Um homem com pouco mais de 60 anos, muito velho para o século XVIII, está preso há anos numa das celas do Forte da Junqueira. O seu corpo está debilitado; faltaram-lhe as forças (e uma faca afiada) quando tentou o suicídio com uma velha lâmina que apenas lhe cortou superficialmente o pescoço. Para velar por ele, voltou a ter um companheiro de cela, João de Matos, e foi este padre jesuíta quem lhe permitiu registar por escrito as ideias engenhosas que lhe surgiam com maior nitidez nesta “casta de vida”, numa altura em que já não tinha forças para escrever, mas a sua mente e memória continuavam vigorosas.

A escrita do que fervilhava na cabeça de Bento de Moura Portugal era feita durante a noite, à luz de uma candeia de azeite, servindo de pena um osso de galinha que João de Matos ia mergulhando em tinta de ferrugem, escrevendo nas margens de livros e em folhas de papel pardo, usado nos embrulhos deixados na Junqueira pelos familiares dos presos. Foi assim durante 16 anos. Porque o silêncio avivou-lhe “a ideia para descobrir muitas coisas que em outra situação” lhe seriam “ocultas”, escreveu numa carta a outro preso do Forte.

Em 1776, numa noite de Janeiro, Bento de Moura Portugal morreu na sua cela escura e pequena da Junqueira, convertido em prisão para os chamados “presos de Estado”, e não é excessivo dizer que com ele morreu a oportunidade de o país fazer uma revolução científica no século XVIII. “Depois do grande Newton em Inglaterra só Bento de Moura em Portugal”, escreveu  o filósofo alemão Hermann Osterrieder (1719-1783). O país só percebeu isso já o século XIX ia adiantado.

A 5 de Fevereiro de 1748, Bento de Moura Portugal escreveu estas linhas como forma de se retratar das “proposições heréticas”
Documento cedido pelo ANTT/ Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, processo 6193

Em Fevereiro de 1742, a rainha D. Maria Ana e os filhos deslocaram-se a Belém para observarem uma inovação cientifica: duas máquinas “as quais por meio do peso do ar e da força do vapor levantavam água, dando o frio ocasião a que o peso do ar pudesse tornar a reduzir em água os vapores em que o calor se tinha transformado”, noticiou a “Gazeta de Lisboa” na sua edição do dia 6, desconhecendo certamente que poderia poupar caracteres se escrevesse apenas ‘máquinas a vapor’. Na mesma notícia o leitor era informado de que também o rei, D. João V, já estivera em Belém a apreciar as máquinas, cuja origem se devia ao “marquês de Worcester, e invento da sua prática ao capitão Severy [sic], ambos da nação inglesa”.

O que o texto quase escondia, porém, era que o mecanismo inventado por Thomas Savery no final do século anterior tinha sido melhorado por um português – e o aperfeiçoamento permitia dispensar o trabalho manual.

Cerca de dez anos mais tarde, foi precisamente o melhoramento introduzido por Portugal que figurou nas “Philosophical Transactions”, o compêndio de inventos reconhecidos pela Royal Society de Londres, que nomeara o português como membro logo em 1741. A preocupação de Bento de Moura Portugal foi, escreveu Rómulo de Carvalho na obra “Portugal nas ‘Philosophical Transactions’ nos séculos XVII e XVIII”, “a de melhorar o funcionamento da máquina de Savery, destinada a elevar a água por meio do fogo e que se situa na linha recta das fases por que passou a máquina a vapor que originou a locomotiva.”

A publicação do invento pela Royal Society “é uma descrição desse aperfeiçoamento em que máquina adquire a possibilidade de trabalhar por si mesma, notável progresso que mereceu a distinção de ser tratada pelo engenheiro inglês John Smeaton, o qual também foi, por seu turno, um dos pioneiros da locomotiva.” O “notável progresso” não foi, porém, registado em Portugal. Desde as primeiras experiências de Bento de Moura Portugal até ao momento em que as primeiras máquinas a vapor surgiram em Portugal, aplicadas na moagem, arrastaram-se 80 longos anos.

Bolseiro do rei e com “carruagem”

O inventor esperou alguns anos até enviar para Londres a sua criação, para que fosse avaliada pelos pares. Na comunicação para a Royal Society, escreveu: “(…) me aflorou no espírito a invenção do novo accionamento duma máquina simples que, sem motor externo, a si própria se move, destinada a elevar a água mediante o fogo. (…) Descobri tal movimento, apenas recebi do Doutor Desaguliers as primeiras noções de Física Experimental; e não me atribuo o mérito do invento por em vão me gloriar de exceder em perspicácia tantos filósofos ingleses de agudíssimo engenho que anteriormente sem êxito o mesmo objectivo perscrutaram, mas porque só aos homens que Ele quer, segundo Seu beneplácito, permite Deus serem autores de inventos novos.”

Nesta altura, Bento de Moura Portugal morava numa travessa não muito distante do Chiado.

Há duas ideias neste excerto que merecem relevância: a menção, ainda que rasante, ao facto de ter tido aulas com o físico francês John Theophilus Desaguliers, exilado em Londres, curador da Royal Society e um dos maiores divulgadores da obra de Newton; e a cosmética divina que ele atribui aos seus inventos, e mesmo à ciência, apresentando-se como um dos Escolhidos. A tudo isto não será alheio o facto de o texto para a Royal Society ter sido escrito depois de uma longa viagem pela Europa, patrocinada por D. João V; e ainda no rescaldo de um processo da Inquisição que durou três anos, e no qual foi acusado de “proposições heréticas e escandalosas”, como veremos adiante.

Fólio em que é escrito que Bento sente “aversão ao Santo Ofício” e é amigo de Alexendre de Gusmão, secretário de D. João V
Documento cedido pelo ANTT/Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, processo 6193

Nesta altura, Bento de Moura Portugal morava numa travessa não muito distante do Chiado. Era cavaleiro da Ordem de Cristo (a sua diligência de habilitação, disponível na Torre do Tombo, data de 1744), conservador da Real Fábrica de Fundição de Tomar, fidalgo da Casa Real, cientista reconhecido dentro e fora de Portugal, protegido dos monarcas e frequentador dos salões da aristocracia mais aristocrata do Reino. E, não menos importante, D. João V dava-lhe “carruagem para andar nesta Corte”, sublinhou um dos seus denunciantes ao Tribunal do Santo Ofício, em Lisboa.

A historiografia diz que ele nasceu em Moimenta da Serra, aldeia do concelho de Gouveia, em 1702, mas a mesma historiografia apresenta-o como aluno do colégio jesuíta da cidade, apesar de a construção para a escola da Companhia da Jesus ainda não estar concluída em 1743, ano em que Bento andava já a viajar pela Europa a expensas de D. João V. O seu nome consta, porém, do registo de alunos da Universidade de Coimbra, onde se matriculou em Direito, e como qualquer bom aluno do século XVIII só terminou o curso ao fim de quase dez anos.

Bento de Moura Portugal regressou com o título de membro da Royal Society, com a sua “máquina de fogo”, como chamava à máquina a vapor na versão por si melhorada.

Possivelmente na década de 30 terá vindo para Lisboa, e a sua inclinação para trabalhos técnicos, aliada a um incrível espírito inventivo, chamaram a atenção do rei. Quando Bento de Moura Portugal fez as duas visitas guiadas ao local onde estavam as suas máquinas a vapor, em Belém, já D. João V estava apostado em financiar-lhe uma digressão pela Europa iluminista, para que o cientista pudesse recolher conhecimentos que permitissem desbloquear o progresso da indústria e agricultura nacionais. Essa missão terá durado perto de oito anos, com interregnos para vir a Lisboa, e deu-lhe a conhecer a Inglaterra, Alemanha, França, Hungria e Holanda, pelo menos.

Bento de Moura Portugal regressou com o título de membro da Royal Society, com a sua “máquina de fogo”, como chamava à máquina a vapor na versão por si melhorada, e com uma mão cheia de inventos, mas não conseguiu desbloquear o atraso agrícola e industrial porque existiam assuntos mais prementes, supomos. Conseguiu, no entanto, a abertura de um processo acusatório contra si na Inquisição de Lisboa, em 1745.

Os demónios não têm “vagar” para chatear os humanos

O denunciante foi o frade Francisco Maria de Jesus Sarmento, do Convento de Jesus dos Cardais, que, em depoimento, disse ter ouvido, cerca de um ano antes, “proposições malsoantes” ao cientista, um protegido da família real, a quem o rei “dava carruagem para andar nesta Corte”.

Entre as tais proposições ditas por Bento de Moura Portugal estava esta: “Quanto aos milagres do corpo inteiro de Santa Catarina de Bononia, e língua incorrupta de Santo António de Pádua, que ele vira uma e outra coisa, porque viajou a maior parte da Europa e que o corpo da Santa era sem mais diferença como de um esqueleto de qualquer mirrado; e a língua de Santo António estava tão longe de introduzir devoção que parecendo de pão preto, causava horror.” Perante isto, os inquisidores devem ter estranhado a demora do frade em apresentar a acusação porque o que surge no processo imediatamente a seguir é a explicação de Sarmento para o atraso na denúncia: que mesmo após a conversa que tivera com Bento continuava a julgar que o cientista professava a fé católica; que manteve essa ideia até o seu confessor lhe dizer exactamente o contrário e aconselhá-lo a fazer este “aviso”; que o “aviso” se devia à possibilidade de o cientista, sendo “bastante subtil e ao mesmo passo amante da sua opinião”, causar “dano e prejuízo às almas”.

“Falando jocosamente em matéria de fornicação disse [que] estavam os homens se Deus houvesse de mandar para o inferno pelo tal pecado digo por fornicar  que em tal caso pouca gente se salvaria”

A esta denúncia seguiu-se um inquérito que se prolongou por quase três anos, com o Comissário João Lopes Pássaro, e demais funcionários do Tribunal, a terem de viajar para o Sardoal e para Abrantes para ouvirem testemunhas dispostas a acusar Bento de Moura Portugal de qualquer declaração “herética e escandalosa”. No Sardoal, nomeadamente em casa do capelão mor, Francisco Xavier de Mendonça, Bento passara uns meses em convalescença, tendo conhecido algumas personalidades da vila; em Abrantes, pernoitou na quinta de um amigo, e durante o jantar falou com “displicência e desprezo” sobre o Santo Ofício, contou uma testemunha, tendo mesmo afirmado que “qualquer dia” os inquisidores “haviam de ter ordem para mandarem açoitar os bispos”.

No Sardoal, os muitos depoentes ouvidos por João Pássaro repetem, segundo o que se lê nos 48 fólios do processo (existente na Torre do Tombo), as mesmas “proposições”, com poucas variantes, revelando, porém, o sentido de humor e o carácter espirituoso de Bento de Moura Portugal: “os demónios se não metiam, ou introduziam, nos corpos humanos, e que não tinham vagar para isso, porquanto estavam ocupados com os seus tormentos no inferno”;  “nos anais de Roma do tempo da morte de Cristo se não falou nela, sendo uma coisa tão notória”; “que quando Deus deu as leis a Moisés, ninguém mais que o mesmo Moisés o ouvira, e que só Moisés o disse, e assim podia dizer o que quisesse”; “falando jocosamente em matéria de fornicação disse [que] estavam os homens se Deus houvesse de mandar para o inferno pelo tal pecado digo por fornicar  que em tal caso pouca gente se salvaria”; “disse como duvidando como podia Herodes no nascimento de Cristo mandar matar os meninos, quando só César nesse tempo tinha poder para o fazer”. Em suma, como resumiu uma das testemunhas, Bento “conta histórias em ludíbrio e desprezo da religião católica e do sumo pontífice e cardeais”, e isso é até evidente “na voz no gesto e no modo jocoso como fala”. 

A acusação requereu pena de prisão, usando ainda o argumento da amizade do cientista com Alexandre de Gusmão, secretário de D. João V e escritor, descrito pelo promotor do processo como sendo a “origem principal dos escândalos que ao presente perturbam o reino, com gosto dos hereges”. Terá sido, porventura, Gusmão, e também o rei, que usaram o seu poder de influência para que o Tribunal não levasse Bento a julgamento. Mas foi exigido uma retratação por escrito.

“Se em alguma coisa faltei ou pareci faltar peço que me perdoem e lhes prometo nunca mais falar em tais matérias”, escreveu Bento, no pedido de desculpa

Bento anuiu e escreveu-a a 5 de Fevereiro de 1748, começando por afirmar que regressou ao Reino, após as viagens pela Europa, “costumado à liberdade como nos do Norte se fala em matéria de religião”. Que nunca pretendeu, nem entendeu, “violar a pureza da Santa Religião Católica Romana”, e se algumas das suas palavras provocaram escândalo foi por “mal” se explicar ou por “mal” o entenderem, “ou porque a força do argumento” o fez “irritar” ou “dizer algo que não devesse”. “Se em alguma coisa faltei ou pareci faltar peço que me perdoem e lhes prometo nunca mais falar em tais matérias”, escreveu, garantindo não mais se “meter em matérias alheias” da sua profissão. A sua crença na ciência continuava, então, inabalável.

Inventos do cárcere

Bento de Moura Portugal conseguiu escapar à Inquisição, mas não ao Marquês de Pombal. No reinado de D. José I, em Julho de 1760, foi chamado pelo Juízo da Inconfidência para ser interrogado. Contra ele existiam as acusações de defender a inocência dos Távora e dos jesuítas, de falar livremente sobre o governo de D. José I, e de propor ao rei emendas na legislação que prejudicavam a fazenda real. Em resumo: o Marquês não gostava de Bento de Moura Portugal, e mesmo o prestígio que este tinha junto da família real nada podia contra o poder do primeiro-ministro.

Foi encarcerado em Julho de 1760 no Forte da Junqueira, reconvertido em prisão e aberto um ano antes para a reclusão de jesuítas e nobres, quase todos acusados de estarem envolvidos na conspiração para matar o rei. Ali ficou até à sua morte, em 1776, e graças ao trabalho do jesuíta João de Matos, companheiro de cela e amanuense improvisado, é hoje possível conhecer alguns dos inventos do cientista.

Dos escritos com o osso de galinha e tinta de ferrugem sobreviveram 28 cadernos em papel pardo, além do que Bento ainda conseguiu escrever nas margens de livros, que, devido à perseverança de um amigo, foram coligidos e reunidos em livro em 1821, sob o título “Inventos e Vários Planos de Melhoramento Para Este Reino, Escritos nas Prisões da Junqueira”.

A obra está dividida em seis partes, e é verdadeiramente impressionante o detalhe das descrições. A primeira surge em forma de diálogo com um estrangeiro que visita o Reino, e começa com uma questão (Bento pergunta a este homem, designado Pedro, o que é que ele acha que mais falta faz no país, ao que Pedro responde “pão”) que resulta numa longa conversa sobre soluções para cheias no Tejo e no Mondego, fecundação das terras, secagem dos pauis, saneamento, fontes e chafarizes de Lisboa. 

A segunda e terceira parte apresentam invenções para que as azenhas redobrem a produção de farinha usando a mesma quantidade de água e os barcos no Ribatejo aumentem a velocidade; na quarta, Bento refaz uma invenção já experimentada (e mal sucedida) em Belgrado e em Lisboa, e que consiste no “modo de suprir a falta de vento com uma nova forma de remos”; e deixa para o fim um “modo de averiguar se por baixo dos campos, que correm ao longo dos rios, há ou não há ouro antes de abrir as catas.”

No mesmo livro é publicada uma carta que Bento terá ditado a João de Matos, e que depois deu ao conde de São Lourenço, João José Noronha, igualmente preso na Junqueira por ordem do Marquês de Pombal, na qual o cientista admite ter “pena” de “não poder empregar em benefício d’ um reino (…) alguma capacidade que Deus” lhe deu, “e a experiência confirmou”.


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Numa outra carta ao conde de São Lourenço, datada do ano anterior à sua morte, Bento pediu ainda recompensa para João de Matos, na eventualidade de o jesuíta vir a ser libertado, e enumerava mais inventos, uns idealizados no cárcere, outros já experimentados e que ele esperava que continuassem a ter utilidade: um artefacto marítimo que permitia “conduzir madeiras do pinhal de Leiria ou de qualquer outra parte do Reino para Lisboa, e talvez mesmo do Pará e Maranhão”; um roda hidráulica criada em 1741 no paúl de Foja, para “enxugar as terras alagadas”; uma forma de impedir as quedas dos coches da Casa Real quando quebrassem as rodas ou os eixos; as camas de campanha que desenhou quando fora à Golegã com os marqueses de Marialva, Angeja e Óbidos; ou um carro movido pela força do vento.

Não deixou registado, porém, a descoberta que foi mais tarde contada pelo Marquês de Alorna no seu livro sobre os presos da Junqueira: como abrir as portas das celas. Porque o fez apenas para que durante a noite os presos pudessem prestar auxílio uns aos outros.


Maria José Oliveira 

É jornalista, investigadora do Instituto de História Contemporânea e aluna de doutoramento. Fez investigação e reportagem para a imprensa escrita, TV e cinema. Escreveu o livro Prisioneiros Portugueses na I Guerra Mundial (Saída de Emergência). Nasceu na Figueira da Foz, vive em Lisboa, e quando anda na rua olha para as fachadas dos prédios. Tem 45 anos.

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5 Comentários

  1. Excelente trabalho de Investigação!
    Apesar de me interessar por História da Ciência nunca encontrei nada sobre Bento de Moura Portugal. Dar a conhecer a sua Biografia é um acto de justiça e um contributo para a História de Portugal.
    Obrigada.

  2. Excelente trabalho! Peço-lhe que confirme apenas a data de morte. Esta terá acontecido 6 anos depois do seu carcere no ano de 1766.

  3. Fantástico trabalho! Um mergulho inesperado ao nosso passado que tanto explica a nossa pequenêz…num tema que tanto me diz, a ciência ao serviço do homem…maldita religião que tanto atraso introduziu, maldita mesquinhez, e inveja tão tipica nos nossos sentimentos, que tanto contribuiu para o nosso marasmo …
    Em resumo, um excelente trabalho que me leva a tentar saber mais!

  4. Que magnífica história, q eu desconhecia em absoluto! Triste ignorância a minha! Muito obg Maria José

  5. É sem dúvida uma excelente peça de investigação. A edição em pdf da obra “Instrumentos e vários planos de melhoramento para este Reino” de Bento Moura de Portugal está disponível no Internet Archive

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