“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Verão de 1988. Em Telheiras, meia dúzia de pessoas decide abrir um guarda-sol amarelo, em frente a uma frutaria, e convidar os vizinhos a juntar-se à nova associação de residentes, à qual chamaram ART. A palavra de ordem era: “participe, vamos tornar melhor o bairro em que vivemos!”
E participaram. A sede da ART, na Rua Mário Chicó, em frente ao Centro Comunitário de Telheiras, está cheia de gente. Saltamos até 2026 e é dia de ensaio do grupo de teatro amador, criado em 1997 (e que já se chamou Teatro dell’ART e Pó de Palco até chegar ao nome de hoje: “teatroàparte”). Aqui, juntaram-se também “representantes” de outras artes que, ao longo dos anos, foram nascendo da vontade, imaginação e energia férteis da Associação de Residentes de Telheiras. Vêm falar deste espaço que é ponto de encontro e lugar de cultura, participação, vizinhança, comunidade, causas, propósito e tempo ganho. Porque aqui ninguém o perde, dizem.

Que o diga Marta Vieira, presidente da ART desde novembro passado, sócia e voluntária há anos e participante no grupo de Cante Alentejano. Professora universitária e assessora da Reitoria da Universidade Lusófona, assumiu mais este desafio, em sintonia com o que defende para a cidade de Lisboa, para a freguesia do Lumiar e para o bairro de Telheiras, onde vive.
“Sou muito ligada à comunidade. A anterior direção conhecia a minha dinâmica, desafiou-me e não consegui ficar indiferente. Há tanto que se pode fazer aqui na ART, que tem este espírito associativo já raro e que faz tanta falta”, diz.
Ao seu lado, hoje, e pelo menos até 2027, tem, entre muitas outras pessoas, a Marta Monteiro, 30 anos, veterinária, e a Lurdes Santos, 60, professora de Matemática.

A mais nova ainda se lembra das muitas hortas que havia em Telheiras e do espírito de aldeia, a tal comunidade que a ART luta por manter. A irmã e o pai sempre participaram mais nas atividades da associação, mas foi a Marta que calhou agora a responsabilidade de integrar a equipa dirigente. “Acho que me convidaram para ‘representar’ a geração mais jovem e trazer novas ideias e dinâmicas”, diz Marta Monteiro, empenhada em contribuir.
Lurdes, há muitos anos ligada à ART, hesitou em aceitar o desafio de a dirigir. Achava que não tinha jeito nem tempo, mas cá está ela. E é Lurdes que lembra o Guarda-Sol Amarelo, debaixo do qual tudo começou.
Um guarda-sol amarelo por um bairro “melhor”
A Associação de Residentes de Telheiras, a 20 de junho de 1988, foi criada pela primeira presidente, Ana Silva Pinto, e mais meia dúzia de fundadores. Queriam, tal como disseram naquele verão de 1988, “tornar melhor o bairro” em que viviam.

Este “tornar melhor”, que é como quem diz dar “qualidade de vida”, “passa pela convivialidade, pela solidariedade e pela cultura”. É o que se lê numa das folhas informativas dos anos 1990, que eram distribuídas pela associação nas caixas de correio do bairro de Telheiras, que foi o primeiro no país, diga-se, a ter um jornal – o Jornal de Telheiras – editado pela ART.
Os moradores do bairro, cujo desenvolvimento urbanístico esteve inicialmente a cargo da EPUL – Empresa Pública de Urbanização de Lisboa, eram sobretudo “urbanos, filhos de urbanos”, recém-licenciados, professores, arquitetos, engenheiros, jornalistas, o que valeu a Telheiras o título de “bairro dos doutores” a juntar ao de “uma aldeia na cidade”.
Foi neste contexto que nasceu a ART, cuja intervenção foi determinante para a defesa dos interesses dos residentes e a configuração do bairro.
“Nasceu de um grupo de pessoas que queria que o bairro fosse mais do que um conjunto de edificações e construções, promovendo uma participação cívica ativa, cuja intervenção garantisse a criação de serviços e infraestruturas que contribuíssem para uma maior qualidade de vida”, enquadra Marta Vieira.
Hoje, a ART tem cerca de 700 sócios.
Já teve mais. Já teve menos. A vontade é de crescer e alargar o espírito e as atividades a outros pontos da freguesia do Lumiar.

“Há questões que temos em mãos, de defesa dos interesses dos moradores, nomeadamente ligadas ao direito de superfície, que são centrais, mas gostaríamos muito de alargar a oferta na área cultural, não só aqui no bairro, como na freguesia. Temos muitas ideias e atividades em carteira, só nos faltam os espaços para as pôr a andar. Deem-nos os espaços que nós dinamizamos”, desafia a presidente da ART, defendendo a mobiliação de equipamentos públicos encerrados e inativos.
Vitória, vitória, começou a história
A Hora do Conto é um exemplo das ideias que se concretizam na ART.
Um domingo por mês, a sede da associação enche-se de crianças (e respetivos pais), sentadas em tapetes e almofadas, à espera de ouvir uma história. À frente delas, alguém abre um livro. Às vezes é Leonor Costa, outras Isabel Lopes, outras Maria Ana Freitas, outras quem gostar de contar histórias e se voluntariar.

Numa das últimas sessões, estiveram quase 80 pessoas. “Já não cabia nem mais uma agulha. Foi incrível”, diz Leonor, que há nove anos se lembrou de dinamizar esta atividade para os mais novos, depois de três semanas em casa com as filhas de um e três anos, porque não parava de chover. “Não há dinheiro para ir ao teatro ou ao cinema a toda a hora. E ocorreu-me isto: criar uma atividade cultural gratuita para os miúdos”, lembra.
Como tantas coisas na ART, a Hora do Conto nasceu de uma vontade e concretizou-se num telefonema. “Liguei à presidente da altura, a Mariana, com quem estava no teatro, e perguntei-lhe se podia usar o espaço ao domingo para ler histórias às crianças. Ela disse logo que sim. Falei com outra amiga do teatro e começámos”, conta Leonor Costa.
No início, eram sobretudo amigos e vizinhos, mas o “passa-palavra” funcionou e a atividade ganhou vida própria. “Desde o princípio, deixámos as portas abertas a quem quisesse vir ler. Já tivemos atores, professores, artistas, pessoas que nunca vimos antes. E também pais. Os miúdos adoram ver o pai ou a mãe a ler para toda a gente. Não cobramos nada, é um serviço à comunidade”.

Leonor é matemática, trabalha numa seguradora, em cálculo de risco, e vive em Telheiras desde os três anos. Aos 12, juntou-se ao grupo de teatro da ART, saiu, voltou há 20 e lá está até hoje, com algumas interrupções. A par do teatro, a literatura infantil é outra paixão. Em 2021, criou um canal no YouTube (O Lobo Bom), onde lê livros para crianças e, no Natal passado, foi contar histórias ao Wonderland Lisboa, no Parque Eduardo VII.
Ainda assim, diz que é aqui, no bairro onde cresceu, que tudo faz mais sentido.
“Não conheço muitas associações com uma dinâmica cultural tão abrangente”, diz. “Aqui sentimos que podemos propor atividades, que temos espaço e que há mesmo um espírito comunitário, de partilha. É muito bonito.”
Cantar é muito bom, é muito bom
Também é bonito ver o entusiasmo com que a Maria João Duarte, arquiteta, e o José Rosário, engenheiro civil, falam do CoroArt, no qual já ganharam o estatuto de veteranos. Uma das mais antigas atividades culturais da associação (foi criado em 1990 e Maria João e José entraram em 1993), o coro nasceu da vontade de José Leonardo (o primeiro maestro).
“O Zé Leonardo, que era professor de artes, tinha o conservatório de piano e cantava, tinha o sonho de formar um coro e então juntou uns amigos, foram cantar as Janeiras pelos cafés de Telheiras, que era um bairro mais pequeno do que hoje, e foi assim que começou o CoroART”, lembra José.

Há 36 anos que uma noite por semana (pelo menos) é dedicada aos ensaios do coro, que se junta todas as terças-feiras às 21h, no Centro Comunitário de Telheiras, em frente à sede da ART.
Maria João e José entraram quando tinham filhos pequenos, hoje já são avós e só têm pena é que a geração mais nova não participe tanto. “É muito bom cantar”, diz Maria João. “Quando os nossos miúdos eram pequeninos, criámos um coro infantil, mas não continuou. Agora, nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril é que nos juntámos todos, pais e filhos, a cantar as canções de Abril. Foi muito bom”.
Ao longo dos 36 anos passaram pelo CoroART “milhares de pessoas”, diz Maria João. “Há uma rotatividade muito grande, mas depois há um pequeno núcleo duro que se mantém firme”, completa José. “Atualmente somos 20, 25, e nós somos dos mais velhotes”.

O coro, que já teve três direções musicais, atualmente é conduzido pela maestrina Sara Afonso, cantora do Coro Gulbenkian, que trabalha com o grupo há 12 anos. O repertório tem variado ao longo dos anos: música antiga portuguesa, obras corais contemporâneas, espetáculos temáticos e concertos encenados que misturam teatro, humor e música. Já houve concertos inspirados em anúncios publicitários antigos, galas de ópera com vários coros reunidos e centenas de apresentações.
E depois há os rituais que se repetem: os concertos de Natal, as Janeiras, as comemorações do 25 de Abril, o Festival de Telheiras, o Magusto ou os encontros com outros coros. Todos os anos há um tema novo para o espetáculo principal, normalmente apresentado em junho, quando chegam os Santos Populares.
Cantar, aqui, nunca é apenas cantar. É também uma forma de manter vivo o bairro, a comunidade, as relações de vizinhança e amizade e de dar continuidade ao espírito de participação que começou, há quase quatro décadas, debaixo do tal guarda-sol amarelo.
O Alentejo em Telheiras
Manuel António e Lisete, também sócios da ART há décadas, partilham o espírito, mas cantam outros cantares. Fazem parte do grupo de Cante Alentejano da ART, criado em 2016 – dois anos depois de o Cante ter sido reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A ideia surgiu naturalmente entre pessoas da associação que admiravam aquele jeito tão particular de cantar, lento, profundo, de vozes que se levantam como se viessem de longe. Com uma particularidade: este grupo junta vozes femininas e masculinas.

“Embora não seja o mais tradicional, decidimos, quando fundámos o grupo, que seria misto. Chegámos a ter cerca de 25 cantadores e cantadeiras, cantámos em vários festivais, fomos ao Alentejo diversas vezes. Até à pandemia, tínhamos o Rui Vaz, dos Quatro ao Sul, como ensaiador. A pandemia obrigou-nos a fazer uma pausa e isso teve grandes reflexos no grupo”, conta Manuel António.
O maior de todos foi a diminuição do número de vozes, hoje cerca de dez, mas o grupo da ART não desistiu de fazer ecoar o Alentejo no bairro de Telheiras. Há um ou dois alentejanos no grupo, mas há sobretudo amor à arte. “Na verdade, somos todos amantes do cante. É isso que nos une”, resume Manuel António, secundado por Lisete, professora catedrática de literatura, também ela integrante do grupo de cante alentejano e de outras atividades da ART, como o Clube Phoenix.
Phoenix, o clube dos poetas vivos
O Clube Phoenix está entre as atividades mais participadas da ART.
Criado no início dos anos 2000 por três residentes que queriam um espaço de encontro para os mais velhos do bairro, reformados, mas com tempo, curiosidade e vontade de continuar a aprender e a trocar ideias sobre vários assuntos. Começou informalmente e hoje reúne cerca de 70 participantes, com sessões culturais duas tardes por semana.
O espírito mantém-se simples: um grupo de vizinhos que se encontra para conversar, passear e viajar. Muitas das sessões são orientadas por antigos professores universitários ou especialistas que, de forma voluntária, preparam encontros sobre literatura, história, arte, fotografia ou música. Há clubes de leitura, debates em torno de contos literários, discos, fotografias, artes visuais.

As discussões raramente se ficam pelo livro ou tema do dia. As conversas imitam as cerejas, cruzam memórias, experiências de vida, pontos de vista diversos. “Há sempre uma interpretação nova, uma coisa que alguém acrescenta”, contam duas das participantes e atuais coordenadoras, Olimpia Soares e Gabriela Oliveira
Para além das sessões, o Clube Phoenix organiza visitas culturais, passeios e viagens ao longo do ano — a museus, exposições, monumentos, cá dentro e lá fora. Não é uma universidade sénior, é um lugar onde o conhecimento continua a circular, alimentado pela curiosidade de quem continua a querer saber.
As artes na ART
Às terças e sextas-feiras à tarde, a sede da Associação de Residentes de Telheiras transforma-se em atelier. Telas, pincéis, tintas, aguarelas, óleos. No final de 2022, Leonor Janeiro, ligada aos UrbanSketchers e apaixonada por aguarela, decidiu procurar um espaço onde pudesse criar um grupo de pintura. Passou pela ART, perguntou se havia espaço disponível e ganhou duas tardes por semana.
Hoje são cerca de 14 participantes. À terça, a tarde mais concorrida, trabalham aguarela; à sexta, óleo. Leonor é arquiteta, Maria de Lurdes e Maria Helena são economistas e Graça é de letras, todas reformadas, todas unidas por um antigo interesse comum: a pintura, que foram adiando. Algumas já conheciam a ART, outras ficaram a conhecer. “Quando a Leonor me convidou, vim logo”, diz Maria de Lourdes. “Moro aqui em Telheiras e sabia que a ART tinha muitas atividades.”

O grupo já realizou várias exposições e mantém uma página no Instagram onde partilha trabalhos e experiências – Painting Along. A pintura também as leva em viagens artísticas, por exemplo a Itália, onde passam dias a pintar e a conhecer outros criadores. “Vamos pintar e encontrar artistas locais”, contam. “É uma forma de partilha”, diz Maria Helena.
Às segundas, de manhã e ao fim da tarde, e às terças de manhã, é o Atelier de Desenho e Pintura que toma conta do espaço. Criado por Joana funciona há cerca de nove anos, segue um princípio simples: grupos pequenos, trabalho individual e espaço para cada pessoa desenvolver o seu próprio caminho.

Joana vive no bairro desde sempre e decidiu trazer para a ART um projeto que já tinha em mente. O objetivo nunca foi só ensinar técnicas. “Gosto de conhecer as pessoas, perceber o que cada uma quer fazer”, explica. Por isso, no seu atelier, cada participante tem o seu projeto, o seu ritmo, o seu exercício.
A maioria são adultos, embora de vez em quando apareçam mais novos. A mistura de idades faz parte da dinâmica. “Gosto de juntar adultos muito adultos com os muito pouco adultos”, diz, com humor. “As trocas que eles estabelecem é fantástica.”
A coisa resulta, porque quem vem fica e Joana vai acumulando participantes. E de vez em quando há convívios: cada um traz qualquer coisa para comer, conversam sobre arte e até pintam as toalhas de mesa do jantar.
Além de Atelier de Desenho e Pintura, o espaço tornou-se um ponto de encontro. Um lugar onde a arte é criação, expressão, mas também “terapia”. “As pessoas vêm porque querem pintar”, diz Joana. “Mas, às vezes, também porque precisam de descontrair e esquecer o dia de ontem. E isso também é importante. Cria-se aqui uma comunidade”.
Um bairro de campeões de xadrez
Comunidade que se estende a outras atividades, não tão artísticas, mas igualmente culturais. Uma das mais recentes na ART é das que mais tem crescido. O Clube de Xadrez nasceu depois da pandemia, quando Agostinho Rocha, ligado à Federação Portuguesa de Xadrez, decidiu retomar um projeto que já tinha iniciado noutro bairro da cidade. Alguns jovens jogadores que viviam em Telheiras sugeriram trazer a iniciativa para a associação — e a ART abriu as portas.
O grupo começou com cerca de 20 jogadores. Hoje são perto de 50. Três dias por semana a sala enche-se de tabuleiros, relógios e cabeças inclinadas sobre as peças. A média de idades ronda os 12 anos, mas há jogadores dos seis aos vinte. Metade vive no bairro; os restantes vêm de outros pontos da cidade, atraídos por uma oferta ainda escassa de clubes com atividade regular.



Aqui aprende-se a jogar, a pensar e a competir. Depois de dominarem as regras, os jovens passam a participar em campeonatos nacionais — de iniciados, de jovens e em várias outras categorias. Alguns já chegaram mesmo à seleção nacional, que representa Portugal em competições internacionais.
Apesar do rigor do jogo, o ambiente está longe de ser silencioso. “O importante é vê-los entusiasmados”, diz Agostinho Rocha. E isso não falta: as mesas estão quase sempre cheias e há sempre alguém pronto para começar uma nova partida.
Teatro: uma paixão levada a sério
Começar de novo poderia ser um dos lemas da ART. Estão sempre a começar qualquer coisa. O grupo de teatro da ART começou em 1997, a partir de um simples workshop proposto por uma jovem ligada ao teatro universitário. A experiência teve tanta adesão que, no final, alguém lançou a ideia: por que não fazer uma peça? A estreia aconteceu em maio desse ano – e o calendário manteve-se praticamente igual desde então. Os ensaios começam em setembro e culminam sempre com uma nova produção na primavera.

Quase três décadas depois, o grupo continua vivo, com um núcleo duro que resiste às inevitáveis mudanças. Mariana, que já foi presidente da ART, está há mais de 20 anos e diz que já faz “parte da mobília”. Outros chegaram há relativamente pouco tempo, como Ilda, que entrou há três anos para concretizar um desejo antigo. “O teatro foi sempre uma coisa que queria fazer, mas fui adiando, por causa do trabalho [é meteorologista]”, conta. Agora não falha um ensaio.
O grupo é amador, mas trabalha com encenadores profissionais. Ao longo dos anos passaram pela ART nomes conhecidos do teatro português, e atualmente a direção artística é de Eurico Lopes, que ensaia o grupo há cinco anos. O que o fez ficar foi a dedicação dos atores. “São pessoas de profissões muito diferentes – bancários, professores, meteorologistas – mas levam isto muito a sério”, diz.

Os ensaios acontecem às segundas-feiras à noite no Centro Comunitário de Telheiras, mas, à medida que a estreia se aproxima, o ritmo intensifica-se. Em abril e maio há dias em que praticamente se ensaia todos os dias. Pelo meio, há uma residência artística: um fim de semana de trabalho intenso, mas também de convívio e comunhão.
Com cerca de 20 atrizes e atores, de idades que variam entre os vintes e os setentas, profissões diferentes e backgrounds diversos, é essa mistura que faz a identidade e a força do grupo. Nem todos vivem em Telheiras – muitos cresceram ali ou passaram pela associação em algum momento da vida – mas mantêm com o bairro uma ligação especial.
No palco apresentam as suas adaptações e criações, a partir de textos clássicos. Os anos da pandemia foram dos mais desafiantes, com ensaios por Zoom e a incerteza sobre se haveria estreia. Ainda assim, o grupo resistiu e apresentou, em maio de 2021, a Alice, no País das Maravilhas.

Numa sala cedida pelo Centro Comunitário de Telheiras, juntam-se todos num grande quadrado de cadeiras que faz do centro o palco e ensaiam a peça deste ano, o processo criativo a acontecer ali, diante de quem assiste e dirigido pelo olhar atento de Eurico Lopes.
“Somos todos muito diferentes, mas damo-nos muito bem, gostamos muito de estar uns com os outros, sente-se uma genuína preocupação com todos, e isso é Ilda, que releva a capacidade de o encenador tirar o melhor dos atores, mesmo os “mais inexperientes”.
Ele corresponde. “O que me dá mais prazer ao trabalhar com este grupo, eu que faço direção de atores em novelas, que é um trabalho super exigente, é a seriedade com que as pessoas encaram isto. É muito interessante”.
Talvez porque, para quem ali está, o teatro seja mais do que isso, seja também uma das formas de dar continuidade ao espírito que nasceu debaixo do Guarda-Sol Amarelo e que, décadas depois, continua a fazer de Telheiras uma verdadeira comunidade.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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