Muito mais do que uma relação de compra e venda, o comércio pode funcionar como “sintoma e motor” da “coreografia social” que molda a história e o desenvolvimento de uma cidade. Este foi o ponto de partida do segundo encontro do curso “A Cidade ao Balcão: Como o Comércio Desenhou o Mundo… em Lisboa”, parceria entre o Âmbito Cultural do El Corte Inglês e a Mensagem de Lisboa, com a participação da arquiteta e investigadora Rita Ochoa.
Com o título de “Urbanismo e comércio: um ciclo virtuoso“, durante cerca de uma hora Rita Ochoa estimulou a audiência presente no El Corte Inglês, tecendo o as urdiduras sobre como as “fachadas ativas” – o comércio de rua, as lojas e suas montras e a restauração e suas esplanadas – formam uma sequência de “micro eventos” nas cidades.
Usando os exemplos da freguesia onde vive em Lisboa, nos Olivais, Rita Ochoa cumpriu o arco entre as teorias das “cidades funcionalistas” de meados do século passado e as experiências das “cidades de 15 minutos”, sem esquecer os pontos críticos de cada um dos modelos.
A arquiteta, mestre e doutora em espaço público e regeneração urbana pela Universidade de Barcelona, usou também o exemplo do projeto Fruta Feia como estudo de caso para detalhar como as cidades podem servir não só como viés de reciclagem dos alimentos, mas também do próprio espaço público.
A também professora e investigadora da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa mencionou as alterações provocadas pela cultura digital e as compras online, que alteraram as relações comerciais, provocando alterações no comércio tradicional de rua e, em alguns casos, a desmaterialização de alguns seguimentos comerciais.
O curso “A Cidade ao Balcão: Como o Comércio Desenhou o Mundo… em Lisboa” é uma parceria entre o Âmbito Cultural do El Corte Inglês e a Mensagem de Lisboa, com cinco sessões previstas. A primeira ocorreu no último dia 24 de setembro, com a conversa entre o especialista João Barreta e a editora da Mensagem, Catarina Reis, sobre como a invenção do comércio moderno passa pela cidade de Lisboa.

As sessões seguintes decorrem a 1, 8 e 12 de outubro, sempre às 18h30, na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglês de Lisboa:
2.ª SESSÃO – 25 DE SETEMBRO
Urbanismo e comércio: um ciclo virtuoso (o que dizem os sábios)
O urbanismo moderno ensinou-nos que uma rua sem lojas é uma rua morta. As lojas funcionam como a célula viva da cidade. O comércio não é apenas um “anexo”, mas o seu sistema operativo. É o comércio que dita para onde as pessoas caminham, onde se sentem seguras e como a economia se materializa. Nesta aula analisaremos as suas várias vertentes e as teorias que sobre elas se estabeleceram. O conceito de “Fachada Ativa”, de Jan Ghel, com a definição do que é uma cidade viva através das suas lojas, aos “Olhos da Rua”, de Jane Jacobs, que explica como as lojas funcionam como um sistema de vigilância natural – uma montra iluminada e um lojista à porta tornam a calçada mais segura do que qualquer câmara de segurança. E a Cidade de 15 Minutos, com a “Logística de Proximidade” e o “Mix de usos”, ou como a “loja de conveniência” ou a mercearia de bairro são ferramentas de planeamento ambiental.
Com Rita Ochoa, professora da Faculdade de Arquitetura de Lisboa
3.ª SESSÃO – 1 DE OUTUBRO
Fenomenologia do comércio: ruas, armazéns e centros comerciais
Quais as diferenças, para a cidade e para o indivíduo dos diferentes modelos comerciais, de rua, Armazém e Centro Comercial. Como é que todos coabitam. A moda dos Armazéns que coincidem com o nascimento do comércio como desejo de uma classe média crescente, pós-Revolução Industrial, no final do século XIX. Mudanças no produto, no espetáculo do consumo e, até, na emancipação feminina (os grandes armazéns foram os primeiros espaços públicos seguros e “aceitáveis” onde as mulheres podiam circular sozinhas, e passar o dia fora de casa sem supervisão masculina). A democratização do luxo. A mania portuguesa com os Centro Comerciais, apogeu e queda? Os Centros Comerciais analisados pela semiótica, como “Não-Lugar” de uma Hiper-Realidade, em amnésia geográfica.
Com João Barreta
4.ª SESSÃO – 8 DE OUTUBRO
a) Gentrificação, globalização e identidade
O que fazer com a grande pressão imobiliária? Podemos apoiar a resistência das “Lojas com História” face à padronização das multinacionais? A gentrificação, o turismo, os bairros e o seu impacto. Exemplos de outras cidades, como Paris, Londres, Nova Iorque, Amesterdão, etc. Como as lojas de serviços (sapateiros, drogarias) são substituídas por lojas de souvenirs ou cadeias de café globais. Os desafios do comércio histórico em Lisboa, o que fazer para o preservar sem ser em… formol.
b) Cartografia do Comércio em Lisboa: lojas que marcaram a história da cidade, do Chiado aos novos hubs
A história de algumas das lojas com história e o que lá se passou (incluindo as que já não existem). Do Chiado, epicentro da fenomenologia comercial em Lisboa, com os grandes armazéns, onde o comércio se funde com a cultura (Livraria Bertrand, A Brasileira), ao comércio de bairro em Campo de Ourique, ou o modernismo de Alvalade e Avenida de Roma.
Com João Barreta
5.ª SESSÃO – 12 DE OUTUBRO
A Cidade Pós-Consumo? O futuro e o Phygital. Sustentabilidade e Comércio 5.0
O que é, hoje, na era do digital, uma loja? As lojas físicas estão a tornar-se espaços de experiência e não apenas de stock. Instagram e o seu papel. O que acontece à calçada quando a loja vira apenas um ponto de recolha (Click & Collect)? Sustentabilidade? Comércio circular? Personalização e Inteligência Artificial? E os influencers?
Debate com Susana Santos, Diogo Moura, UACS e um convidado a confirmar na área do digital

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