
Olá, vizinho/a
Parece estranho, mas a memória mais sensitiva que tenho do Natal é calor. Nunca passei Natais nos países mais quentes da América latina e, à exceção do ano em que a covid-19 me deixou em quarentena a 300 quilómetros da família, todos os meus Natais foram no Norte. Ali, na serra da Santa Justa, em Valongo, terra onde nasci… e onde, suspeito, nascem os Invernos também. Mas os Natais eram sempre passados sob um calor tropical, o da casa da minha avó, que a salamandra tentava impor como lei da natureza.
Com a vida a pôr cada um na sua corrida, aquele começou a ser o nosso encontro anual: o congresso da tribo, sobretudo dos primos. Juntávamos 11, 12, outras vezes 15 pessoas numa sala que fingia ser maior do que era. Pernas encostadas, cotovelos a pedir licença, cinco pessoas de pé para uma só atravessar rumo à casa de banho. “Chega para lá”, sem cerimónia.
E embora já houvesse “calor humano” suficiente, lá estava ela também, a salamandra, sempre assídua ali ao canto – e também território do meu avô Manel, especialista na diplomacia das achas: nem poucas, nem muitas, só as certas.
As fotografias desses Natais explicam melhor do que eu: na primeira, todos chegados do frio, embrulhados em casacos; na seguinte, já de t-shirt ou camisa, como se tivéssemos apanhado um avião para outra estação do ano.
E o meu pai, sempre futurista, a anunciar: “Assim, vou ficar doente”.

As memórias são cartografias: mapas das salas, das casas, das ruas, bairros e cidades que nos fizeram. Como a casa da minha avó Cecília. E contam mais do que as nossas vivências: contam a nossa relação com as cidades, laços que são familiares também. Às vezes, guardamos todas essas memórias em álbuns velhos, encaixotados debaixo da cama, nos armários ou num armazém qualquer. Este ano queremos abrir um álbum de Natal que ainda não existe: o álbum coletivo dos Natais antigos de Lisboa, feito por quem os viveu antes do ano 2000.
O dia da inauguração das luzes na Rua Augusta, na altura com menos esplanadas; as lojas enfeitadas em Alvalade, onde o comércio já não é o mesmo; a escola que fazia teatros de Natal; o presépio montado na mesa de pedra do quintal… Ainda se lembra como era a cidade no século passado?
Tire o pó a estas fotografias. Queremos vê-las, partilhá-las e compreender melhor a cidade onde vivemos hoje, através das suas memórias.
Só há uma condição: na fotografia, deve ver-se um local (exterior, de preferência) de Lisboa.
Como participar:
Envie a sua fotografia para geral@amensagem.pt com:
1
Ano e mês da fotografia (aproximado, se não souber exatamente)
2
Local exato (bairro, rua, casa, escola, loja…)
3
Breve legenda, sobre a perceção do local: o que mudou? O que já não existe? O que recorda?
4
(Opcional) Quem está na foto? Alguma história por trás?
5
Autorização de publicação (pode ser só uma linha: “Autorizo a publicação na Mensagem de Lisboa.”)
E, ainda, se pudermos dar uma ajuda sobre o que oferecer este Natal… temos um anúncio a fazer: numa subscrição anual a partir de 80 euros ou superior, oferecemos um saco Mensagem e dois livros (Crónicas de Lisboa, a BD de Ferreira Fernandes e Nuno Saraiva; e Diário de um Sem-Abrigo, de Jorge Costa). Ao fazê-lo, está a apoiar o jornalismo local e o trabalho que fazemos.

Até breve,
– Catarina Reis, editora da Mensagem de Lisboa







