Ia escrever sobre a recente polémica envolvendo o presidente da câmara de Lisboa e o sistema Volta. Da desfaçatez do autarca, sugerindo que o ato de reciclar, em vez de ajudar a limpar o planeta, ajuda a sujar Lisboa.
De fato, nos últimos tempos há por Lisboa algo bem familiar aos olhos brasileiros, as pessoas revirando as lixeiras por um punhado de cêntimos. Até pensei, bem, depois do tráfico de drogas a céu aberto e dos tiroteios em via pública, agora isso do lixo em Lisboa.
Será que querem mesmo nos mandar de volta à nossa terra ou que a gente se sinta em casa por aqui?
Mas dar a volta atrás ao Volta por expor uma face de Lisboa que, infelizmente, quem circula na cidade sabe, faz parte do cenário, é tentar maquiar a realidade e Lisboa já é bonita demais para precisar de maquiagem.
Ia falar dessa tentativa de varrer o problema social para debaixo do tapete, mas a verdade é que não estou voltado para o Volta nem para o presidente da câmara. Nestes dias, estou monotemático, obcecado, neurótico e paranóico com as eleições no Brasil.
Enquanto os meus dois ou três leitores lisboetas estiverem merecidamente curtindo o feriadão de 5 de outubro, estarei roendo as unhas. Eu e grande parte dos imigrantes brasileiros em Lisboa, especialmente os realmente preocupados com o futuro do país.
Só penso nas eleições presidenciais no Brasil.
Mas daí, podem perguntar, e o que a eleição no Brasil tem a ver com um jornal local lisboeta?
Pois tem, sim, muito.
Só em Lisboa, os brasileiros aptos a votarem são 79 mil. Atenção ao detalhe: são 79 mil eleitores. Sem incluir os brasileiros que não votam, por não ter idade legal ou não se regularizou a tempo. Isso numa cidade com 650 mil habitantes.
E é importante essa comunidade – e os meus dois ou três eleitores lisboetas – perceberem a importância da eleição brasileira deste ano.
Não apenas o embate entre dois candidatos, o confronto de propostas, de ideologias políticas, do progressismo contra o conservadorismo, da esquerda contra a direita. A eleição brasileira é também um plebiscito disfarçado.
Vai decidir se o Brasil continua soberano e senhor em sua própria casa, ou se volta a ser uma colónia.
Se vira o quintal dos Estados Unidos.
E não é preciso ir muito longe para perceber a posição dos dois lados em disputa.
O presidente Lula recentemente foi ao púlpito da ONU voltar a defender os recursos naturais do país, o petróleo, os cobiçados materiais raros e críticos, a nossa água e ainda frisou, sem medo algum, que o Brasil, vejam só, o Brasil não cabe no quintal de seu ninguém.
Vale repetir, o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Deviam tirar o duvidoso “Ordem e Progresso” da bandeira e meter a frase no lugar.
Do outro lado, o filho do outro disse que o Brasil precisa ajudar os gringos a diminuírem a dependência da China em relação a minerais críticos. É o quê, menino, ajudar os Estados Unidos? Que tramaram o Golpe Militar? Que estão impondo uma taxação de até 37,5% aos produtos brasileiros? E para não deixar dúvidas, já convidaram os norte-americanos a comporem um hipotético gabinete de transição de governo.
Há ainda uma diferença gritante também no currículo pessoal como político.
De um lado, um candidato com a experiência de três mandatos presidenciais com reconhecimento internacional. Um presidente que retirou duas vezes o Brasil do mapa da fome, colocou o país pela primeira vezes entre as nações com nível muito alto de IDH, registou a menor taxa de desemprego da história, o aumento recorde do salário mínimo em 50 anos, a menor inflação deste século, a deflação de alimentos, o recorde de investimento na educação com meta de 10% do PIB, recorde também no investimento na habitação com 2.5 milhões de casas construídas e a redução recorde do desmatamento da Amazônia.
E, principalmente, ainda não foi citado em nenhum esquema de corrupção.
Do outro lado, um candidato que em oito anos como senador apresentou dois projetos e nenhum deles virou lei.
Em compensação, começou a carreira na política aos 19 anos como funcionário fantasma em Brasília enquanto vivia no Rio de Janeiro e, como deputado e depois senador, envolveu-se com as rachadinha (onde os funcionários do gabinete devolvem parte do salário), empregou parentes de chefes do crime organizado, condecorou o chefe do chamado Escritório do Crime, foi dono de uma loja de chocolates que recebeu 1.512 depósitos regulares em dinheiro vivo, comprou 16 imóveis também com dinheiro vivo e está sendo investigado pela nossa Judiciária por corrupção e lavagem de dinheiro no maior escândalo do sistema bancário brasileiro.
Vamos combinar, tem como comparar?
Aí você, meu caro leitor, minha cara leitora, tem todo direito de perguntar, de querer saber, de ter certeza, de ouvir da minha boca, se vou votar em Lula.
Mas existe alguma dúvida disso? Claro que vou.
E aí, também podem perguntar: onde fica a imparcialidade jornalística?
Fica do lado certo da história, o lado certo da informação e dos dados.
O lado certo da democracia.
O conceito de imparcialidade jornalística costuma ser distorcido. Ser imparcial não é aceitar as informações e pronto. Ouvir um lado, ouvir outro, sem refletir, sem pesquisar, sem apurar, sem verificar, sem checar, sem buscar a verdade. Isso não é jornalismo.
É o anti-jornalismo.
Se um lado diz que a água está fria e o outro diz que está quente, cabe ao jornalista botar o dedinho do pé na água para perceber a temperatura. E informar ao leitor, apesar de um lado dizer que está quente e outro que está frio, a verdadeira temperatura da água.
Esse é o nosso trabalho.
Ouvir os dois lados, sim, mas não fechar os olhos para os fatos. Não fechar os olhos para a verdade.
Quem duvidar das informações entre os dois candidatos contidas nesta crônica, sobre o desempenho de um lado e sua ausência em escândalos e o entreguismo aos Estados Unidos e a ficha-corrida de fazer corar Al Capone do outro, pode aceder aos links. Ou fazer a sua própria pesquisa, usar a IA finalmente para uma coisa útil ou dar o bom e velho Google .
Foi o que fiz, como jornalista, sem fechar os olhos para os fatos. Sem fechar os olhos para a verdade.
E também fiz como eleitor, para escolher o meu lado numa eleição crucial para o país.
O lado certo. O lado de Lula.
No dia 4 de outubro, boa sorte Brasil.

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