Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Portugal adora viver de fortes emoções: num dia morre Lobo Antunes, noutro Sara Correia coloca Chelas nas bocas do mundo, depois é o novo Presidente da República a ser empossado. E depois estás tu, Ana Bárbara, a encher-me de perguntas. Disse-te que sou de um lugar que não é de porquês, então por que me perguntas? Do bairro aqui temos a Assa Matusse que encheu o centro cultural chinês. Bom, é o que temos, é melhor que a igreja. Já te conto sobre isso de igrejas.

África é uma coisa espantosa. Maputo, quero eu dizer. Deve ser dos poucos lugares do mundo em que ucranianos, russos, americanos, palestinos e indianos podem dançar uma marrabenta. Isto graças aos chineses que construíram o maior centro cultural do país e decidiram gravar na memória do povo a nação de Mao Tse Tung. Portugal é o único que deu nome de um poeta ao centro cultural, o Camões. Outros é pôr-nos na língua o nome de um país. 

Vieste a Maputo sem um guião e saíste com um filme feito. Algo me diz que, quando nos encontramos em Maputo, já sabias que irias invadir a proibida Vila Algarve, sem seres louca ou sem teto. Na verdade, já sabias que havia um buraco por onde invadir-se para dentro. 

Tomaste-me por um macho mandão ou a bem dos primeiros encontros, deixaste-me conduzir-te pela cidade. Eu que por mera curiosa tomava-te, levei-te para o óbvio, tu, a condescendente – no máximo que conseguiste suportar a tolice – deixaste-te guiar para o insuportável previsível. Até que cinco minutos a olhar indiferente para os quadros de pintura à Jackson Pollock mandaste lixar a tudo e ainda contaste a toda a gente o que se passou naquele dia.

O que não sabias e nem podias imaginar era que não cabo no quadro dos homens normais desta cidade. Não mando em nada, muito menos seria capaz de conduzir até um cego na avenida. E pelo que te denunciaste, até no que pensei que foi por mero acaso que foi entrar por um buraco para uma ruína, afinal era por ordem tua. 

Pode ser que já muitos moçambicanos tenham pensando em entrar na Vila Algarve, mas temos a vocação do silêncio involuntário. Ali adormece o duro passado que se quer substituído pelo mito. Nestes tempos das teorias negacionistas, cai sempre bem que lugares aquele sejam esquecidos, ou guardados para não ser lembrados. Mas para todo o proibido há uma Ana Bárbara Pedrosa. Se para um lugar de memória colectiva aquilo não serve, pelo menos é abrigo para drogados, vagabundos, dementes, sem abrigos, molwenes, zumbis, fantasmas. Quem quereria entrar num lugar daqueles, a não ser pela vocação natural de chafurdar nas memórias apodrecidas?  

Este país já teve um Museu da Revolução num edifício que se instalou a sede de uma igreja evangélica. O museu cessou, a igreja escalou. Para os mais jovens Museu da Revolução é título de um livro de João Paulo Borges Coelho. Para outros é entregar o dízimo nos cultos de hora em hora. 

Em África o tempo parece andar ao contrário, mas aqui temos por vocação os esquecimentos. Quem se lembra, corre o risco de parecer velho. E eu me lembro, ainda que não tenha um armazém instalado na cabeça, como o Nelson Saúte.

Neste país não há adolescência. Somos crianças e no dia seguinte adultos. Então um escritor, aqui, é que uma espécie de adolescente, o que acha que há uma outra verdade escondida em tudo. Ou então aquela sensação de incompreensão pelos adultos que aos poucos vai fazendo-nos falar aos códigos, inventar linguagens e guardar segredos dos pequenos incidentes — banais até — mas que morremos de medo que se descubram. 

Aqui escrevemos os silêncios e os adiamentos. Escrevemos a incongruência. Daí teres títulos como «Matéria para um grito», «Minaretes de medos», «Estórias de amor e espanto», «Babalaza das Hienas», «Silêncio Escancarado» ou «Terra Sonâmbula», às vezes disfarçamos a tragédia com títulos como «O alegre canto da perdiz» ou «Mafonematográfico também círculo abstrato», este último é a razão de o povo achar que poesia é coisa de preguiçosos e consumidores de alucinógenos.

Mas falava-te de Cultura vs Religião, apanha esta: o edifício onde era cinema Charlotte deixou-se substituir, na altura, por uma igreja; no Cinema São Gabriel, na Matola, também a igreja vingou. Se no pós-independência Jesus foi expulso pelo samorismo com os discursos do tipo a religião é o ópio do povo — e por isso importante combatê-la —, no século XXI Jesus regressou triunfante, de calças de caqui e uma t-shirt polo, e, viste, até ameaça tomar o Estado. 

Num país onde tudo é informal ou vive-se à maneira, como diz o povo, na roupa tínhamos de ser formais. Nós até fazemos amor de calças de ganga, sapatos e camisas, é só ver os my love, as carrinhas a transportar gente, abraçada. 

Nós amamos no meio das multidões. E não podia ser doutro jeito. Já imaginou uma Lisboa com as pessoas abraçadas umas às outras, não se deixando cair, e todos a gravitar na brisa da cidade, como amantes na volúpia do desejo? Maputo é assim. Deixamos o corpo a coser no vapor da roupa, porque já andamos nus, com tantas angústias pela sobrevivência. Também por isso somos um país de poetas. Porque se não déssemos metáfora às nossas incongruências morríamos antes do sol se pôr. 

Se alguém nos lê as cartas? Além da Susana Dias que me enviou uma mensagem a dizer que gostava de descobrir-nos os segredos, da Sara Laísse, da Énia Lipanga, a grande invejosa, o David Bene que deve andar farto de enfiar-se em buracos pelo ouro, a ver se fica de vez um poeta, e a pobre Francine, ninguém nos liga nenhuma. Já o Celso não tem outra opção. 

Há um entendimento que todo o moçambicano é socialista, que todos somos uma derivação do comunismo, ou do marxismo-leninismo utópico. Nesse sentido diríamos que a o projecto de Nação também tombou naquele fatídico 19 de outubro de 1986, naquela África do Sul do apartheid!

Mas não te preocupes, trocaremos o Mao por Mia, Kim Il Sung por Ungulani, Lenine por Paulina Chiziane. Olha a Vladimir Lenine vai dar à Praça dos Combatentes. Ia fazer-te um tour por Maxaquene naqueles dias de ira, lembras? Aliás, lembras que fintei-te à Ronaldo quando querias ir ao futebol enquanto o povo queimava pneus nas estradas? Foi um momento de inspiração da minha parte. Eu que de futebol fiquei somente com o grito de golo perdido na clubite. Nisso invejo Lobo Antunes, enterrado aos cânticos do Benfica de Eusébio. O Eusébio de Mafalala, é verdade.

Gostava de ter-te visto a triunfar na Universidade de calções. Não gostei de ter visto o Mélio traumatizados. O coitado só falta que um dia invente um personagem, com todo o tipo de azares: neuroses, psicoses e estenoses que lhe lixem a vida. 

Foi em Lisboa que conheci o ditado: a descer todos os santos ajudam. Quem mo disse foi a Marta. Tínhamos de subir até ao Castelo de São Jorge. Venho de uma cidade planície e estou metido numa Lisboa onde todos os percursos são um acidente geográfico. Dei dois, três, quatro e cinco passos e o coração ia-me sair pela boca. Um percurso que todos os cidadãos do mundo fazem em 15 minutos – e os lisboetas em 5 – eu fiz em 45. A pobre Marta, teve de inventar um táxi que nos fizesse chegar o mais próximo possível da colina. Eu desesperado de não sobreviver para voltar para casa, ela disse-me: não te preocupes, a descer todos os santos ajudam

Chegados lá ao que íamos assistir a um festival de cinema, instalados em cadeiras de descanso, com o direito a um cobertor, no primeiro minuto do filme, pisquei os olhos. Repare, nunca tinha ido a um cinema em que me dessem uma cadeira em que me deito, um cobertor e um copo de vinho. De vinho nunca gostei, mas naquele dia entornei tudo goela abaixo. Acho que estava a encenar uma coisa qualquer, não sei o que me deu na cabeça. O que aconteceu a seguir era capaz de jurar que só foi um piscar de olhos, mas despertei aos aplausos e gritos, a saliva escorria-me pelo queixo, a cabeça andava às voltas, e tinha os pés como uma serpente, enrolados. Seria possível estar assim ao fechar os olhos por um segundo? É claro que apanhei uma soneca daquelas… 

Ainda hoje me pergunto por que raio de decência a mulher ao meu lado não me acordou. Querias uma coisa indecente? Aí está o meu vexame. E a única pessoa que não quero que leia isto é a Marta, pois a coitada, não merece passar tanta decepção no coração. Eu sei com o que fica um coração dilacerado: cansaço, dor no peito, falta de ar, tontura, arritmia e até desmaios – estenose aórtica.

Ah! Lembrei! Há uma outra Lisboa que agora me ocorre: a dos encontros dos que vem de longe. Diz-me, com quantos portugueses te encontraste em Maputo? Eu encontrei vários africanos em Lisboa. Desde logo contentei-me ao encontrar o Oriente, aqueles temperos fortes e os deliciosos Kebab. Fui a um almoço com cachupa no Alfama. E dei-me por espantado quando ouvia nos machimbombos – custa-me chamá-los autocarros – e no metro, jovens a dizer bué, bué, bué. Lisboa bate bué. Bué fixe. Maningue giro. Maputo my love.


Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

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