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Trinta e seis anos depois, resigno-me: as Amoreiras entram para o dicionário como sinónimo de feio. Nalgumas edições, de horroroso (essas exageram). Mas têm um quê de belo. A paisagem do miradouro chinês, de onde não se vêem as torres. As telas dos cinemas, que mostram as visões dos cineastas. Três ou quatro noites durante o Natal, quando o excesso de iluminações ofusca.

No entanto, para mim o quê de belo teve um quê de ganso. Eu conto, para se perceber.

Em 2008, as Amoreiras funcionaram exclusivamente como minha dispensa. Eu vivia no prédio ao lado do antigo Blockbuster (antigo significa DVD), e nessa idade era alguém por acabar, a quem faltava compreender princípios rudimentares como a gestão de víveres, da roupa e das pessoas enquanto grupo. No centro comercial havia o supermercado, a loja da Springfield e grupos de pessoas, algumas das quais muito semelhantes ao género humano.

De manhã, uma mulher (sempre a mesma, demasiado sempre a mesma) passeava pelos corredores cumprimentando os lojistas: «A Elizabeth faz, a Elizabeth ajuda», dizia numa voz nasalada que lhe dava z por s, h por e. Às quartas, um ex-corredor de Fórmula 1 dos anos sessenta guinava o carrinho de compras pelos corredores do supermercado em ultrapassagens quase estáticas. Ninguém dava por ele a chegar às caixas em primeiro. No quiosque, a vendedora de jornais competia em clientes com o pedinte que queria um euro para cerveja, dois para vinho e três para whiskey.

Principalmente, havia a velha a quem chamavam Sãozinha Querida. De costas dobradas, caminhava até às primeiras escadas-rolantes, estudando durante vários muitos o andamento dos degraus para lhes meter um e o outro pé. Dobrada, subia. Dobrada, espreitava as montras mas só via o chão. Quando nos cruzávamos, ela no arrasto do trólei das compras, era impossível não endireitar as minhas próprias costas e seguir esticado, com medo daquilo.

Aos dezoito anos, imaginava as velhas sós como velhas que sempre choram. Quando dão de comer aos pombos é porque choram. Quando implicam com os vizinhos é porque choram. Quando escovam o pêlo ao gato é porque choram. E para mim Sãozinha Querida deveria visitar amiúde esse país misterioso que Saint-Exupéry dizia ser das lágrimas.

Em casa dela, abaixo dos olhos, tudo estaria limpo, acima tudo por limpar – era uma mulher inteira em metade do espaço. Para dormir, metia o ângulo de noventa graus na cama de solteiro, e parte do corpo ficava-lhe ao dependuro. Não tinha gato nem cão, tinha o nome que repetia a quem a ouvisse: «Trata-me por Sãozinha Querida». De maneira que durante o dia preferia passear pelas Amoreiras, com tanta coisa limpa abaixo e acima da linha do olhar.

Eu ia assistindo às suas investidas ao supermercado enquanto aprendia que a roupa era para vestir e a comida para comer.

Embora tenha sido há doze anos, a maioria das pessoas a quem falo da nidificação das Amoreiras pergunta-me se me refiro às casas de banho durante a festa privada dos Óscares. Havia quem nessa festa se vestisse de Paula Bobone para cima. Os restantes iam nus segundo os padrões de quem ia tão vestido. Mas agora percebo que as casas de banho eram a coutada de uns e outros, os nus e os vestidos.

Respondo-lhes que falo obviamente de quando os gansos nidificaram no topo das Amoreiras. Para quem se esqueceu, foi assim.

Li a primeira notícia em Outubro de 2008, pouco antes de se saber que a Byblos, para desgosto dos lisboetas (que se recusam a sair à rua sem um livro debaixo do braço), estava para falir. Algures nas intimidades da livraria um robô buscava todos os livros do mundo e lançava-os num escorrega tal qual nas farmácias. Frequentei-a muitas vezes. De todos os livros do mundo, queria dois ou três, justamente os que o robô se recusava a encontrar.

Perdíamos a Byblos, mas a secção local do Diário de Notícias, por baixo da fotografia da espécie errada, informava-nos que tinham sido «avistados sobre as torres das Amoreiras os dois gansos-do-ártico que fugiram no início da semana do Jardim Zoológico».

Poucos ligaram a isto a não ser eu, que sempre quis ser Nils Holgersen, pequeno o suficiente para me meter na cama na asa de um ganso, descolar da rua das Amoreiras, ver a Mãe d’Água de cima, depois o traço do aqueduto, o novelo do Rato, mais longe Campo de Ourique e então o ponto de terra e água que se chamara Lisboa, e já nem a Europa ponto era, quanto mais a mancha pintada em forma de Portugal. Além disso, criei à mão um papagaio chamado Eça e tentei que pombas lésbicas se reproduzissem.

Da minha varanda observava o topo da torre 1, onde daí a alguns dias começou a demanda. Os gansos foram escolhendo o conforto de uma caixa de ar-condicionado, à qual voltavam depois da rotina de catar a cidade.

A fêmea encontrou uma pena de gaivota no telhado da Igreja do Sacramento, cujo carneiro escondia um morto que estivera vivo para assistir à missa de 1 de Novembro de 1755. O macho buscou sob o viaduto de Santa Apolónia um fio de lã da última muda de roupa que um pedinte estendia ao sol. Na volta, pousou-se à janela de um chinês ilegal do Intendente. A fêmea preferiu bicar vagens de jacarandá no Parque Eduardo VII, perto dos passageiros que aguardavam o autocarro dali para fora, entre os quais um espécime humano varão que dizia a uma mulher: «Se estás prenha, não é da minha lenha».

O DN mal percebia de gansos, António Costa outro tanto: semanas depois, o jornal indicava que a CML pretendia, depois de eclodirem, «retirar as crias e os progenitores do ninho improvisado na torre 1 das Amoreiras, que se situa a 70 metros do solo, devolvendo as aves às instalações do Jardim Zoológico».

Todavia as Amoreiras não eram a tundra ártica. Abaixo da falésia de cimento e vidro faltavam os cursos de água e as rochas, havia calçada, a praça de táxis, a vendedora de jornais e a passagem lenta da Sãozinha Querida.

Na manhã em que previ o acontecimento, Sãozinha Querida tentava chegar às revistas do quiosque – eu a velá-la.

No alto da torre, a fêmea ganso voou de roda do ar-condicionado, grasnou como mãe que admoesta, e pôs-se longe. O macho voava mais alto à espera do efeito. A primeira cria piou, espreitou, lançou-se borda fora. A segunda cria, não piando, saltou na mesma. E as restantes quatro seguiram de enfiada, peito para baixo, asas diminutas abertas, papo entregue à queda. A primeira embateu no telhado da entrada, ressaltou e foi à calçada ao lado de Sãozinha Querida. A segunda caiu mais ligeira na alfazema dos canteiros. E as outras polvilharam de baques surdos a entrada das Amoreiras.

Os seguranças acorreram aos gritos das pessoas, eu a dizer «É assim, é assim», e eles aposto que muito aflitos, na procura de utensílios para despalmar as crias. «É assim, é assim», repeti. Era assim mesmo no Ártico, seria mesmo assim nas Amoreiras.

Sãozinha Querida viu à sua volta as crias esticarem as patas, ir-lhes um arrepio na penugem, e levantarem-se à procura dos pais, que tinham pousado na lona do quiosque. Daí a nada chegavam os técnicos da CML e do Jardim Zoológico, surpreendidos, como o morto da Igreja do Sacramento, pelo que se abatera sobre eles.

Sãozinha Querida, calada, fez só o seguinte, que eu bem vi: aproveitou o alvoroço, os seguranças entrando e saindo e a gente que se juntava, para esconder a cria mais gorda no trólei. E caminhou devagar para o 258 da Silva Carvalho.

Nessa tarde, a CML publicou uma nota indicando que estava resolvida a questão dos gansos-do-ártico, agora recolhidos com a prole em Entre-os-Rios.

Eu ignorei as informações oficiais e fui espreitando a varanda do 258, onde Sãozinha Querida devia dormir com a cria mais gorda envolta na sua dobragem de noventa graus. Se a alimentava a côdeas e arroz empapado era porque agora não chorava.

Cinco meses depois, vi a janela da varanda abrir-se e de lá sair a cabeça de Sãozinha: cinzenta, desproporcional e com patas. A cabeça era o ganso juvenil espreitando. Este empoleirou-se no parapeito, ensaiou as asas e esticou o pescoço bem esticado, decerto farto do ângulo recto da dona. Saltou e aguentou-se no ar à primeira. Depois contornou os semáforos, meteu à frente da Byblos e sobrevoou o centro comercial antes de desaparecer.

Sãozinha Querida ficava de novo só mas reconfortada – embora não conseguisse olhar para o alto, sabia que o voo do ganso sobre as Amoreiras era um quê de belo sobre um quê de feio.

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1 Comentário

  1. Bela crónica! Cheia de imaginação e muito bem escrita. Parabéns!

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