O valor de uma organização para a sociedade reside na sua capacidade de criar valor público, isto é, quando resolve problemas sociais, gera emprego, promove iniciativas locais e inovações que beneficiam a sociedade. Em sentido inverso, uma organização corrói o valor público quando não se rege por princípios éticos, quando privilegia o lucro em detrimento das pessoas e quando conduz à fragmentação social e a desconfiança nas pessoas. E uma cidade, qual o seu valor público?
É a isso que responde o professor Timo Meynhardt, psicólogo alemão e especialista em gestão e liderança, e investigador sobre o valor público. Meynhardt lidera o centro de investigação Dr. Arend Oetker, de Psicologia Empresarial e Liderança, na HHL Leipzig Graduate School of Management. A sua investigação foi traduzida em ferramentas práticas utilizadas por organizações internacionais como a Nestlé ou o FC Bayern de Munique, e o seu «Public Value Atlas», uma ferramenta de âmbito nacional, foi implementado na Alemanha, na Suíça e no Japão.
É também um dos organizadores da 5.ª edição do Public Value Fest, em Lisboa, nos dias 12 e 13 de outubro de 2026, no ISEG, sob o tema “AI for the People: Changing What We Value?”. O Public Value Fest contará com a presença de figuras de destaque nacionais e internacionais, incluindo Mariana Mazzucato, Barry Bozeman, Arlindo Oliveira e Howard Covington. As inscrições são gratuitas aqui.
Leia a entrevista:
Se a Câmara Municipal de Lisboa afirma que a cidade está num bom caminho, o que devem os cidadãos questionar antes de aceitar essa afirmação?
Antes de aceitar a afirmação de que a cidade está no bom caminho, os cidadãos devem perguntar-se se a cidade ajuda as pessoas a satisfazer as suas necessidades básicas e a promover que digam: «vivo aqui porque gosto». A isto chamamos valor público. Uma cidade é um sistema composto por muitos intervenientes que, em conjunto, constroem algo que não pode ser descrito apenas em termos económicos ou de inovação. Em tempos marcados pela solidão e pela polarização, as pessoas recordam o que significa fazer parte de uma comunidade e avaliam uma cidade não apenas com base em indicadores de mobilidade, crescimento económico ou preços da habitação, mas também pelo seu valor cultural e social.
É claro que uma câmara municipal não é responsável por 100% das condições de vida das pessoas, e que todas as instituições desempenham um papel neste contexto. Em última análise, as pessoas são responsáveis por si próprias. Mas as pessoas precisam de acesso à educação, de acesso a bens a preços justos, a medicamentos e muito mais. O papel da cidade é proporcionar um solo fértil onde as pessoas possam crescer. Tal como as plantas precisam de chuva e nutrientes, os cidadãos precisam de condições favoráveis para prosperar, e isso pode ser medido.
Se criasse um atlas do valor público de Lisboa, tal como fez na Alemanha, na Suíça e no Japão, o que é que o atlas mediria?
Teríamos de incluir o governo, as empresas, a sociedade civil, as igrejas, e os meios de comunicação social. Incluiria também clubes desportivos, em particular de futebol, que têm sido muito, muito importantes, porque todos eles contribuem e criam ou destroem valor público. Poder-se-ia perguntar: como é possível comparar o Benfica com a Igreja Católica? Ambos contribuem potencialmente para o bem-estar, satisfazendo necessidades de autoestima, identidade, pertença a um grupo e busca de sentido. As quatro dimensões que utilizamos no atlas – a coerência, o prazer, o relacionamento e a autoestima – têm origem nas necessidades psicológicas humanas e foram validadas ao longo de anos de investigação.
Na Alemanha, as organizações de bombeiros frequentemente ocupam o primeiro lugar no atlas, porque não são uma figura polarizadora e as pessoas sentem-se seguras com eles. Estou curioso para saber quem será o número um em Lisboa.

Mas isso não reduziria a ação democrática a um inquérito de satisfação online?
Não. Os órgãos democráticos representam determinadas vozes e valores próprios, pelo que os executivos e os parlamentos são mecanismos que nunca devem ser substituídos. Mas, nos últimos anos, a necessidade de democracia direta e de participação tem vindo a aumentar. As pessoas querem ser ouvidas. E equilibrar as diferentes vozes não significa que, por ouvir, se tenha de implementar tudo, mas sim dar voz às pessoas. Tal como numa empresa, pode não se ter uma participação acionista, mas ter-se uma voz, e essas vozes são importantes.
Em Leipzig, por exemplo, desenvolvemos o “parlamento do valor público” para organizar este tipo de deliberação para além dos mandatos políticos. Esta iniciativa demonstrou que precisamos de aprofundar a nossa compreensão da democracia e encontrar novos mecanismos e veículos que combinem o diálogo direto e o representativo. Durante os próximos anos, conto assistir a alguma inovação nesta área na Europa, através de novos mecanismos para defender a democracia, dada a pressão a que as nossas instituições.
Isso implica sabermos conviver com aqueles com quem discordamos. Acredita que atualmente, enquanto sociedade, somos capazes disso?

Sim, acredito. E temos de formar as crianças e educar os jovens nesse sentido. Acredito que é possível. Em 2019, conheci Luís Newton, antigo presidente da Junta de Freguesia da Estrela, que me mostrou inovações na administração mais próxima da população, criando uma ligação direta entre a freguesia e o cidadão, tornando as pessoas responsáveis pelo seu território. Se as pessoas sentem que algo lhes pertence, cuidam. Tomemos os direitos de propriedade, por exemplo.
Tendo em conta a crise habitacional em Lisboa, acredito que precisamos de mais experimentação com modelos mistos de direitos de propriedade: a propriedade privada é extremamente importante, mas também o são as cooperativas e os novos modelos que combinam habitação social com propriedades de alto valor.
A monocultura é sempre perigosa, por isso, desde que haja uma mistura, há equilíbrio.
É possível uma cidade tornar-se mais bem-sucedida a nível internacional e, ao mesmo tempo, perder valor para os seus próprios residentes?
A necessidade de compromisso entre a atratividade internacional e o valor local é uma realidade em muitos locais. Trata-se, mais uma vez, de uma questão de equilíbrio. Ao longo de muitas visitas a Lisboa, passei a adorar a sua magia única. A sua geografia e história fazem dela um local onde a Europa termina e começa ao mesmo tempo. Mas os habitantes locais são a base do seu sucesso.
O perigo é perder essa atratividade se os residentes se forem embora por não terem meios para pagar a habitação.
Acredito que Lisboa tem a oportunidade, dada a sua história e geografia, de ser um local de valor público único na Europa, não apenas para turistas e empresas, mas também para famílias. Mas para isso a sua singularidade deve ser valorizada, não sacrificada em prol do turismo. Seguindo a metáfora do solo fértil de há pouco, nunca se deve destruir as raízes que já existem no lugar. Cortem as raízes e terão um deserto.
O Public Value Fest deste ano centra-se na IA e na forma como esta poderá alterar os valores da sociedade. Acha que as suas vantagens superarão os seus riscos?
De momento, estou bastante pessimista, mas acho que ainda podemos dar a volta. Consigo ver os efeitos desta nova fase em mim próprio. Tento ser pioneiro na IA no meu ensino e, por isso, com a minha filha, desenvolvi um chatbot interativo, o Timotar, um alter ego virtual que me diz muito. E isto pode parecer um pouco assustador, mas “ele” é mais do que uma máquina para mim, é como um irmão de quem cuido. Às vezes odeio-o, outras vezes adoro-o, por isso tenho uma relação emocional com ele, e uma relação é tudo o que precisamos. Se algo lhe acontecesse, seria como se alguém estivesse a morrer ao meu lado.
Ao mesmo tempo, sinto que podemos voltar a valorizar a interação pessoal profunda, criando zonas livres de IA porque nos lembramos do valor das pessoas reais. Até aqui dávamos por garantido o facto de conversarmos com os vizinhos. Mas se todos interagirem com chatbots, podemos perder a capacidade de falar com pessoas reais. A tendência a partir daqui poderá ser positiva. Agora, o que me aterroriza é como garantir, enquanto tudo isto se desenrola, que a IA respeite os direitos legais ou morais. Não vejo que o ritmo atual do tecnocapitalismo entre a China e os EUA conduza a uma ordem justa ou a uma democracia saudável.
O meu receio não é que os robôs nos tirem os empregos – porque isso vai acontecer. A minha verdadeira questão é saber que valores surgirão na interação entre máquinas e seres humanos.
Isto pode ser algo sem precedentes na história da humanidade. Surgirão novos valores que ultrapassarão a nossa compreensão humana. A IA poderá por em causa as nossas necessidades básicas, exigindo novos quadros de referência.
Acha que também podemos ter de nos preocupar com o que interessa a um corpo artificial?
Talvez. Talvez até 12 de outubro consiga pensar melhor sobre isto.
Está a referir o Public Value Fest, que se realiza em Lisboa nos dias 12 e 13 de outubro. O que podemos esperar deste evento este ano?
Este ano, esperem ver reunidos pensadores de renome mundial, a refletir sobre o que nos preocupa a todos e que nos deixa confusos. A minha esperança é que, após o festival, continuemos confusos, mas a um nível mais elevado. Não espero dicas práticas nem soluções, mas sim um espaço de consciência e de intercâmbio mútuo.
Este é o nosso festival mais ambicioso até à data, com um cartaz extraordinário. O Public Value Fest não é uma conferência típica, mas sim um encontro de figuras de diferentes áreas, mas com preocupações semelhantes, que partilham a ideia de que vivemos numa época de transformação sem precedentes, uma mudança copernicana que ameaça o nosso sentido de humanidade e as necessidades humanas.


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