“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

A inspiração vem de Chico Buarque e de Construção, poema-canção de 1971 que já ganhou o estatuto de intemporal e deve ser lido como quem canta. O que é que tem que ver com a Base Organizada da Toca das Artes – BOTA? Tudo.

Basta entrar pela porta de alumínio e vidro ladeada de uma janela-montra forrada de cartazes, no Largo de Santa Bárbara, em Arroios, para perceber que o antigo escritório de informática insonorizado é hoje todo ele poesia, cultura e resistência.

No piso térreo, à entrada, fica a sala de OzeArv, artista plástico em residência na BOTA, que iniciou a sua carreira criando murais e peças de arte nas ruas de Lisboa. Logo a seguir, o estúdio de Rui Galveias, músico, produtor, programador cultural e diretor artístico da BOTA. E, depois do hall, o bar, território da Lily da Nóbrega Guilherme, produtora e programadora da BOTA, presidente da Associação Toca das Artes – Núcleo Cultural, e cozinheira exímia. Paredes-meias, o “salão nobre” e o palco.

As escadas que sobem do bar para o piso superior dão para um corredor. De um lado, duas salas de produção, também território da Lily, do outro uma sala de estar e uma esplanada-terraço. Ao fundo, mais duas salas de residência artística, ocupadas pela Somtopia Filmes e Diogo Melo e Catarina Branco, dois músicos do universo da música emergente de Lisboa.

Madeiras, luz quente, cartazes de espetáculos, eventos e iniciativas, obras de artistas plásticos, mobiliário vintage, cores fortes. O palco não é convencional, a sala de espetáculos não é imensa, mas o espaço é habitado em permanência por práticas artísticas diversas, criação, ensaios, aulas, oficinas, espetáculos, concertos, encontros. A BOTA não se organiza em torno de um único centro, multiplica-se e é nessa multiplicidade que concretiza o propósito com que foi criada.

A mãe, que durante seis anos foi mais ou menos nómada, sem poiso certo, é a Toca das Artes – Núcleo Cultural, associação sem fins lucrativos fundada em 2014 com o objetivo de apoiar artistas e desenvolver projetos culturais, sociais e pedagógicos, cruzando disciplinas e pessoas.

 Quando encontrou casa, no Largo de Santa Bárbara, em fevereiro de 2020, pouco antes de a pandemia fechar tudo, deu à luz a BOTA – Base Organizada da Toca das Artes, que se construiu devagar como casa aberta, um lugar onde se entra e é natural que se acabe a fazer parte.

Dos concertos à janela aos concertos na BOTA. Vai ficar tudo bem

Lily lembra-se bem desse tempo inicial. “Foi absolutamente aterrador. Tivemos sorte, porque a nossa senhoria foi muito compreensiva e facilitou a questão da renda, mas as pessoas estavam em grandes dificuldades, sobretudo à nossa volta, no meio artístico. Mesmo músicos de carreira estavam completamente desamparados”, recorda.

Lily da Nóbrega Guilherme, produtora e programadora da BOTA, presidente da Associação Toca das Artes – Núcleo Cultural. Foto: Líbia Florentino

O timing poderia ter sido fatal, mas acabou por ser definidor. Quando a atividade cultural praticamente desapareceu, a BOTA persistiu. “Havia os concertos à janela, havia as redes de solidariedade e nós fizemos o que sabemos fazer: resistimos, apoiámos, avançámos”, conta Lily, lembrando que foi num desses concertos à janela que conheceu o cantautor brasileiro Leo Middea, que na altura vivia em Lisboa e viria a tocar na BOTA.

Um entre os mais de 1300 concertos de músicos nacionais e internacionais que já passaram pelo palco do Largo de Santa Bárbara desde que o espaço abriu portas, em setembro de 2020.

Fazer muito (e bom) com pouco é o super-poder do Rui e da Lily. Quem o diz é Bárbara Rodrix, também ela cantautora brasileira a viver em Portugal, que é frequentadora da BOTA, como espectadora e como artista.

Bárbara Rodrix, à esquerda de Ceumar, a estrela da noite, é cantautora brasileira, vive em Portugal e é frequentadora da BOTA, como espectadora e como artista. Foto: Líbia Florentino

Para a música independente, sublinha, espaços como este são raros. “A Bota oferece condições que ninguém oferece: som bom, tratamento bom, comida boa. E 100% da bilheteira para o artista. É muito raro.” Não o diz para “puxar saco”, mas como reconhecimento do apoio determinante aos artistas.

 “Quando um artista tem a oportunidade de apresentar o seu trabalho num país que não é o dele, sendo bem tratado, ganhando seu dinheiro, é um divisor de águas.” Num meio marcado pela precariedade, sobretudo entre os migrantes, pode definir percursos: “pode ser o que faz uma pessoa desistir ou decidir continuar”, diz Bárbara, lamentando a mudança que sente em Lisboa.

“Eu conheci outra cidade, uma cidade aberta, onde todo o mundo tinha lugar e isso vem mudando de uns seis anos para cá, tristemente, é quase uma guerra”, nota.

Também nesse contexto, a BOTA afirma-se como território de resistência, não só cultural como ética.

“É um trabalho de resistência e de uma imensa coerência entre o pensamento e as práticas, mesmo quando isso implica perder oportunidades”, diz Bárbara, referindo-se a Rui e Lily.

A estrutura é pequena. Além de Rui, responsável pela programação, curadoria, criação e direção e que também faz o som, a luz e os cartazes, e da Lily, produtora, que gere o espaço, os acolhimentos e ainda cozinha, trabalham na BOTA a Catarina, a Carolina, o César, o Bruno e a Sofia, na equipa de produção e a Ankita, o Paul e o Pedro, no bar, onde são servidos sabores de todo o mundo, de comer e de beber.

Dias úteis de segunda a domingo

Ao longo da semana, o espaço respira num regime quase contínuo, que conjuga criação e formação. Há concertos, sim, muitos, mas também há aulas regulares de música e dança (os adultos podem experimentar canto num coro improvisado, praticar pandeiro nas oficinas do Pandeiro LX, ou dançar num laboratório pontual), oficinas de artes visuais, ciclos de “Cinema e Psicanálise”, exposições, sessões de poesia, encontros, matinés dançantes, coro na rua.

A programação não é um calendário de eventos isolados, é uma trama, que se tece entre propostas que chegam, convites que se fazem e oportunidades que surgem quase por acaso – artistas em circulação, contactos informais, redes cultivadas.

Rui Galveias, no BOTA, em Arroios. Foto: Líbia Florentino

“Há pessoas que enviam propostas, há coisas que somos nós que escolhemos. Há projetos que nascem aqui, outros que passam por cá. E há malta que gostávamos de trazer, mas não conseguimos por falta de apoio financeiro”, explica Rui Galveias.

A BOTA World Music Week é talvez o exemplo mais evidente: durante vários dias, o espaço transforma-se num ponto de encontro entre músicos de diferentes geografias, reunindo dezenas de nacionalidades e propostas sonoras diversas, promovendo uma experiêncoia de troca artística e vivência coletiva, mas Rui gostaria de ir mais longe.

O BOTA, em Arroios. Foto: Líbia Florentino

“Fazer coisas fora da Bota, ter alguns espetáculos com outra escala, trazer artistas com mais dimensão pública. Gostávamos de ter condições para isso, mas ficamos presos na nossa própria limitação e não conseguimos sair enquanto não houver um apoio sério à coisa. É duro”, diz o programador.

Ainda assim, a 4ª edição do festival, realizada em novembro de 2025, que teve como foco os 50 anos das independências dos países africanos de língua portuguesa, foi um sucesso. Barlovento Sur, Brahima Galissá, Ceumar, Concerto à Pergunta | sons do mundo, Couple Coffee, el Leon Pardo, Jazzopa, Libertasons, Mostafa Anwar, O Marta, O Mau Olhado, Wako Kungo e convidados fizeram parte do programa que contou ainda com uma sessão especial de “Poesia na Bota” dedicada às independências africanas e um dia solidário com a Palestina.

Na noite do concerto de Ceumar chovia intensamente, mas a sala encheu. “É difícil, mas, mesmo com este temporal, a Ceumar está a cumprir as expectativas. Esperávamos sala cheia e a sala encheu”, diz Rui, contente.

No palco, Ceumar comemorava o seu primeiro álbum Dindinha, produzido há 26 anos por Zeca Baleiro, também evocado no concerto intimista que cruzou repertórios e memórias. No palco juntaram-se ainda Bárbara Rodrix e Uxia, cantora galega, que ali atuava pela primeira vez e que nos bastidores dizia que gostaria muito de ter uma casa assim na Galiza. “É magnífico”.

O público não encheu a sala por acaso. Sabia de cor cada canção. E cantou.

Comunidade em construção

Um mês depois, a BOTA acolheu a 7º edição do Festival Emergente, que aconteceu entre 26 e 28 de dezembro e em três dias levou a palco 18 concertos de músicos emergentes, mostrando mais uma vez a vocação de descoberta e apoio deste espaço.

Já em janeiro de 2026, a terceira edição da Arroios Blues Week, produzida pela BOTA e apoiada pela Direção Geral das Artes, transformou vários lugares de Lisboa – da própria BOTA ao Goethe-Institut e à Fundação José Saramago – num circuito dedicado ao universo do blues, cruzando concertos, cinema e reflexão. Ao longo de três dias, o festival apresentou atuações ao vivo, ciclos de curtas-metragens e conversas abertas ao público, num formato que combinou programação artística com pensamento crítico e encontro e que é um bom exemplo de que quando há apoios se pode ir mais longe.

Ao mesmo tempo, há uma dimensão comunitária que atravessa tudo isto. A BOTA recebe mais de mil visitantes por mês, entre público e participantes, criando uma circulação constante de pessoas e experiências.

Não é irrelevante que tudo isto aconteça em Arroios – uma das freguesias mais densas e diversas de Lisboa, marcada por uma forte presença multicultural e por uma dinâmica associativa intensa.

Nos Anjos, em particular, a cultura tem sido, nos últimos anos, um motor de transformação – nem sempre isento de tensões, entre a vitalidade criativa e os efeitos da pressão imobiliária.

A BOTA marca posição nesse território ambíguo. Contribui para a efervescência cultural da zona, mas ancorada numa lógica de proximidade e solidariedade: na parceria e colaboração que estabelece com outras associações, no apoio aos artistas, na abertura à comunidade e na mobilização do pensamento crítico.

Por isso, ao sair para a rua, há uma sensação de desfasamento. Como se, lá dentro, a cidade tivesse sido reorganizada segundo outras regras. Ou como se ali se ensaiasse, a partir da cultura, uma outra forma de cidade – mais partilhada, participada, solidária.

Foto: Líbia Florentino

Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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