“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
A Lua Cheia, quando nasceu, foi para todos, mas sobretudo para os mais pequenos. Como no fim de janeiro, no sábado de estreia da peça Akai e Koku, de Maria João Trindade e Catarina Anacleto, interpretada por Catarina Mota e Leonor Enguiça.
Frio e chuva deixados lá fora, a sala encheu-se de bebés, alguns de colo, crianças pequenas e outras um bocadinho maiores, mães, pais, avós e avôs. Os mais pequenos (e respetivos jovens progenitores) sentados no chão, os mais velhos em cadeiras à volta do palco e um tapete muito branco, estilo algodão doce, semeado de esguias papoilas encarnadas. Como som de fundo, o burburinho próprio dos miúdos, que cessou mal Akai [Catarina Mota], entrou em cena.
Os movimentos cautelosos do equilibrista vermelho com o seu grande novelo de lã encarnada absorveram a atenção dos mais pequenos (e dos maiores também).
Ao longo de 40 minutos Akai foi desenrolando o seu novelo e desenhando caminhos, viagens, sonhos, no ar e no chão, com a cumplicidade musical de Koku [Leonor Enguiça], músico inspirador, cujo violoncelo embala a delicada coreografia em que as crianças são convidadas a participar, ora fazendo voar um balão vermelho, ora aceitando ou recusando maçãs encarnadas, ora acompanhando a dança das papoilas bailarinas.
Sorrisos, espantos, corpinhos inclinados para a frente e para trás, olhos a seguirem cada gesto como se fosse a primeira vez que o viam – porque, se calhar, era.
Um fim de tarde de descoberta, curiosidade, sonho e imaginação, como propunha a folha de sala. Coisas maravilhosas.
As mesmas que levaram Maria João Trindade, educadora de infância que se fez atriz, criadora, encenadora e produtora, e Ana Enes, atriz e produtora, a juntarem-se e fundarem a Lua Cheia – Teatro para Todos.
“Mexer com as crianças, despertar-lhes curiosidade, fazê-las rir, fazê-las chorar, interrogá-las e levá-las a procurar outras coisas quando saem dali, a lembrarem-se do que viram. É isso que procuramos fazer”, diz Maria João.
“Ainda outro dia encontrei uma miúda do Bairro Padre Cruz que se lembrava de nós, das nossas peças, das atividades em que participou connosco. E já passaram tantos anos desde que saímos de lá”, completa Ana.
“Quer emoção mais forte do que esta, sentirmos que se lembram de nós, que o nosso trabalho os marcou? É a melhor recompensa”, diz Maria João.
Teatro para todos
Em 2010, uma velha serralharia começou a transformar-se em casa de cultura e em nova sede da Lua Cheia – Teatro para Todos. A Associação Cultural, fundada por Maria João Trindade e Ana Enes, em 1998, abriu portas aos fregueses de Carnide, em 2009, no Bairro Padre Cruz e, em 2010, iniciou atividades pontuais na velha serralharia, agora Casa do Coreto, na Rua Neves Costa, para onde se mudou definitivamente em 2014.



Em março de 2015, a Casa do Coreto reabriu as portas e mantém uma programação regular desde então, concretizada pela Lua Cheia, para todos, cruzando teatro, música, literatura infantil, marionetas, clown, e atividades também elas diversas, como oficinas de artes, um grupo de teatro juvenil, aulas de violoncelo, chi-kung terapêutico ou danças colombianas.
A maioria dos espetáculos dirigem-se à infância, o foco do trabalho da companhia, mas também existe um esforço consistente de acolhimento: produções externas encontram aqui palco, num modelo que mantém o espaço ativo e em diálogo com outras estruturas.
A própria agenda revela essa lógica: fins de semana dedicados aos mais pequenos, sessões para famílias, oficinas participativas e espetáculos para escolas, durante a semana, que procuram um equilíbrio entre criação artística e envolvimento da comunidade, numa ocupação contínua do espaço que garante a manutenção de um ecossistema cultural comunitário e de proximidade.
Por detrás desta atividade está um espírito que, como Maria João e Ana explicam, nunca pensou o teatro como um exercício isolado.

“O teatro para nós nunca foi só um espetáculo – sempre foi uma forma de estar com as pessoas, sobretudo com as mais novas, e dar-lhes mundo, porque o teatro tem literatura, artes plásticas, música, tudo”, diz Maria João.
O trabalho que desenvolveram no Bairro Padre Cruz – anterior à instalação no centro histórico de Carnide – continua a ser uma referência importante. Foi aí que consolidaram uma prática de relação com a comunidade, envolvendo diferentes gerações em oficinas e processos criativos.
A Casa do Coreto surge, nesse percurso, como um ponto de chegada – mas também como uma nova etapa.
O edifício exigiu um longo processo de recuperação e adaptação. Não se tratou apenas de ocupar um espaço, mas de o transformar num lugar funcional para criação e apresentação artística. Esse investimento – exigente e prolongado – é hoje parte invisível daquilo que ali acontece. “Nós participámos nesse processo desde o início e foi um trabalho enorme. Houve um investimento muito grande para tornar o espaço utilizável”, recorda Ana.
Durante algum tempo, esse esforço traduziu-se numa forte presença comunitária. Vários projetos, alguns deles no âmbito do programa Bip/Zip, da Câmara Municipal de Lisboa, e em parceria com a Junta de Freguesia de Carnide, reforçaram a relação com o território e trouxeram o bairro para dentro do processo artístico.
“Um desses projetos era trabalhar com os mais velhos aqui da freguesia sobre as memórias do bairro, as práticas comunitárias, a vizinhança, as figuras carismáticas. Foi um trabalho muito interessante que procurou aproximar a freguesia do teatro, da Casa do Coreto. Ainda temos as marionetas gigantes que resultaram desse trabalho”.




A localização é facilitadora, o Largo do Coreto é o centro histórico de Carnide. Todos os anos a Lua Cheia organiza o CUCU, festival de Artes para a 1ª infância e a Mostra Internacional GARGALHADAS NA LUA, ocupando o largo com vários espetáculos.
O projeto Teatro & Comunidade e o Bailarico da Primavera, em parceria com A Visita – projeto artístico de solidariedade social, costumavam ser também um ponto alto da programação festiva e cultural da Casa do Coreto. Mas a pandemia veio quebrar algumas dinâmicas.
Quarto minguante
A grande interrupção sentiu-se sobretudo no trabalho com a comunidade, e com os participantes mais velhos, que tinham um papel central nos projetos desenvolvidos.
“Perdeu-se muito do contacto que tínhamos, e este tipo de trabalho precisa de continuidade. As pessoas fecharam-se em casa, algumas, infelizmente, desapareceram”, explica Ana Enes. “Para nós, como para todas as estruturas culturais, foi muito complicado. E tivemos de nos reorganizar”, diz Maria João.
Desde então, a atividade da Lua Cheia está mais concentrada na criação, ensaio e apresentação de espetáculos, bem como na gestão da programação e dos acolhimentos. A exigência logística dessa atividade é significativa – e ocupa uma parte substancial do tempo da equipa.
“Com o tempo e o espaço, que não é grande, mais dedicado à criação e encenação, acabamos por ter menos disponibilidade para desenvolver esse trabalho com a comunidade, mas continua a ser muito importante para nós esse diálogo e procuramos mantê-lo vivo”, diz Maria João Trindade.


Mantém-se o trabalho com as escolas, existem as atividades regulares, acontecem oficinas, iniciativas e eventos ocasionais, e sobretudo persiste a vontade de criar condições para retomar alguns dos projetos.
“Os projetos continuam a existir, só estão um bocadinho adormecidos”, explica Ana. “Sabemos que queremos voltar a eles, mas é preciso tempo e espaço.”
Entre a vontade e a prática, há um desfasamento mais operacional do que conceptual: a criação artística impõe o seu ritmo, e o trabalho de proximidade exige uma disponibilidade que nem sempre é possível garantir.
A noite do Folclor Colombia
Exemplo de que o diálogo com a comunidade não foi completamente interrompido são as quartas-feiras à noite, momento em que a Casa do Coreto é “ocupada” por um grupo de folclore colombiano que ali ensaia regularmente.

Fundado em 2017, o Folclor Colombia nasceu com o objetivo de divulgar a cultura colombiana em Portugal e de manter viva e ativa a ligação às raízes para quem vive fora do país.
Homens e mulheres, mais velhos e mais novos, de diferentes profissões e percursos, todos colombianos a viverem a Portugal, encontraram na Lua Cheia e na Casa do Coreto espaço, parceria e acolhimento para o grupo que criaram em torno das danças colombianas.
Entre si partilham o país de origem, a cultura e a relação com a dança enquanto prática identitária. Mais do que um grupo folclórico, é um espaço de encontro e pertença, como se percebe pelas histórias que contam.

Martha Ochoa procurou o grupo logo à chegada a Portugal, antes mesmo de procurar trabalho. “Comecei a dançar antes de começar a trabalhar”, diz Martha, a rir. E não falta a um ensaio. “Adoro dançar e isto faz-me sentir-me em casa.”
Já Eduardo só começou a aprender as danças do seu país quando saiu de lá e “é muito bom este encontro”, diz, ainda com a respiração acelerada pelos passos de Cumbia.
E há também vários participantes mais jovens, que falam um português perfeito, são estudantes em escolas da freguesia e contam que adoram o Folclor Colombia, em que participam para manter a ligação às origens, mas também pelo prazer de dançar.

Foi essa a ideia de Carlos Perez, médico, e Erica Pava, gestora, quando, com um grupo de compatriotas, fundaram o grupo.
“Queríamos promover a cultura colombiana em Portugal e mostrar a alegria e beleza das nossas tradições”, concorda o casal. A imagem de uma Colômbia “alegre”, que procuram partilhar, convive com uma dimensão mais profunda: a necessidade de criar comunidade num contexto de diáspora.
Essa dimensão é assumida de forma explícita em apresentações públicas e colaborações institucionais, incluindo eventos culturais na Casa da América Latina ou na Embaixada da Colômbia ou participações em iniciativas como a Bolsa de Turismo de Lisboa ou encontros de grupos de folclore.




Com o apoio da embaixada da Colômbia em Portugal, o grupo tem vindo a consolidar a sua presença no circuito cultural e é aberto a todos os que queiram participar. “Qualquer pessoa pode entrar – não é preciso ser colombiano”, explica Erica Pava, contando que, ao longo dos anos, já passaram por aqui participantes de várias nacionalidades.
Entre identidade e inclusão, o Folclor Colombia constrói um espaço que é próprio e partilhado, o que vai ao encontro do que é a Lua Cheia e a sua Casa do Coreto.
Lua Cheia outra vez
Quando saímos a porta do que já foi uma serralharia, a sensação é a mesma de quando entrámos. A de casa. Os livros, os cartazes de espetáculos passados e presentes, os sofás, uma mesa de café e bolachinhas, as escadas para o espaço de produção onde figurinos e marionetas e livros e adereços habitam, acolhem-nos.
A Casa do Coreto permanece como um espaço aberto a todos, onde a criação artística e a comunidade se cruzam na ideia de que a cultura é um lugar de encontro.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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