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Lisboa é considerada como um lugar de atração de nómadas digitais e teletrabalho. Foto: Fox/pexels.com

É interessante perceber como somos vistos de fora, sobretudo quando o olhar forasteiro encontra qualidades que tantas vezes desvalorizamos, porque são nossas. No perfil traçado de Lisboa, pelo estudo do Centro para o Futuro do Trabalho da Cognizant – uma grande empresa de consultoria tecnológica e digital norte americana –, divulgado hoje, Lisboa é um dos 21 Lugares do Futuro, entre mais de 150 cidades estudadas. No estudo “21 Places of the Future – Where the Future of Work?” a cidade aparece como a “capital do cool”, ou “fixe”, traduzem eles para português, esclarecendo que se pronuncia “feesh”.

A isto junta-se, de acordo com o olhar analítico:

  • O facto de nestas paragens ser perfeitamente possível andar de calções enquanto o resto da Europa treme de frio
  • A gastronomia – não somos nós a dizê-lo – pôr a do resto da Europa a um canto
  • Existirem nos arredores várias mecas do surf (além do internacionalmente conhecido canhão da Nazaré, a uma hora e meia de distância)
  • A cidade conciliar passado e futuro, ser tradicional e cosmopolita, ter o fado e o Lux Frágil
  • Ter acima de tudo um “ecossistema de start-ups que está a crescer a um ritmo duas vezes maior do que o do resto da Europa.

Ou seja, aos olhos destes especialistas Lisboa é uma capital do cool que é ao mesmo tempo um potencial centro de inovação tecnológica e uma cidade onde a mão de obra europeia jovem e qualificada quer e quererá viver.

Ou seja, Lisboa é vista de fora como uma fénix renascida das cinzas da crise financeira de 2010, tendo conseguido reinventar-se e inverter a tendência, pondo em prática o antigo adágio popular que diz que “a necessidade aguça o engenho”.

Este último dado torna Lisboa, “de acordo com a Startup Europe Partnership, um dos maiores hubs europeus de start-ups, acolhendo 30 incubadoras e aceleradoras e cerca de 50 espaços de co-working, segundo a Invest Lisboa”.

Ponto fraco da burocracia

O ponto fraco, para os autores do relatório da Cognizant – que, nos últimos anos, tem publicado uma série de estudos sobre como serão os trabalhos do futuro, e o futuro do trabalho, na era digital, da automatização, dos algoritmos e da inteligência artificial – é a burocracia. Apesar disso, é fácil, pois, atrair jovens profissionais dos climas mais frios da Europa para uma das cidades mais atrativas do mundo: Lisboa. Isto tendo em conta que um dos objetivos deste estudo é onde é que estes novos trabalhos vão aparecer.

“Com a sua inigualável qualidade de vida e o seu empenho em aumentar a qualidade e a quantidade de talentos criativos e digitais, Lisboa promete tornar-se líder no futuro do trabalho na Europa, e no mundo”, conclui a Cognizant.

Lisboa surge posicionada neste estudo ao lado de cidades como Tel Aviv (Israel), São Paulo (Brasil), Wellington (Nova Zelândia), Dundee (Escócia), Toronto (Canadá), Atlanta, Sacramento e Portland (EUA), Kochi (Índia), Songdo (Coreia do Sul), Tallinn (Estónia), Shenzhen e Haidian, Qu-Pequim (China), Nairobi (Quénia), Lagos (Nigéria) e Da Nang (Vietname).

Além das dezassete cidades situadas nos vários hemisférios, a lista final do estudo integra também quatro lugares que são designados como “omnisphere” por não terem nenhuma localização física específica, e que são Remotopia, Virtual Space, Outer Space e Nova Hanseatica.

O equilíbrio entre tradição e inovação, na arte e na vida é uma das razões da escolha de Lisboa. Foto: Tiff Ng/ Pexels.com

“As cidades e os lugares selecionados pelo estudo têm em comum o desejo de criar um futuro que ofereça às pessoas os empregos do futuro. À medida que o mundo tenta superar a pandemia do coronavírus, os lugares que são bolsas de inovação e de novas ideias, acessíveis e agradáveis para trabalhar e viver, serão aqueles em torno dos quais as pessoas vão gravitar”, lê-se na introdução do estudo da Cognizant.

Lisboa foi também uma das eleitas para integrar a lista final dos 21 Lugares do Futuro, depois de analisados um conjunto vasto de parâmetros, que a classificaram como uma cidade sofisticada por mais uma meia dúzia de razões:

  • Administração local estável;
  • Qualidade das universidades;
  • Acesso ao capital privado;
  • Excelentes infraestruturas;
  • Cidade sustentável;
  • Lugar onde é fácil trabalhar;
  • Vasta oferta cultural e de entretenimento;
  • Segurança;
  • Bom nível/custo de vida;
  • Grande pool de talentos.

Manuel Ávalos, Diretor Geral da empresa para o sul da Europa, diz que a Cognizant já está a trabalhar para identificar mais talentos na capital portuguesa. “Os lugares do futuro estimulam o trabalho do futuro. Depois da pandemia de covid-19, a Cognizant percebeu que as pessoas estão a tentar reconstruir-se. Identificámos Lisboa como um foco de inovação global e de novas ideias, que certamente irão criar e impulsionar o futuro do trabalho”, diz, numa visão otimista. E a pandemia? “A quarta revolução industrial e a pandemia estão a transformar a economia à escala global e são necessários novos talentos, novas competências e novas atitudes”, garante. “Sou um apaixonado por Lisboa, porque acho que é uma cidade que conseguiu algo muito difícil: ser desejada e admirada em todo o mundo. Lisboa conseguiu transformar-se num hub de empreendedorismo sem precedentes.”

Lições para outras cidades

Numa parte interessante do estudo que indica o que outras cidades poderão aprender com Lisboa, as lições são três:  

  • Procurar talento à volta do mundo.  “Andem no Bairro Alto e vão  ouvir pessoas a falar uma mistura de italiano, espanhol, grego, e holandês.”
  • Alerte o mundo sobre seus pontos fortes. “O investimento estrangeiro em Lisboa está a crescer e isso mostra-se. É a terceira capital mais segura do mundo segundo o Global Peace Index), e a terceira melhor para expatriados InterNations)
  • As startups não podem prosperar na burocracia. “Felizmente, Lisboa (ao contrário de outras cidades europeias) está a lidar com seu passado burocrático. Hoje, é possível constituir uma empresa em 45 minutos, sem taxas de licenciamento comercial – online.”

A metodologia de um estudo otimista

A metodologia de análise desenvolvida pela Cognizant desenvolveu para identificar os 21 lugares em todo o mundo onde a inovação está a florescer mais parte da metáfora de um átomo, baseando-se na análise dos “núcleos” e dos “eletrões” que cada lugar para criar um “átomo de sucesso” para cada uma das cidades/lugares que surgem.

No centro encontram-se três elementos bem definidos e que são considerados essenciais para o sucesso de cada uma das cidades: governo local, qualidade das escolas e universidades e acesso ao capital privado.

Mas cada núcleo precisa de eletrões à sua volta e, no estudo, os eletrões são constituídos por oito componentes: infraestrutura física, ambiente (sustentabilidade), estilo de vida (diversidade e inclusão), cultura e entretenimento, “tijolos” (arquitetura), “clicks” (infraestrutura digital), grupos de talento e acessibilidade.

A esta informação foram adicionados dados provenientes de fontes como o World Economic Forum, o Projeto De Justiça Global e o ESI ThoughtLab.

Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 46 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu um ano no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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