Para muitos, poderá parecer apenas mais uma aquisição institucional no quadro de renovação de uma coleção pública. Para nós, significa muito mais do que isso. É um acontecimento que carrega um peso simbólico, político e territorial difícil de ignorar. Fruto da curadoria do Vhils e Carla Cardoso, e do convite de Marcelo Rebelo de Sousa e do Museu da Presidência da República, uma obra do coletivo Unidigrazz passou a integrar o acervo do Museu da Presidência e encontra-se agora exposta na Sala do Conselho de Estado, no Palácio de Belém.
O coletivo Unidigrazz nasceu em Mem Martins, na Linha de Sintra, em 2018, a partir de um território que durante décadas foi visto de fora através de estigmas, simplificações e ausências. Um território profundamente vivo, denso, diverso e criativo, mas onde o investimento estrutural e continuado do Estado na criação artística visual e na programação cultural foi, durante os últimos anos, insuficiente ou inexistente. Falamos de um lugar onde a cultura raramente foi tratada como prioridade pública, e onde, ainda assim, ela nunca deixou de existir.
Existiu nas garagens, nos sótãos, nas paredes, nas ruas, nos encontros entre comunidades locais, na urgência de criar alguma coisa a partir do pouco que havia. Existiu como prática de resistência, como espaço de pertença, como linguagem própria.
É dessa realidade que o coletivo Unidigrazz emerge. Não de uma escola formal de artes, não de um circuito tradicional de legitimação, mas de uma experiência comum de território, de periferia e de criação coletiva. Por isso, vermos hoje uma obra do coletivo Unidigrazz entrar num dos espaços institucionais mais simbólicos do país tem um significado que ultrapassa largamente a peça em si.
Unidigrazz: a história de uma revolução artística em Mem Martins, contra a precariedade
Não está em causa somente um reconhecimento artístico. Trata-se de deslocação simbólica. Trata-se de fazer entrar no centro político e institucional do país referências visuais, códigos, memórias e experiências que nasceram longe desses centros de decisão. Trata-se de afirmar que os territórios periféricos também produzem pensamento, linguagem estética, visão crítica e património contemporâneo.
Há qualquer coisa de profundamente revelador neste gesto. Porque ele expõe, ao mesmo tempo, uma possibilidade e uma contradição. A possibilidade de uma maior abertura institucional a outros imaginários e a outras narrativas. Mas também a contradição estrutural de um país em que os artistas podem ser reconhecidos ao mais alto nível nacional e continuar a ser pouco compreendidos, pouco apoiados ou até postos em causa nos seus próprios territórios.
Essa é uma das grandes dicotomias culturais portuguesas: por vezes, num caso concreto como o coletivo Unidigrazz, no qual entrou simbolicamente no Palácio de Belém mas não é reconhecido como parte integrante da identidade cultural do lugar onde se cresceu. Essa contradição não é um detalhe.
Diz muito sobre a forma como a cultura continua a ser distribuída, legitimada e territorializada em Portugal. Diz muito sobre quem tem o poder de nomear o que conta como cultura, o que merece ser preservado, o que pode ser visto como património e o que continua a ser tratado como expressão menor, marginal ou informal.
Durante muito tempo, os territórios como Mem Martins foram mais associados a problemas sociais do que à sua potência cultural. E, no entanto, é precisamente nesses territórios que se constroem linguagens contemporâneas decisivas para pensar o país de hoje. O percurso do coletivo Unidigrazz mostra isso de forma clara. O coletivo representa mais do que uma prática artística. Representa também uma forma de produzir cultura a partir da experiência periférica, recusando a ideia de que a criação legítima acontece apenas nos centros tradicionais, nos circuitos consagrados ou nos espaços historicamente reconhecidos como culturais. O que o coletivo tem vindo a afirmar é que os bairros, as margens, as linhas suburbanas, os contextos populares não são apenas lugares onde a cultura chega: são lugares onde a cultura nasce, se reinventa e ganha novas formas.
Ao longo dos últimos anos, essa experiência ajudou-me também a perceber que a cultura pode ser muito mais do que produção artística ou programação de eventos. Pode ser uma ferramenta concreta de transformação do território. Pode ser uma prática de reorganização simbólica do espaço. Pode abrir brechas nas hierarquias sociais e culturais que definem quem pode ocupar determinados lugares, quem pode falar, quem pode criar, quem pode ser visto e reconhecido. É por isso que esta presença no Palácio de Belém tem um valor que ultrapassa o plano simbólico. Ela também convoca reflexão.
Obriga-nos a perguntar: o que significa reconhecer artisticamente um coletivo oriundo da periferia sem que exista, em muitos casos, um investimento proporcional nos contextos que tornaram esse coletivo possível?
O que significa acolher no espaço simbólico do Estado obras que nascem da periferia, se os próprios territórios periféricos continuam a enfrentar fragilidades de infraestruturas culturais, falta de financiamento continuado, escassez de políticas públicas de proximidade e uma persistente subvalorização das práticas culturais locais?
Estas perguntas não diminuem a importância do momento. Pelo contrário. Tornam-no mais relevante.
Porque obrigam a inscrevê-lo numa discussão maior, o que está em causa vai muito além da consagração de uma obra ou de um coletivo. É a possibilidade de reconfigurar o mapa cultural do país, reconhecendo que há produção artística, pensamento crítico e criação contemporânea de enorme relevância a emergir fora dos centros habituais de consagração.
A entrada de uma obra do coletivo Unidigrazz no acervo do Museu da Presidência da República é, nesse sentido, um gesto com alcance histórico e político.
Não porque resolva as assimetrias existentes, mas porque as torna visíveis. Não porque encerre uma luta, mas porque a torna mais legível. É a história a ser escrita, sim, mas também a história a pedir continuidade. Porque a verdadeira transformação não acontece apenas quando a periferia entra simbolicamente no centro. Acontece quando os centros de decisão passam finalmente a reconhecer que a produção cultural dos territórios periféricos não é exceção, nem curiosidade, nem nota de rodapé: é parte constitutiva da cultura contemporânea portuguesa.
É também uma imagem forte do país que precisamos de continuar a construir: um país onde novos corpos, novas vozes, novas estéticas e novas experiências possam habitar plenamente os espaços de representação, memória e decisão. Um país onde a cultura não seja pensada a partir de um centro que observa as margens, mas a partir de um campo plural, onde diferentes territórios produzem sentidos, formas e futuros.
De Mem Martins ao Conselho de Estado, não vai apenas uma obra. Vai um percurso coletivo, uma experiência territorial e uma reivindicação. Vai a prova de que os imaginários produzidos na periferia têm lugar nos espaços mais simbólicos do país. E vai, acima de tudo, a afirmação de que a história cultural contemporânea portuguesa ainda está a ser escrita, e que essa escrita será sempre quando incluir plenamente os territórios e as pessoas que durante demasiado tempo ficaram de fora.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Excelente artigo que dificilmente poderia ser publicado na Mosca do DL (de que se fala noutro artigo da Mensagem de hoje) porque seria cortado pela censura, ou, espera-se que não, pela que nos espera nos tempos futuros…