do Miradouro de Santa Catarina, em 1996. Um tipo simpático, de gestos e palavras polidas, que parece ter saído de uma pintura do século XIX, com o bigode cofiado à imperial e uma indefetível bengala de punho prateado.

O diretor do Museu da Farmácia, João Neto: espírito “salteador da arca perdida”, sempre em busca de peças para o seu acervo. Foto: Líbia Florentino

É graças ao empenho dele em “ganhar hoje o futuro da história” que um museu pensado para abrigar objetos relacionados com a atividade farmacêutica se transformou em muito mais do que, digamos, uma espécie de Disneylândia para hipocondríacos.

“Desde o início, pensei que o Museu da Farmácia se deveria agarrar à história, não só farmacêutica, mas também da saúde e ciência. Um objetivo traduzido em garantir os objetos que materializassem o recorte histórico nesses contextos”, explica João Neto, metade gestor, metade salteador da arca perdida, o telemóvel a fazer as vezes do chicote, na caça das futuras peças do seu acervo.

“Logo que foi confirmado o primeiro caso do vírus em Portugal, em março de 2020, não perdi tempo e liguei para os meus amigos do Hospital São João, no Porto”, lembra João Neto. Agora, exibe para as objetivas, orgulhoso, o “troféu de caça”, o invólucro de plástico contendo o espécime de covid-19 num pequeno tubo, ladeado pela zagaratoa utilizada na coleta do exame positivo no “paciente zero” português.

Ampola da primeira vacina ministrada em Portugal já é peça de museu. Foto: Museu da Farmácia

O método repetiu-se quando foi aplicada a primeira vacina, em dezembro do ano passado, e João Neto telefonou aos seus contactos no Hospital Santa Maria, de Lisboa. O telemóvel do historiador também garantiu a doação de um equipamento Atena, o primeiro ventilador fabricado em Portugal, da aplicação Staway Covid e até de um protótipo da “máscara social”, cosida pela vizinha do pivô da SIC, Bento Rodrigues, que se tornou viral no Instagram e acabou no museu.

No caso do treinador do Benfica, Jorge Jesus, o sportinguista João Neto telefonou aos amigos do Museu Cosme e Damião. “O caso do Jesus é excecional do ponto de vista científico, pois o treinador fez inúmeros testes de análise e que deram sempre resultados negativos. A presença do vírus nele só foi identificada após uma tomografia computadorizada (TAC)”, justifica o historiador a inclusão do míster entre ampolas, frascos e zaragatoas.

A máscara cosida pela vizinha do âncora da SIC foi do Instagram direto para o Museu da Farmácia

Todas as peças relacionadas com a pandemia já reunidas com a inestimável ajuda do telemóvel de João Neto – exceto a TAC de Jesus, com entrega prometida pelos benfiquistas para depois da Páscoa – estão armazenadas numa dependência do Museu da Farmácia. “Inicialmente, a intenção é organizar, no futuro, uma exposição sobre a pandemia. Depois, analisaremos em qual área do museu a Covid estará.”

O olhar atento de João Neto não se restringe ao tema da pandemia e outros objetos aparentemente alheios ao acervo de um museu da farmácia – como uma tomografia de um treinador de futebol, por exemplo – dividem o espaço da coleção com farmácias do século XVIII e XIX, vindas de Macau ou de Damasco, o kit de primeiros socorros usados pelos soldados durante o desembarque na Normandia, no Dia D, e a tenebrosa máscara utilizada em pandemias do passado.

Do Egito Antigo a Marilyn Monroe

Assim como os demais museus do país, o Museu da Farmácia reabre suas portas em 5 de abril, ainda com a nova coleção dedicada à pandemia que encerrou temporariamente as suas atividades salvaguardada no armazém. Há, porém, peças bastante interessantes que compõem a exposição permanente e que, às vezes, dá-nos a impressão de estarmos a visitar um museu dedicado a temas bem mais amplos do que a história da farmácia. Isso talvez explique o bom número de visitantes, que antes do fecho das portas pelas medidas sanitárias, rondava os 20 mil por ano.

Na categoria das peças insólitas, uma das mais imponente é o sarcófago egípcio de quase dois metros de altura da múmia de Irtierut, com cerca de 2.5 mil anos de história, que contrasta em tamanho – porém não em simbolismo – com o bilhete de poucos centímetros de dimensão, pago por uma criança judia obrigada a embarcar no comboio rumo a Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial.

Detalhe do sarcófago de 2.5 mil anos, uma das peças de destaques do museu. Foto: Líbia Florentino

“O sarcófago simboliza a forma como os egípcios usavam a ciência na esperança de preservar a vida, até mesmo após a morte, enquanto um bilhete do comboio para um campo de concentração nos remete ao contrário, à falta de esperança, na forma como a ciência pode também servir para incorrer em atrocidades”, explica João Neto.

A receita farmacêutica prescrita para a atriz Marilyn Monroe, ainda por estrear no Museu da Farmácia. Foto: Líbia Florentino

Ainda para se estrear no museu, está uma aquisição que promete rivalizar em atenção com a tomografia do treinador Jorge Jesus: uma receita farmacêutica prescrita para a atriz Marilyn Monroe. “Penso que representa a fragilidade humana. Marilyn poderia ter tudo, mesmo assim não foi o bastante”, arrisca João Neto, acalentando a folha de papel cor de rosa na palma da mão, com o zelo de quem segura um papiro.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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