Esta história começou num sítio respeitável (o Museu de Lisboa) em que um quadro se apresentou com um nome emparelhado a uma circunstância: Junot passando revista às tropas no Rossio e, afinal, não podia ser esse o nome dele. Sabia-se também que o quadro estivera escondido por quase dois séculos, embora brevemente exposto, em 1947, em outro respeitável sítio (o Museu Nacional de Arte Antiga), quando se comemorava um momento histórico.
E sublinhem o histórico daquele momento: ele metia a tomada de Lisboa aos mouros, que se celebrava, a invasão da cidade pelos franceses, que se recordava, e a fuga da corte portuguesa para o Brasil que veio de arrasto.
Ora, nessa tal altura, antiga de oitenta anos, o nosso quadro mal titulado esteve ao lado de outra obra, numa coincidência: tinham ambos o mesmo nome.


E não era um daqueles títulos gerais, Pôr-de-sol, A Felicidade e assim… Era mesmo aquele título narrativo e factual, com sujeito, predicado e vários complementos: Junot passando revista às tropas no Rossio.
Um só nome, dois quadros. Um, tela a óleo, outro, a tinta-da-china; este de autor modesto, Luis António Xavier (LAX), o outro, anónimo. Ambos admiráveis.
O que podia acabar numa confusão desgraçada, vimos no episódio anterior, revelou-se uma bênção. Os dois quadros homónimos desataram a contar Lisboa, de forma descarada como o romance entre a Rita, que é peixeira, e o Chico, que é pescador.
Ou, para gostos mais cultos, como o que o poeta O’Neill punha o boxeur Belarmino, rapaz do Martim Moniz, a dizer de um K.O.: “Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante – e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.”
Coincidências, coincidências…
Já quase me ia esquecendo… Antes de iniciar a famosa sessão no Palácio Pimenta, de apresentação da exposição 3 Vistas de Lisboa, e do tal quadro anónimo e apócrifo – também narrada no episódio anterior –, uma voz incitou-me a subir ao primeiro piso do Museu de Lisboa.
Deixei-me, pois, empurrar para a Sala 26, da exposição permanente, chamada “Cidade do Tempo de D. Maria I (1777-1816) Guerra Peninsular”. Detive-me frente a um desenho a tinta-da-China aguarelada. Era sobre o Rossio e a época, início de 1800.
Foi então que vi pela primeira aquele desenho do Luís António Xavier (LAX). Foi a primeira vez que eu via alguma coisa de Luís António Xavier.
A técnica utilizada variava os tons de cinzento, sublinhando as formas e os factos. O nome da gravura espantou-me: Junot passando revista às tropas no Rossio. Era o mesmo título do quadro que, diziam, me esperava no Piso 0, anónimo de autor, para a cerimónia ao fim da tarde! Mas a obra, no primeiro andar, tinha um autor com nome, o tal LAX. Foi um dejà vu, embora, visto, eu ainda não vira nada.
Sabem do que mais me recordo daquela gravura da Sala 26? Não vão acreditar… Pareceu-me ver na gravura uma bandeira francesa, no cimo do Castelo de São Jorge, a cores e a piscar. Só desfiz o despropósito – uma bandeira de cinzentos a luzir azul-branco-vermelho e a piscar, num quadro! – quando entrei melhor nesta história.
Aquilo era o castelo a avisar-me: este quadro, o do LAX, não é como o outro, tem mesmo o Junot a desfilar! A bandeira tricolor garantia que naquele momento a Lisboa pintada ainda estava invadida.

Depois, como sabem, desci à Sala 17, no átrio, onde me aguardava a festança que o Museu de Lisboa tinha para mim.
Minto. Antes, entrei numa sala contígua, já no andar térreo, onde se expunha uma homenagem ao grupo Amigos de Lisboa. A exposição ficará também até setembro e chamava-se lindamente “Por amor à cidade”.
Lá dentro havia um painel com desenhos e caricaturas dos fundadores dos Amigos de Lisboa, entre eles, Luís Pastor de Macedo e Gustavo de Matos Sequeira, olisipógrafos famosos e organizadores do catálogo antigo onde eu iria beber do fino. No painel, ainda, estava o engenheiro Augusto Vieira da Silva, um dos fundadores do grupo homenageado.
Como prova de que, então, eu ainda não sabia nada sobre o assunto que ali me trazia, não relacionei o nome do engenheiro. No tal catálogo de 1947, que eu ainda não conhecia, ele era mencionado em quatro gravuras do LAX, expostas então nas Janelas Verdes, a do Príncipe Regente na praia de Belém e as três relacionadas com Junot, (franceses entrando em Lisboa, na parada do Rossio, e partindo do Cais do Sodré). Em cada uma, a informação: “Pertence ao Exmo. Senhor Eng. Augusto Viera da Silva.”
Enfim, entrei para a sessão, Sala 17, átrio do Palácio Pimenta, fim de tarde, no dia inesquecível, sobre um óleo sobre tela, anónimo e por enquanto ainda a chamar-se Junot passando revista às tropas no Rossio.
O marchand d’art Philippe Mendes foi o primeiro a falar e disse logo que aquela tropa lhe parecia demasiado confusa para parada militar francesa. Quase me levantei a bater palmas: “Tem muita razão! Ide lá cima ver o que é uma parada à francesa!”

Eu sabia que Philippe Mendes vivia entre Lisboa e Paris, devia ter assistido a alguns desfiles do 14 de Julho, nos Campos Elíseos.
Os soldadinhos perfilados ordeiramente pelo pincel de LAX, e, além da aparência, franceses confirmados pela bandeira no alto do Castelo de São Jorge, tudo isso deve ter convencido de vez o marchand sobre o outro quadro.
Aquela certeza de Junot estar no desenho a nanquim, no andar de cima, aprofundava a dúvida sobre o general estar na tela a óleo, no átrio.


De facto, LAX e a sua imagem ordeira davam força à hipótese de o Anónimo não ter pintado Junot. A seguir, também Pedro Flor e Paulo Almeida Fernandes, presentes na mesa que dirigia a sessão, corroboraram a tese que já tinham como historiadores de Arte avisados: naquele quadro que apresentavam, Junot não estava.
Sobre quem estava, eles desenvolveram uma hipótese.
Como já disse, eu ainda não conhecia o agora famoso catálogo de 1947 e pouco sabia do leilão que levara o quadro ali, já com o novo dono. Senão, ter-me-ia levantado e feito outro brilharete: “Ide ver de onde vem o quadro, caragos!”
A interjeição seria para acentuar que o caso já era nacional, não só lisboeta. Na verdade, no antigo catálogo dizia-se “Pertence ao Exmo. Senhor Eduardo Mendia»!” e no recente leilão: “Coleção de Eduardo Mendia”.
Os especialistas conheciam o tal catálogo e o leilão – e souberam que Eduardo Mendia era trineto de António Francisco Machado (1768-1839). Ora, isso deixava o comerciante Machado bem colocado para ser o patrono da pintura: ele foi o primeiro comandante da infantaria dos Voluntários Reais do Comércio de Lisboa, criado em 1809, um corpo miliciano de élite, formado por grandes homens de negócios, burgueses e empregados, depois da retirada do general Junot, em setembro do ano anterior.
A obra ter ficado décadas e décadas na coleção da família, indiciava António Francisco Machado como provável encomendador do quadro, ato justificado pela vontade de vir a beneficiar da glória de lá estar retratado.
Acresce que a nossa já conhecida Gazeta de Lisboa, senão uma prova, trouxera ao assunto uma espécie de justiça divina. Em 3 de dezembro de 1807, nem ainda uma semana estava o general Junot em Lisboa, o jornal publicou a lista das pessoas obrigadas a contribuir com 2 milhões de réis de “Empréstimo Forçado” para o exército invasor.

A lista era encimada pelo Barão de Quintela – que, além da multa, também foi obrigado a “emprestar” o seu palacete, na rua do Alecrim, a Junot. Mas, para o que aqui mais interessa, trazia estampado o nome do comerciante de tabaco António Francisco Machado, também obrigado a pagar 120 mil réis.
Assim, se no óleo sobre tela, o cavaleiro no meio da praça, no cimo do primeiro terço da tela, de chapéu de dois bicos, do qual também se dizia “à Napoleão”, mas já meia Europa os usava como moda, se esse cavaleiro for o primeiro comandante da tal milícia de comerciantes, fica resolvido o primeiro mistério do quadro: quem o encomendou.
E sabendo-o, propõem os investigadores que saia o Junot do título e este passe a ser chamado A primeira formatura do regimento de infantaria dos Voluntários Reais do Comércio.
Eu preferia chamar-lhe A Vingança do Machado. O comerciante foi ressarcido do que lhe fez o gaulês gatuno e deu azo a um belo aforismo nacional: “A Junot, todos pusemos na rua, o Príncipe Regente, a ver navios, mas só o Machado o pôs fora de um quadro”.

É certo que as paradas militares são bonitas de se ver, ou pelo menos mais bonitas do que as guerras, mas aquela formatura foi um fiasco. Só os dois esquadrões a cavalo da Guarda Real da Polícia, um em cada ponta da praça, tinham algum garbo, levantavam o estandarte da cidade, triângulos pretos e brancos.

Fundado em 1801, foi o primeiro corpo policial lisboeta (virá a dar a GNR) e já tinha experiência, até a adquirida durante a ocupação francesa, que serviu – pudera, o seu comandante desde a fundação era o conde de Novion, francês.
Este é outro nome a riscar deste quadro, o conde acompanhou o general Junot no regresso a Paris, em setembro de 1808…
No desenho, o coronel miliciano António Francisco Machado, militar sem ser a tempo inteiro, saudava uns pelotões manhosos, um soldado de baioneta reclinada ao ombro saudava alguém da multidão, civis que, mais que olhar a parada, posavam para o pintor (ainda por cima anónimo) e havia uma tenda assaltada pela populaça, talvez voluntários a se oferecer.
Ao bico da tenda, desembocava da calçada do Carmo uma carroça de bois com duas pipas de vinho. Dois burros carregados com sacos, três cães vadios açulando um cavalo aos pinotes com um janota agarrado às rédeas.
Por um niquinho, quem pintou poderia ter apanhado Bocage no passeio (a praça era de terra batida, mas há passeio – é altura de caçar pormenores nesta história). O poeta frequentava o botequim do Nicola, e também o do lado, o botequim das Parras, com cachos de uva e folhas de videira pintados à porta, anunciando o tipo de comércio – ambos apareceram na tela. Ambos, os botequins.
Porque António Francisco Machado acabado de encomendar o quadro e o poeta sadino a ser pintado no passeio seria um anacronismo em 1809.


Manuel Maria du Bocage morreu em fins de 1805 e durante esse último ano já nem abandonava a enxovia onde morava no Bairro Alto; e, por seu lado, até 1809, o comerciante patrono ainda não tinha o cargo militar para se vangloriar. Foi uma pena o desencontro, Bocage apreciaria aquela atabalhoada descrição da cidade. Já para não falar do soneto satírico que ele tão bem faria sob o mote “estava Junot e não estava”…
Em todo o caso, com Bocage, mesmo um desencontro é sempre uma honra. No quadro, “Já Bocage não sou!…”, não estava, mas que importa, que belo meio verso.
De cá para lá e de lá para cá
No outro desenho, na obra assinada por LAX, não há uma invocação literária como no óleo em tela. Em contrapartida, nessa gravura que refere Junot e com razão, houve um cuidado para a imagem a tinta-da-china replicar o que foi escrito num texto, seu contemporâneo, escrito, publicado em tipografia e datado.
Na data mais decisiva da invasão de Lisboa, 1 de fevereiro de 1808 – Portugal ia ser declarado território francês – a Gazeta de Lisboa descreveu o dia do general Junot.
Façam o favor de confirmar no desenho de LAX, como ele espelhou, a preto e branco, o que foi escrito há 219 anos: “O general Junot a cavalo e com o grande uniforme”, (vejam a medalha Grand’Aigle da Legião de Honra, ao peito, ganha na Batalha de Austerlitz, dois anos antes) “e acompanhado pelos seus oficiais generais” (vejam a crina do último cavalo, virando à direita para entrar na praça, vindo, pois, da rua do Carmo, como quem vem, lá de cima), “do palacete do Barão de Quintela, na Rua do Alecrim” (e do largo que vai ser o Chiado, para entrar no Rossio, onde) “foi, entre alas, para o palácio da Inquisição”.
E no quadro lá está o arco pombalino do Tribunal da Inquisição à espera. E o país também, da má notícia.



Continuem com a história escrita na Gazeta de Lisboa: “Deste sucesso deu imediatamente sinal o Castelo de São Jorge com uma salva de morteiros…” e compaginem a leitura com o que ficou em imagem, desenhadíssimo: talvez não oiçam os morteiros, mas vejam hasteada a bandeira tricolor.
E cuidem da data que este quadro assinala: a 1de janeiro de 1808, pela primeira uma data importante de Portugal foi relatada em reportagem, com texto e foto.
Sei lá se o Junot passando revista às tropas no Rossio, do LAX, e o Junot passando revista às tropas no Rossio, do Anónimo, são grandes obras de arte! Sei é de duas maravilhosas histórias que o Museu de Lisboa me conta.
Os meros consumidores e amantes da cidade – como quem aqui escreve – tendo ficado viciados por um inesperado quadro, e logo outro, quiseram mais. E não é que tiveram mais? Como a ver vamos.
O quadro que foi libertado
Mais uma vez se cumpriu a certeza antiga, quando tudo nos falha (como agora, parece acontecer: Junot não está aqui), há sempre um bocado de Lisboa a que nos agarrar. Por isso, devemos ouvir Lisboa a contar-se. No caso, nesta Lisboa pintada, dar conta dos seus pormenores.
Na brochura, Joana Sousa Monteiro, a diretora do Museu de Lisboa, lamentava não ter podido comprar o quadro da Coleção de Eduardo Mendia, no recente leilão da Veritas. Mas conseguira que ele fosse exibido no seu museu, onde estará até o final de setembro.

Eu vou voltar a vê-lo, tão entusiasmado fiquei. Até final de setembro, nosso. No Museu de Lisboa. Nosso como nunca o foi senão num vislumbre e noutro sítio que já foi contado.
O marchand d’art Philippe Mendes – a dado passo, chamei-lhe “negociante de arte”, para escândalo de um vizinho da minha cadeira (arrumei este com um olhar que sabia falar francês e ainda melhor português: “Negociante quer dizer quem nega o ócio, aquele que trabalha a sério”) – durante a sessão, dizia eu, o trabalhador e eficaz Philippe Mendes confirmou que o novo dono era o príncipe Rahim Aga Khan V.
Este vive em Genebra, mas passa temporadas em Lisboa. Além dos agradecimentos que, venerador e obrigado, tenho espalhado neste texto, estendo outro ao novo proprietário. Que, além de conhecidas e invejadas posses, é inteligente e justo porque o vi a partilhar o que tem.
Entretanto, um pequeno parágrafo sobre a questão de dinheiros. No anúncio do leilão, levado a público a 15 de outubro do ano passado, a estimativa da licitação era entre 45 mil a 65 mil euros. Não foi tornado público o valor do martelo, quer dizer, quanto acabou por custar.
Em todo o caso, preço astronómico, equiparável a um terço de um T-0, no Cacém ou na Brandoa. Além de que, pesquisando na Idealista, conhecida empresa de anúncios imobiliários, um apartamento desses tem 50 m2 de área bruta e o quadro, só 67X120 cm, nem chega a um metro quadrado. Bem fez o Estado português ao zelar pelos dinheiros públicos.
E de repente um comboio (em 1800!)
Mas, continuando, antes da sessão eu tentei dar um olhar breve ao quadro. Na verdade, não consegui demorar-me na análise, pois não há voracidade maior que a dos habitués de museus – eles começam logo a empurrar. São por natureza do tipo turistas japoneses frente à Mona Lisa, ou se querem comparação mais prosaica e atual, parecem fãs noruegueses de futebol, remando, a expulsar os outros.
O minuto rapidinho que eu pude deitar ao agora falecido título Junot passando revista às tropas no Rossio encantara-me. Se já tinha a moderníssima traça dos arquitetos do Marquês de Pombal, ainda expunha a devastação deixada pelo terramoto. Barracas e casebres subiam ao lado de casas nobres abandonadas, com exceção do Palácio dos Duques de Cadaval, que seria derrubado para ser construída a estação ferroviária do Rossio, em 1890.

Meu Deus, ainda tinha à minha frente tropas napoleónicas (ou julgava eu que fossem)… E, de onde uma carruagem puxada a cavalos saía do pátio do palácio dos Duques de Cadaval, de repente, desembocou um queirosiano Sud-Express, também vindo de Paris, com notícias da Comuna. Ou judeus fugidos de tudo, 1940, chegados ao porto de abrigo… Ou mulheres de limpeza, negras, no primeiro comboio da Linha de Sintra chegado à estação, 05:40, todos os dias…
É disto que eu falava há pouco, dos ensinamentos cruzados e inspiradores, que o saltitar pelo tempo dá. Se calhar devíamos, mesmo, ter comprado aquele nem metro quadrado de tela.
Olha, e se não houvesse a boa-vontade do Aga Khan em emprestar, como era?!
Os quadros mostram, ensinam. Logo, são para mostrar, não esconder. Podia ser um risco deixarmos uma obra destas cair nas mãos de um colecionador voraz como aquele japonês que comprava Van Goghs e Renoirs para os encafuar no cofre-forte do seu banco.
Então, no agora ex-Junot passando revista às tropas no Rossio, felizmente à disposição dos nossos olhos, vê-se ainda o cataclismo de 1755. É natural, só tinha passado um breve instante, o mesmo meio século que já vivemos desde o 25 de Abril, ainda ontem.
Janelas fantasmas com Eça
E a revolução arquitetónica respondendo à tectónica, era também notória a fachada nova dos prédios pombalinos do Rossio. Clara e viva, com pormenores como os do botequim Nicola pintado de um vermelho que hoje não tem, e a porta com as duas esbeltas colunas que ainda lá estão. Já lá estivemos há pouco, com Bocage, e podemos voltar como em suplemento literário.

A imagem não era só arquitetura, traça e pedra, pois levou-me a subir os olhos pela fachada do botequim Nicola e, três andares lá acima, estavam duas cabeças à janela, debruçadas para a parada militar. É importante o leitor ir, até setembro, ao Campo Grande, Palácio Pimenta, e dar conta dessas duas cabeças. Há duas janelas assim, escolha uma.
Sei – e isso assinado pelo próprio – é que Eça de Queirós (1845-1900) morou ali parte da sua vida, no exato lugar dos dois vultos. E até foi aplaudido.
Em 1898, por ocasião das Comemorações da chegada de Vasco da Gama à Índia, Eça mandou uma carta a Dona Emília, sua mulher, que ficara em Paris. Dois anos antes de morrer, ele escreveu:
“Aqui, no Rossio, o cortejo passou num silêncio glacial, quase sombrio, um silêncio de 30.000 pessoas. Eu, todavia, se me faz favor, tive a minha pequena ovação, que agradeci do quarto andar, com modéstia. Os pequenos teriam apreciado consideravelmente estes vivas!”.

Do “quarto andar…” Ora, Eça de Queirós viveu nesse número de porta, 26, e no 4º andar por cima do café. Então, em 1898, esse já era no último andar do prédio, sob as águas-furtadas insertas no telhado. Mas, no quadro, de quase um século antes, havia ainda só três andares…. O apartamento de Eça, construído depois, estava à altura das águas-furtadas antigas do quadro. E, nestas, no dia daquela parada, nenhuma cabeça espreitava. Nada dizia que que Eça estivesse lá…
Sim, e então, o leitor quer que eu dê uma lição de ciências exatas ou quer que continue com acasos felizes? Mais anos passados, da cartinha à dona Emília até hoje, do que, em sentido inverso, os anos de Eça até aos contemporâneos lisboetas de Junot, não é pelo nível de um patamar que vou deixar de me comover ao olhar para aquela janelinha em cima do Nicola, 3º ou 4º andar, que me importa?
Os factos dizem que a janela do Eça ainda não existia no dia da parada. Quando a televisão lhe demonstrava que o golo marcado pelo seu adorado Flamengo era fora de jogo, o grande cronista brasileiro Nelson Rodrigues, que escrevia quase tão bem como o Eça, rematava: “O vídeo é burro”. Eu digo: “Os patamares no Rossio são burros.” E vou, isso sim, com este abençoado quadro continuar a permitir-me a imaginação de confundir tempos e boas surpresas que fazem da minha cidade o encanto que é.
Até setembro vou repetir a felicidade de ver Eça à janela, supondo ver o Junot que não estava ali.
O autor que sabia contar janelas
E isso apesar de eu também ter caído na tentação da crítica mesquinha. Felizmente o nosso quadro obscuro perdoou-me.
Foi quando, com o Rossio aos pés, o pintor me mostrou o Convento do Carmo virado a nascente. Do lado direito das ruínas da capela-mor gótica (que em ruína continua), o edifício surgiu imponente e, em pormenor, caprichou na varanda que ilustrava o centro da fachada: havia azulejos na parede do fundo. Essa varanda tinha cinco janelas de cada lado. “São sempre dez por cada andar”, contei.
Eh, eh, eh, eu acabava de descobrir um segredo sobre o anónimo pintor. Como já disse, aquele fim de tarde no Museu de Lisboa foi mesmo emocionante: eu julguei ter descoberto que o homem, que continuo sem saber quem é, era preguiçoso!

De facto, telemóvel em punho e com o Google, comparei o quadro com foto atual do que é hoje o Quartel do Carmo, sucessor do convento.
A tal varanda, sempre com azulejos e companhia simétrica, deixa-se cercar pelo dobro de janelas: vinte por cada andar! Calculei tudo, ainda estava a decorrer a tal sessão que me trouxera para este assunto.

Já tinha o dedo no ar para encavacar os especialistas, mas tive de engolir em seco o sorriso escarninho com que quase sobressaltei o Palácio Pimenta. As novas tecnologias, novamente consultadas, alertaram-me: há foto, posterior a 1850, da fachada do Carmo, confirmando pintada circa 1800!

Quer dizer, Junot, o imputado protagonista desse quadro do Rossio podia não ser quem se dizia ele ser (e não é, sabemos agora); mas o ainda misterioso autor soube contar as janelas que viu. Aconteceu simplesmente que o convento iria passar a quartel-general da GNR e, em 1912, sofreu obras que foram generosas em mais janelas.
Sim, como qualquer olhar levantado hoje do Rossio dá conta, são vinte janelas à volta da bela varanda do Carmo. É, as coisas da vida variam. Mas aquele anónimo artista foi realista. Quando ele viu as janelas, eram metade e assim as pintou.
Gente, gente e mais gente
Enquanto se demorou sobre pedras – arquitetura e consequências do terramoto – o nosso quadro foi, como vimos, controverso. E ainda mais quando se debruçou sobre o miolo da pintura, a parada militar e quem lá estava ou não.
Calculem agora as incertezas expostas na metade inferior da tela, toda ela dedicada à vazia terra batida da praça do Rossio, ainda sem estátua, nem fonte, mas prenhe de gente. Gente vivendo revoluções sociais e históricas havia meio século. Aliás, gente não conhecendo outro tipo de dia a dia. Sustos a seguir a sustos.
É que o terramoto de 1755 não foi só sentido pela ironia de Voltaire – que inventou a vinda de Pangloss à nossa cidade, o do “tudo está bem e no melhor dos mundos possíveis” – para o confrontar com o “sumidouro de Lisboa”, a nossa cidade arrasada. O texto tornou-se clássico, mas mais do que o filósofo, sentiram na pele os lisboetas o que era abalos.
Calculem o medo do povo, quando o próprio rei D. José fugiu do Terreiro do Paço para ir viver na Real Barraca (o pavor foi tal que juntou duas noções contraditórias, Real e barraca), feita de madeira na Ajuda, o único bairro lisboeta que se revelara terra firme. O desastre vivido passou a sofrida psicose, a ponto de D. José quase nunca ir dormir ao maior dos seus palácios, em Mafra. À noite, angustiavam-no a possibilidade de lhe caírem em cima as pedras de paredes tão altas…
Para o povo que estava no nosso quadro, só tinha passado meio século desse pavor telúrico – a memória persistia. Acresce que 1755 teve intensíssimas réplicas, senão medidas em escala de Richter, em sucessivas revoluções sociais e políticas.
Lá fora, o sopro modernista da independência americana, 1775 (e, se o Imperio britânico cedeu ali, o que será de nós com o Brasil?)
Depois, a Revolução Francesa, 1789, com decapitação da monarquia, ideias iluminadas, mas também, não esquecer, terror a pretexto da purificação.
Cá dentro, como reação, o reforço da Inquisição, com a corte de D. Maria I convertida em catequese serôdia.
Tudo culminando nas guerras de Napoleão pela Europa fora, que também chegaram cá dentro.
Um meio século sem descanso que, se soubermos ver, o quadro expressa.

Olhem, mesmo até o que não está no quadro merece ser olhado. Por exemplo, D. Pedro de Almeida, marquês de Alorna (irmão de D. Leonor, marquesa de Alorna), da nossa elite mais culta de então, pensava o mesmo que o figurista Luís António Xavier, o LAX dos louvores a Junot. O general francês, conquistada Lisboa, logo desmantelou o Exército português e formou a Legião Portuguesa, nove mil homens, para se integrar na Grande Armée napoleónica nas campanhas pela Europa fora. O comando foi oferecido ao marquês de Alorna.
Este morreu, deixado para trás na retirada de Napoleão da Rússia, em Kalinegrado, a 2 de fevereiro de 1813.
Que Junot tenha morrido seis dias depois, doido e em França é mera coincidência, mas sabermos o que sopra nos grandes destinos é matéria para biografias.
Outra coisa é a bela encomenda que, sem ironia, nos deixou o encomendador António Francisco Machado. O simples e maravilhoso quadro.
Termino desfilando as imagens, da esquerda para a direita, pela mais baixa fileira ao comprido da tela, aquela logo em cima da madeira da moldura onde virá a estar o novo título e, assim os especialistas o encontrem, o nome do autor.

A imagem do povo, pois, lida no sentido tal qual lemos. Um polícia da cidade, orgulhoso de si próprio, arma (espada) para avisar, mas pendente e pacífica. Dois rapazinhos, agarrados um ao outro, fascinados pela espingarda de um civil. O vendedor de cestos, enfiados numa vara ao ombro, dividindo o peso – dos poucos, ali, em negócio claro. Duas senhoras de laçarotes e xailes, cada uma avaliando com dedos suaves o toque das sedas da outra.
Um homem debruçado, mas um só joelho no chão e duas mãos em função, fazendo o que a confirmar-se me poria aos gritos: “O primeiro engraxador de botas de Lisboa! Vi um, antes do Joshua Benoliel o fotografar!” Mas, admito, talvez me tenha precipitado.

E, por último, um frade em conversa viva. O hábito de túnica e escapulário brancos e capa negra revelava-o frade dominicano. De facto, havia o Convento de São Domingos, para onde ele estava virado, do outro lado da praça. Eis uma aparição que sublinhava a contradição dos tempos. Com a caça aos franceses depois da fuga de Junot, um frade, à partida, seria bem-vindo a um ato público na Lisboa liberta.
Porém, “jacobino” era a definição para a ala mais radical das ideias vindas de França e, em 1808, por oposição aos invasores, insulto estendido a todos os franceses… Ora, os dominicanos franceses, por o seu principal convento em Paris ficar na Rue de Saint-Jacques, eram chamados de “jacobinos”. E, cedo na Revolução Francesa, os círculos próximos do mais radical dos revolucionários, Robespierre, e com alguma aceitação naquela ordem religiosa, passaram a chamar-se também jacobinos.
Que conversa se passará naquele canto do quadro? É o problema das imagens, às vezes calam-se. E fica o silêncio ensurdecedor daquele frade jacobino, no canto direito inferior do nosso quadro, onde geralmente se assina uma tela. E em atitude dialogante e persuasiva, embora eu não lhe perceba a mensagem.

Assim sendo, e para terminar, recorro a um texto escrito, encimado pela palavra “Aviso”, como no tempo se chamava aos anúncios. Era um grito. Chegou-me pela Gazeta de Lisboa, a 19 de janeiro de 1808. Lembram-se, o general Junot acabava de tomar Lisboa e os portugueses eram aconselhados a não dar apoio aos seus tradicionais aliados ingleses.
Dizia o anúncio, que tomei como carta pessoal.
“Leonor Collins e sua irmã, moradoras na rua da Horta-secca Nº 18, encarregadas há alguns anos na educação de meninas, se aproveitão deste vehiculo para fazer saber ao Público que ellas prosseguem eficazmente no mesmo importante objectivo do seu Collegio”

Dias antes, outro anúncio, na Gazeta de Lisboa, também de uma proprietária inglesa de colégio para meninas, na rua do Ferragial, alertava discretamente para as dificuldades em encontrar clientes.
Caçar coincidências é mostrar que uma só rua, a do Alecrim, separa as ruas Horta Seca e a Ferragial. Dar conta de pormenores que valem a pena é saber o porquê da angústia das professoras inglesas: na rua do Alecrim morava, num palacete que usurpou, o invasor que combatia aliados dos portugueses.
E?…, dir-me-á o leitor. Nada, eu só vim cá para dizer que gosto de olhar anúncios de jornais e quadros de quase dois séculos e concluir: a pequena gente ensina-me sempre tanto…
Frequento a Casa da Imprensa há tantos anos, vejo exposições e participo em debates, um dia destes aproveito e desafio uns camaradas. A Casa da Imprensa é ali ao Camões (o endereço exato é Rua da Horta-Seca, Nº 20), então, vamos à porta ao lado, o Nº 18, saber o que aconteceu à professora Leonor Collins, caramba foi nossa vizinha, e aquela coisa do “ir ao fim da rua, ir ao fim do mundo” é connosco, ou não é?
Nesta série da Mensagem, “Fala-me de ti, Lisboa”, Ferreira Fernandes (texto) e Nuno Saraiva (ilustração) percorrem lugares de Lisboa e contam as histórias, coincidências e personagens que fazem de uma cidade, uma cidade. Um atlas histórico, de memórias e cruzamentos temporais, em 20 episódios, espalhados por todos os bairros de Lisboa. Tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.
