Chegou atrasada e com a vergonha a travar-lhe os passos. Estávamos em 2024 quando Ana Corceiro, de 33 anos, olhou de longe para um grupo de desconhecidos reunidos no Cais do Sodré, no primeiro treino do Rookie Run Club. Um clube de corrida, criado ainda antes de se falar tanto neles, por três amigas que tentavam decifrar como começar a vida delas… em Lisboa.
Ao fim do dia, dezenas de pessoas tomam conta das ruas de Lisboa com roupa de desporto e sapatilhas calçadas. Não é pressa para chegar a casa ou até ao bar mais próximo onde esperam amigos. Os running clubs tornaram-se o novo antídoto para a solidão e o stress da cidade.
Ana andava cansada da rotina isolada da cidade e vinha com o peso de um burnout. Bastaram 200 metros e muita conversa pelo meio das passadas para fechar o plano para as quartas-feiras dos próximos anos – o fim da tarde continua sagrada na sua agenda. Não pela velocidade do treino, mas pelos amigos que ali ganhou.

“Agora estamos sempre agarrados ao telemóvel e às redes sociais. Poder estar presencialmente, conhecer pessoas novas e ter um apoio semanal constante e consistente foi uma grande ajuda para mim”, conta Ana.
Depois do fenómeno do Zumba, do CrossFit e do Pilates, a cidade encontrou uma nova forma de se mexer: a corrida em grupo. Hoje, os running clubs tornaram-se verdadeiras comunidades com propósitos e interesses comuns. A maioria começou com a vontade de três ou quatro amigos e foi crescendo de forma orgânica.
Em 2025, os dados da aplicação de fitness Strava confirmaram o boom: o número de novos clubes de corrida quase quadruplicou face ao ano anterior, atingindo 1 milhão de clubes registados na plataforma. No mesmo período, os eventos presenciais organizados por estes grupos cresceram 50%.
Apesar de ainda ser considerada uma “moda”, a corrida em conjunto parece ter vindo para ficar. E a ciência pode explicar porquê: a prática de desporto em grupo promove a consistência nos treinos e combina benefícios físicos e psicológicos.
Rookie Run Club: o clube dos (ainda) não lisboetas e dos que não ambicionam ser os mais rápidos
Treinos: Quartas-feiras, às 19h30, no Cais do Sodré | Sábados, às 9 horas, na Praça do Comércio

Apesar de já ter experiência de corrida, Ana Corceiro não se tinha identificado com outros clubes por onde passara. Foi no Rookie Run Club que sentiu, pela primeira vez, que não existia pressão para correr mais rápido nem para competir.
O Rookie Run Club nasceu em 2024 por iniciativa de três amigas de diferentes origens (irlandesa, norte-irlandesa e norte-americana) que se mudaram para Lisboa.
Lizzy Elli, de 28 anos, que já tinha o hábito de correr, desafiou Sarah e Martha a começarem também. Na altura, as amigas perceberam que os clubes de corrida que existiam eram demasiado focados no treino intenso e na velocidade, o que tornava o ambiente intimidante para iniciantes.

O Rookie Run Club surgiu dessa mesma necessidade: criar um espaço onde pessoas sem qualquer experiência de corrida se sentissem confortáveis para dar os primeiros passos. Com esse propósito, o grupo corre a diferentes ritmos e o percurso plano junto ao rio acolhe todos os níveis.
“Tentamos dar confiança a corredores que sentem que não encaixam noutros clubes de corrida. Ou que não se sentem capazes de correr de todo. Oferecemos um espaço de incentivo, onde cada um pode vir tal como está. E, com sorte, divertir-se e continuar a correr depois disso”, explica a cofundadora americana Lizzy.
O que começou como uma rotina entre amigas – que corriam ao sábado de manhã e tomavam café juntas de seguida – rapidamente se tornou num fenómeno. Com a entrada de mais participantes e a criação de uma conta de Instagram, o grupo cresceu e já chegou a ter treinos com cerca de 350 atletas.
Assume-se como um clube de corrida “social”, em que o percurso é tão importante quanto a meta. Todos os treinos iniciam com o desafio de dizer “olá” a uma pessoa desconhecida e terminam com tempo para o convívio, em que os atletas se juntam para partilhar um café e para se conhecerem melhor.
A vertente comunitária do clube sempre foi promovida pelas fundadoras que, enquanto imigrantes, também procuravam formas de se integrarem na cidade. Martha Fitzpatrick, de 28 anos, acredita que o efeito pós-corrida tem ajudado a criar novas amizades com pessoas de várias nacionalidades:
“Depois da corrida, quando o corpo está cheio de endorfinas, as pessoas tornam-se mais abertas. Correr cinco quilómetros é sempre um desafio e dá a sensação de que passaram por um esforço juntas. Assim, quando chegam ao café onde o grupo se reúne, torna-se muito mais fácil abordar qualquer pessoa e começar uma conversa.“
O Rookie Run Club destaca-se também pelo facto de ter sido fundado por três mulheres, o que torna este clube “mais inclusivo, mostrando que há um espaço para toda a gente no desporto”, conclui a cofundadora irlandesa.
Queer Runners: fazer o que ainda não foi feito
Treinos: Quintas-feiras, às 19 horas, em Santos ou no Saldanha

Antes de se mudar para Portugal, Josh Eddy, de 36 anos, chegava a correr com espigões nos ténis para não escorregar no gelo canadiano. A mudança para Lisboa trouxe-lhe um clima mais ameno e a oportunidade de correr acompanhado.
Juntamente com Fernanda Novaes, fundou outro running club, em 2024. Um clube queer, uma vez que não existia nenhum até à data.
Pensaram que começariam apenas os dois e que, se alguém se juntasse pelo caminho, tanto melhor. Dois anos depois, o Queer Runners conta com um grupo de WhatsApp onde se combinam treinos semanais e que soma 150 membros.
Entre conversas informais e desabafos sobre o dia a dia, vai-se criando “mais uma comunidade” dentro da comunidade LGBTQ+. “É bom ter um espaço onde nos sentimos confortáveis para ser quem somos, sem medo de que as pessoas à nossa volta tenham certos preconceitos”, conta.

Josh defende que o exercício físico é sempre mais fácil quando acompanhado de convívio – provando que quem corre em conjunto, não cansa. Daí que o tempo passado à mesa do quiosque, depois de cada corrida, seja uma parte fundamental do treino.
Ao mudar-se do Brasil para Portugal, Fernanda, de 32 anos, apercebeu-se de que a socialização da comunidade queer se concentrava quase apenas na vida noturna, entre bares e festas. Sentiu, por isso, que a atividade física podia ser uma alternativa para promover novos encontros, num ambiente diferente.
Na verdade, os clubes de corrida têm-se tornado verdadeiros polos de convívio – e até locais para encontrar parceiros românticos com interesses comuns –, ocupando terreno que antes pertencia às discotecas.
Para facilitar a adesão, os treinos do Queer Runners começam em locais de fácil acesso por transportes públicos, permitindo que qualquer pessoa se possa juntar após o trabalho. Para muitos corredores, como Fernanda, este grupo torna possível encaixar a corrida na rotina, de forma flexível e sem grande compromisso.
“Sabes que acontece sempre e só precisas de aparecer. Não é necessário inscreveres-te, é gratuito e ficas a conhecer as mesmas pessoas que vêm todas as semanas. Por isso, acho que estes espaços na cidade são um local de conforto para as pessoas”, refere a cofundadora.

Já Rodrigo Gallegos, de 34 anos, prefere outros desportos à corrida e confessa que treinou sozinho várias vezes até ganhar coragem para se juntar ao Queer Runners. A viver em Portugal há mais de três anos, o equatoriano trabalha como game designer e passa longas horas em frente ao computador. É ao desligar do ecrã que verdadeiramente se desafia:
“Correr nem é algo de que eu goste muito, acho até bastante difícil. Mas penso que, quanto mais coisas difíceis faço, melhor me torno a enfrentar outras. É um treino para a vida, porque há momentos difíceis a toda a hora e não nos podemos habituar a fugir deles”, admite Rodrigo.

Os participantes encontram nos cinco quilómetros semanais percorridos em conjunto uma forma prática de descompressão após o trabalho, um antídoto contra a solidão urbana e a dose necessária de superação física.
Trilhos do Costume: onde correr não tem idade nem tira folga
Treinos: Terças-feiras, às 20 horas, em Benfica

A tradição mantém-se viva todas as terças-feiras, sem exceção. “Nunca falhámos um treino, nem na pandemia. Inclusivamente, já calhou em dias de Natal. Mesmo assim, fizemos o treino, adaptando o horário”. Luís Santana, de 60 anos, prepara-se para mais uma corrida.
O Trilhos do Costume nasceu em 2013, muito antes do atual boom dos running clubs. A iniciativa partiu de quatro amigos que partilhavam o gosto pela corrida e pela natureza. Encontravam-se sempre junto à mesma paragem de autocarro, na Rua Tenente Coronel Ribeiro dos Reis, em Benfica e, daí, seguiam rumo ao Parque Florestal de Monsanto.
Luís juntou-se um ano mais tarde. Com a saída progressiva dos fundadores, assumiu a presidência do clube e é hoje quem assegura a continuidade dos treinos.
Com o passar dos anos, o Trilhos do Costume foi crescendo e, há oito anos, constituiu-se como equipa federada na Associação de Trail Running de Portugal. Os nomes nas camisolas também se foram renovando, mas o espírito manteve-se o mesmo: um grupo em que o convívio, a corrida e a natureza se fundem e que acolhe qualquer pessoa que se queira juntar.
“E quem vem, normalmente encontra motivos para ficar”, garante o presidente do clube. “Seja para ter um escape ao fim de um dia de trabalho, pelo convívio com outras pessoas ou pela busca de um estilo de vida mais saudável”, justifica.

Após o aquecimento, arrancam equipados de verde e com lanternas na cabeça, mas não sem antes tirarem a fotografia de grupo na mítica paragem de autocarro que os vê partir semanalmente, há 13 anos.
Durante o treino, cumpre-se uma regra de ouro: ninguém fica para trás. Mesmo que, para isso, os mais rápidos tenham de fazer as chamadas “piscinas” – ir e vir várias vezes para apanhar quem vem no fim.
Esse foi um dos aspetos que atraiu Nuno Fontes, de 40 anos, para o Trilhos do Costume. Habituado a correr e a competir sozinho, sentia falta do espírito de grupo e das conquistas partilhadas:
“A competitividade também leva à solidão, porque acabas por pensar muito em ti próprio. São muitos quilómetros e, se não está ninguém a acompanhar-te, fraquejas. Ter companheirismo é muito importante para seguir caminho até à meta.”
O final do treino é adocicado com um bolo, preparado alternadamente pelos membros do clube e partilhado junto à paragem “do costume”. Ainda que nem todos se sintam à vontade para falar sobre a vida pessoal, as conversas fluem, enriquecidas pelas histórias de peripécias em corridas ou de viagens para provas noutras localidades, num ambiente de convívio que Nuno valoriza.

Apesar de manter as portas abertas a iniciantes, o clube tem uma forte componente competitiva, liderada sobretudo pelas mulheres. Nos últimos anos, as atletas conquistaram o primeiro lugar nos principais circuitos nacionais e orgulham-se de ser a equipa com maior presença feminina na ATRP.
Tânia Parreira, de 46 anos, explica de onde vêm os resultados: “Temos um espírito diferente e somos muito unidas. Por sermos muitas, e talvez por sermos mulheres, somos mais aguerridas, temos mais sede de ganhar”.
O que a trouxe até ao clube, há dois anos, foi a possibilidade de correr nos trilhos do maior pulmão verde da capital e encontrar ali um lugar de “fuga para esquecer os problemas”. Desde então, tem desbravado caminho, juntamente com Carine Pais, uma das companheiras de treino com quem divide os quilómetros.
Carine entrou na equipa com o objetivo de evoluir e desafiar-se num piso diferente, já que estava habituada à corrida em estrada. Pelo meio, descobriu amizades que não esperava fazer aos 41 anos:
“Eu tinha um leque de amizades muito reduzido de amigas da escola, do secundário, da faculdade… E, desde que me juntei à corrida, fiz imensos amigos novos. O trail é um desporto em que, do nada, um desconhecido pode tornar-se um amigo.“
Além dos treinos, os atletas do Trilhos do Costume somam momentos de convívio ao longo do ano e viagens em grupo até às provas, transformando a competição numa oportunidade para explorar novas paisagens de natureza pelo país.

A corrida é um “bom medicamento”?

À semelhança de outras modalidades, a corrida está associada à prevenção da ansiedade e da depressão, ao aumento da vitalidade e à melhoria do humor.
Também o local do treino desempenha um papel fundamental: a prática de exercício físico ao ar livre e em contacto com a natureza (o chamado green exercise), seja em espaços verdes ou junto à frente ribeirinha, traz vários benefícios para a saúde mental e para o bem-estar.
Além disso, Hugo Pereira, especialista em Fisiologia do Exercício, descreve a corrida como um “bom medicamento”, uma vez que atua na prevenção de doenças neurodegenerativas e das principais doenças crónicas não transmissíveis – entre as quais, as metabólicas, as cardiovasculares e, até, a osteoporose.
Para muitos praticantes, a corrida surge também como resposta ao ritmo exigente do dia a dia. Como sublinha o especialista, esta atividade reúne um conjunto de fatores que podem ajudar a combater “o desgaste do quotidiano, o stress laboral e o isolamento social”. O que ajuda a explicar o crescente número de participantes e a proliferação de clubes de corrida em várias cidades europeias.
Ainda assim, Hugo Pereira alerta para o reverso da medalha: a falta de preparação de muitos corredores e a facilidade com que o hábito se pode transformar num vício. Embora seja vista como um desporto simples, a corrida exige preparação e, acima de tudo, moderação – caso contrário, “em vez de termos ganhos de saúde, passamos a ter problemas de saúde”, refere.
O que a ciência diz sobre a prática de corrida em grupo
Segundo Hugo Pereira, os clubes de corrida que se tornaram populares nos últimos anos enquadram-se na categoria de corrida recreativa, em que os praticantes, “embora tenham volumes elevados de corrida semanal, não correm com o propósito de ganhar competições ou de quebrar recordes, mas sim com o propósito de conviver, melhorar a sua saúde e aptidão física”.
Enquanto professor e investigador na Universidade Lusófona, tem estudado os fatores que levam as pessoas a aderir e a dar continuidade à prática da corrida recreativa, destacando a importância da dimensão social.
“A afiliação e o sentimento de pertença a um todo fazem com que as pessoas se mantenham a correr durante mais tempo e aumentam o prazer associado à atividade física. E o prazer potencia a criação do hábito”, explica.

O fenómeno da corrida pode também ser explicado pela sua acessibilidade, que permite que a modalidade chegue a todos. Nos bairros do Zambujal e da Cova da Moura, a corrida conquistou os mais novos, através do EDP Clube Runners, um projeto promovido pela EDP em parceria com associações locais.
Sem a necessidade de investir em equipamentos dispendiosos ou mensalidades elevadas, “a corrida é a coisa mais democrática que existe”, refere Hugo Pereira.
Sendo um desporto ao alcance de qualquer pessoa, a única dúvida é mesmo por onde começar. Escolher um clube de corrida nem sempre é fácil, por isso já foram criadas algumas plataformas que reúnem os grupos que treinam em Lisboa e as suas principais características. Entre elas, destacam-se o Find Run Clubs, um site desenvolvido por um lisboeta que treinava para uma maratona, e o Correr por Prazer, uma página dedicada aos entusiastas da modalidade.

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