Foi por causa dos marcos históricos de Lisboa que este apelo nasceu. Recentemente, para finalizar o projeto de “Levantamento dos Marcos Históricos de Correio em Lisboa” que a Vizinhos em Lisboa está a concluir em parceria com o grupo britânico “Letter Box Study Group” percorri a pé praticamente todas as freguesias de Lisboa. Aproveitei o ensejo para completar os levantamentos de árvores em falta e azulejos históricos, mas nessas caminhadas (em 15 dias caminhei durante cerca de 200 km) encontrei cartazes. Muitos cartazes. Aliás, vou reescrever: mesmo muitos, demasiados, cartazes.

Não os contei. Encontrei cartazes sobre Luís Neves, com a cara de André Ventura, coadjuvados com cartazes de grandes dimensões em praticamente todas as rotundas e praças de Lisboa com a mesma figura do mesmo líder, acompanhados de frases sem significado claro em fundo monocromático da AD, cartazes gigantes comercializando a cara da atual líder (sempre transitória) da IL, ou o rosto já sobejamente conhecido do líder do PS com palavras de que ninguém lê, nem ninguém recorda, acompanhados de centenas de cavaletes enferrujados (muitos deles abandonados) do PAN, PCP e Bloco um pouco por toda a cidade.

Toda esta parafernália coloniza, sem pudor nem eficácia eleitoral, e suja visualmente a nossa cidade sem produzir nada de real e concreto.

Pior: a esmagadora maioria destes cartazes nem apresenta sequer propostas ou críticas concretas (salvo os do PCP, PAN e BE), mas gasta quilómetros de cartazes enfiando a cara do seu “líder supremo” pelas nossas caras adentro (IL, PS e CHEGA). São frases vagas que ninguém lê (exceptuando um cartaz da JSD sobre violência no namoro no Campo Grande), ou palavras soltas e vagas, cartazes de “venda de líder” da IL (que já teve bons cartazes: críticos ou propositivos) e do líder do PS ou de André Ventura sobre “corrupção”.

É humanamente impossível saber quantos cartazes destes existem hoje – sem eleições à vista – na cidade. Em termos oficiais, encontrei apenas uma referência de julho de 2026, em que o vereador Diogo Moura diz na Assembleia Municipal que Lisboa tinha 186 mupis e 191 outdoors, num total de 377 estruturas de propaganda política. Mas isto foi antes da explosão de cartazes “Ventura-Neves” de finais de agosto de 2026. Estes pequenos cartazes (também chamados “alveolares”) invadiram durante a noite de 24 de agosto várias ruas da cidade, afixados por uma empresa especialmente contratada para o efeito (onde vão os tempos da abnegada militância partidária?…) em milhares de colunas de iluminação de Lisboa).

Não consegui contar, mas estimo que, Lisboa fora, tenhamos agora entre 6 a 8 mil “Venturas” sem prazo à vista para a sua remoção. E que, pela densidade em algumas avenidas (por exemplo, na Avenida dos EUA e Avenida de Roma), fazem crer aos turistas que nos visitam que se aproxima a visita a Lisboa de um novo Papa ou de um líder internacional religioso de qualquer tipo ou que – como estão enganados… – estamos em pleno período eleitoral. 

Serei claro: milhares de cartazes repetidos até à exaustão em todas ruas, praças e jardins, cavaletes presos a postes e gradeamentos enferrujados e esquecidos durante meses, grandes painéis com frases soltas que ninguém fixa independentemente da opinião política de cada um, não são uma forma eficaz de comunicação. São saturação pura e simples e produzem em quem os vê simultaneamente duas sensações:

  • deixam de ser lidos e tornam-se ruído urbano. Logo, são um desperdício financeiro num país em crise e onde (graças à inflação e ao aumento escandaloso dos preços da habitação) cada vez mais portugueses vivem em dificuldades;
  • e, por outro lado, porque há saturação, tornam-se um incómodo e geram insatisfação e repulsa perante o partido que os afixa (e por isso já tantos foram vandalizados).

Considerando a isenção legal de taxas para partidos, a operação global em Lisboa de todas estas operações de propaganda dos partidos (que abrange a produção, afixação e posterior remoção de 8 mil cartazes alveolares, 186 mupis e 191 outdoors) arrisca um custo estimado total entre 60 e 120 mil euros – dos quais cerca de 33 a 60 mil correspondem apenas aos custos de mão de obra e logística de montagem e desmontagem de toda esta parafernália visual.

Quando uma imagem aparece em todo o lado, durante demasiado tempo, deixa de ser eficaz. Torna-se um desperdício de dinheiro dos nossos impostos que poderia (e deveria) ser gasto em uso socialmente mais úteis. É apenas “lixo visual”.

Acredito que a liberdade de expressão política é essencial, e não a ponho em causa. Mas isso não obriga a que Lisboa seja um suporte permanente de propaganda, dentro e fora de eleições.

Por isso deixo aqui dois desafios aos partidos políticos:

1. Que corrijam rapidamente a lei, no Parlamento, para que a propaganda política no espaço público fique limitada aos períodos de campanha eleitoral.

2. Que, enquanto isso não acontece, se concertem com a Câmara Municipal de Lisboa para ordenar o espaço público e remover todo este lixo gráfico que hoje se acumula pela cidade.


Rui Martins

Rui Martins nasceu em Lisboa, numa Rua da Penha de França, num edifício com uma das portas Arte Nova mais originais de Lisboa. Um ano depois já tinha migrado (como tantos outros alfacinhas) para a periferia. Regressou há 18 anos. Trabalha como informático. Está ativo em várias associações e movimentos de cidadania local (sobretudo na rede de “Vizinhos em Lisboa”).

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