A segurança do museu pergunta-me em inglês, a técnica da farmácia insiste na língua-mãe errada, o senhor Miguel não. Ele sabe como gosto do café. Curto, mas na esplanada sento-me na dúvida: será o tom da minha pele-verão ou os lisboetas são a eterna minoria indígena impossível de encontrar dentro da zona velha. Onde as luzes são mais violentas que na Broadway e onde os espectáculos são mais andaluzes que em Sevilha. Lisboa é a cidade imensa e, nas últimas semanas, desvaneci-me pelos seus bastidores à procura duma tasca.

Não procurava um restaurante que se apresente como A Tasca do. Não, o problema não vinha do nome, das cadeiras ornamentadas para parecerem antigas ou dos pratos de esmalte escolhidos na revista do Observador.

Não, queria apenas uma tasca onde houvesse pão, manteiga, uma canja, uma imperial, um prato que me lembrasse a comida da Casimira (percebe-se que era o nome da minha avó?) e um doce para fazer esquecer as possibilidades de diabetes a preço aceitável. Uma utopia como conseguir comprar casa em Lisboa, mas sabem como o alfacinha se nutre de esperança, não apenas de melancolia, não é?

Procurava um sítio onde o arroz (de pimentos, de tomate, de feijão, escolham vocês) almejasse acompanhar e não parecer outra imagem de destaque no carrossel de Instagram. Onde as barrigas de atum chegassem à mesa sem explicações, apenas mergulhadas nos coentros e azeite. Uma tasca onde os aromas da sopa fossem espalhados pela manhã até à rua onde o empregado não pergunta se queremos “degustar uma experiência gastronómica”. Procurei a fragância do azeite com alho acompanhada pela cebola refogada, na busca pelo ruído dos talheres e das gargalhadas, dos gatafunhos na toalha de papel, esses frescos pincelados por AC e uma imperial viva. Eu desejava inexplicavelmente a televisão com volume a rebentar com a bola a bater na rede ou o funeral em directo na CMTV. Uma possibilidade real para permanecer sentado sem preocupar-me com o turno seguinte.

Já perceberam que não andei à procura de uma tasca, mas de outra cidade. Há uns anos não precisávamos de procurar por Lisboa, ela estava aqui. Não falo do saudosismo do rock no velhinho Alvalade ou dos sintomas de estar a chegar aos quarentas, mas andei à procura de uma cidade que, entalada entre o oceano e o resto da Europa, goste de si própria. Porque quando Lisboa apenas procura agradar os outros, esquece-se de gostar de si.

Não tenho nenhum fetiche melancólico com prédios a cair na Baixa, heroína escancarada no Casal Ventoso ou a violência obscura do Bairro Alto. A memória não pode ser outro senhorio desonesto que pinta as paredes com cores brilhantes antes de nos mostrar que os elevadores continuam sem funcionar, mas andei à procura da Lisboa que não transforma cada gesto em rendimento. Não foi assim que seduzimos o estrangeiro? E uma cidade-valor já não será cidade, mas uma empresa. E quem quer, ou quem pode, viver numa gigantesca empresa?

A hospitalidade lisboeta perdeu a face ao demorarmos três horas para chegar ao quarto de hotel onde nunca dormiremos, a servir os pequenos-almoços que não poderemos comer e a recomendar os bairros dos quais fomos expulsos. O verdadeiro souvenir de Lisboa é um Fernando Pessoa a escrever na mesa da Brasileira uma carta a outro português sobre como desfrutar da cidade que ontem era sua. Os aviões da TAP incessantes sobrevoam a cabeça dos jovens germânicos com profissão liberal. Os condutores de tuktuks e os guias turísticos parecem pombos à cata de migalhas que os humanos-estrangeiros vão esquecendo pela cidade.

Encontro a tasca ideal. Sentado e com o guardanapo respingando azeite, penso no fim de tudo. Lembro o covid, os atentados terroristas ou o futuro deserto climático. Imagino a Lisboa pós-turismo de massas.

Perdemos a coragem política de exigir a regulação do turismo ou então alguém perdeu a vergonha de lucrar com a morte da própria cidade. Mas será inevitável quando o combustível se tornar demasiado caro, o calor insuportável, os espaços verdes inexistentes, as viagens de avião insustentáveis. As viagens turísticas para a maioria serão virtuais, pagas através de uma taxa digital.

Caminho sob o nariz dos hotéis da Baixa e imagino-os vazios. O que acontecerá lá dentro? As fechaduras digitais sem bateria. Os balcões de check-in cobertos de pó. Quem os irá limpar? As lojas de recordações com pirâmides de fernandinhos pessoas que já ninguém quer comprar. Onde será o seu cemitério? Os terminais de cruzeiros transformados em esqueletos junto ao Tejo como Aliaga, Alang, Chittagong.

O que faremos com as ruínas da hospitalidade?

Talvez as suites se tornem, por fim, casas para as pessoas que as limparam. Talvez as salas de pequeno-almoço se tornem refeitórios escolares. Talvez os terraços dos hotéis recebam hortas comunitárias, painéis solares e roupa estendida. Talvez os átrios de mármore se transformem em centros de saúde, bibliotecas ou creches. Talvez os Airbnbs regressem ao arrendamento, depois de desaprenderem a receber hóspedes por três noites. Talvez o luxo não se torne apenas lixo. Talvez Lisboa.

Cada hotel deveria devolver algo à rua onde está. Não apenas impostos, empregos precários ou uma fachada recuperada. Deveria contribuir com habitação para os seus trabalhadores, estruturas comunitárias, transportes e limpeza. Cada nova cama turística deveria ajudar a garantir uma cama permanente. Cada noite vendida deveria comprar tempo de vida a quem mantém a cidade a funcionar.

A taxa turística não deveria servir para promover ainda mais o destino. Uma cidade não precisa de gastar dinheiro a convencer o mundo a visitar um lugar já saturado. Esse dinheiro deveria comprar casas, apoiar cooperativas de habitação, recuperar mercados, financiar coletividades, proteger lojas históricas sem as mumificar e criar hortas em terrenos condenados à especulação.

Podíamos até insistir num direito à permanência.

Não baseado no local de nascimento, porque nascer em Lisboa não é uma escritura de propriedade. Lisboeta devia ser quem quer cuidar da cidade.

Quem abre o café, leva os filhos à escola, conhece o nome dos vizinhos, trata a rua por tu, conduz o Uber, ensaia na associação, serve o almoço, trabalha na oficina, planta uma horta, protesta contra o despejo, porque quer aqui continuar a viver mas não pode. Devíamos estar a falar no mal tratado que é quem ainda quer viver em Lisboa, nesta cidade arquitectada por e para turistas.

Lisboa não tem de se encolher, mas terá de escolher entre uma hospitalidade baseada na reciprocidade e uma indústria que chama hospitalidade ao privilégio de servir apenas quem pode pagar.

Vou escrevinhando aqui na toalha de papel da tasca ideal, junto dos traços do amigo du.algo:

— Lisboa, ainda caibo aqui?

Talvez Lisboa seja uma pergunta errada.

Uma cidade não pode ser pergunta, tal como não pode ser uma mala onde cabem alguns e outros tenham de ficar de fora. Uma cidade é uma prática diária para fazer espaço comum. Quando deixar de o fazer, pode até conservar o nome, os elétricos, os miradouros, o fado, os azulejos e a luz perfeita sobre o Tejo. Pode continuar cheia. Pode continuar instagramável. Pode até continuar a chamar-se Lisboa.

Mas será apenas a lembrança de outro lugar qualquer num íman de frigorífico de outro lugar qualquer.


Francisco Mouta Rúbio

Vencedor de dois prémios literários (Luis Vilaça 2021 e Concurso de Contos do Museu do Aljube 2022), escreveu para o Público, Buala, Gerador entre outros. Licenciou-se, com uma desilusão ascendente em publicidade, na ESCS, e depois, ganhou um fôlego durante uma pós-graduação em artes da escrita, na Nova FCSH. Não gosta de trabalhar ou estudar por obrigação, mas quando se apaixona ai ai. Trabalha em audiovisual e comunicação digital, mas o seu foco é evidente: as palavras, os livros, as ideias. Em 2025 lançou o seu primeiro romance, Atrás da Escrita.

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