Nesta sala de aula da Universidade Lusófona, o silêncio não é sinal de exame, mas de respeito pelo ecrã. “Esta sala não foi pensada para o público”, começa a contar Filipe Vale. “Foi pensada para dentro.” O que de manhã serve para ensinar montagem e som a futuros realizadores, a partir da tarde transforma-se num dos refúgios mais vibrantes do cinema independente em Lisboa: no Cinema Fernando Lopes, no Campo Grande, são os alunos que cortam os bilhetes e ligam os projetores, provando que a melhor forma de estudar cinema é partilhá-lo com a cidade.
Foi construído para responder a uma necessidade interna do Departamento de Cinema e Arte dos Media da instituição de ensino, onde Filipe Vale é professor – mais especificamente nas áreas de montagem, pós-produção e linguagem cinematográfica. O espaço foi desenhado para os alunos, para que pudessem ver, em condições dignas de projeção e som, os filmes que produzem ao longo do curso.
A abertura ao público veio depois. E graças também aos próprios alunos, eles que asseguram a bilheteira e dão início às projeções. São chamados “monitores“. Trabalham em parceira com a associação Cinetoscópio, responsável pela programação, para quem o Cinema Fernando Lopes se tornou num dos principais meios de promoção do cinema independente em Lisboa.
Um cinema movido por propósito, não pela competição
Saímos da penumbra acústica da sala e continuamos a conversa na pequena bilheteira. Filipe junta-se a Cátia Sousa e Luís Apolinário, sentados debaixo dos cartazes dos filmes em exibição nessa semana. Dentro da sala, o documentário Orwell 2+2=5 começa a rodar para uma espectadora solitária.

“Todos os filmes que estão aqui têm um propósito”, diz Cátia Sousa, responsável pela coordenação e produção do Cinetoscópio e curadora da programação do cinema. A programação do Fernando Lopes é principalmente art house, autoral e 70% dos filmes são exibidos em estreia. Esta sala é também acolhedora de uma centena de sessões especiais por anos, acompanhadas por debates com jornalistas, especialistas e ativistas: nesta sala o cinema não se esgota no ecrã.
“Com os poucos espaços de programação que temos, tentamos fazer o máximo. Procuramos sempre proteger os filmes porque, acima de tudo, somos cinéfilos e temos um enorme respeito pelo cinema, pelos filmes, pelo trabalho dos realizadores e das equipas de produção, e pelos festivais que levam esta arte pelo mundo.”
Cátia Sousa
De facto, a lógica do Cinema Fernando Lopes não é competir com os grandes cinemas dos centros comerciais, por exemplos, mas antes colaborar. Criar uma identidade própria, fazer com que o público saiba que tipo de filmes encontrará nesta sala, complementar a cidade e a oferta cinematográfica da capital. Com um objetivo comum a todas as salas: atrair espectadores num contexto de desinteresse generalizado por esta arte, especialmente por parte das gerações mais jovens.
“Eu continuo a achar que o cinema tem qualquer coisa para dar à humanidade. Ainda tem. O quê… não faço a mínima ideia”, diz Luís Apolinário, um dos três fundadores do Cinetoscópio, representante da Gambito.

Um cinema para jovens, na época dos algoritmos
É inevitável perguntar qual é o papel do cinema no tempo das séries, do streaming e do consumo fragmentado, muitas vezes empurrado por algoritmos que moldam o que vemos.
Lembre o que foi contado nesta reportagem da Mensagem sobre a resistência dos cinemas independentes: em 2025, o setor registou uma quebra de 8,2% de espectadores em relação ao ano anterior. Se excluirmos os anos de pandemia, foi o número mais baixo do século, e o pior registo de receitas desde 1996.
Ir ver um filme é um compromisso pontual, um gesto deliberado ao qual muitas pessoas já não estão habituadas. Mas o Cinetoscópio e o Cinema Fernando Lopes estão a tentar devolver centralidade à experiência de sala, criando uma experiência coletiva que depois se prolonga em conversa, nas sessões comentadas que transformam a projeção num ponto de partida para o debate.
“O cinema é cultura, é informação, é uma forma de viajar, de pensar diferente. E a sala é o sítio onde os filmes se encontram com as pessoas”, diz Cátia Sousa.
A maior batalha, no entanto, é atrair jovens entre os 18 e os 25 anos – a faixa etária mais desejada por quem trabalha em cinema e, simultaneamente, a mais difícil de conquistar. Um fenómeno que não se fecha numa única explicação: falta de dinheiro, falta de tempo ou, simplesmente, falta de interesse.
O Cinema Fernando Lopes seria, à partida, o espaço ideal para esse público: uma sala no meio dos maiores pólos universitários da cidade, onde o preço dos bilhetes estudantil está entre os mais baixos de Lisboa – 4,50 euros, e apenas 3 euros para os estudantes da Lusófona.
A programação é divulgada semanalmente nas redes internas, nas televisões da universidade e através do Moodle, e há sessões legendadas em inglês para responder à crescente comunidade internacional da cidade.
E, ainda assim, o desafio mantém-se.
Mas há limitações estruturais. O cinema não tem uma porta direta para a rua e quem não sabe que ele existe, “escondido” dentro do campus universitário, dificilmente o encontra. Além disso, ainda não há um bar, um espaço de convívio que atraia espectadores e prolongue a experiência para além da projeção. Essa ausência pesa para Filipe Vale, que recorda os anos 90: ir ao cinema e, depois, ficar para um café ou uma cerveja, discutir o filme, até discordar.
Recuperar essa dimensão faz parte dos planos futuros – criar não apenas uma sala de exibição, mas um verdadeiro ponto de encontro para os que já são amantes do cinema e para aqueles que o podem vir a ser.

Educar o amor pelo cinema começa em casa e continua na sala
No final, a questão vai além da localização ou do conforto. É uma questão de hábito. Ir ao cinema implica ficar sentado durante duas horas, partilhar silêncio com desconhecidos, aceitar uma narrativa que não pode ser pausada quando apetece voltar ao feed do Instagram. E esse gesto já não é automático numa época em que todos têm acesso a filmes a partir do conforto do próprio sofá.
Educar, na casa, nas escolhas ou universidades, para ir ao cinema torna-se, por isso, parte de um movimento de resistência.
Luís Apolinário, a este propósito, deixa uma sugestão quase provocatória: “Quando o meu filho, que tem 12 anos, está de castigo, obrigo-o a ver um filme.” Pode ser um clássico, pode ser um filme-catástrofe, pode até ser Rambo. O importante é o ritual, diz. Sentar. Ver do princípio ao fim. “Ele acaba sempre por gostar.”
Entretanto, esta sala sem porta para a rua continua a ser um espaço onde grandes amantes do cinema partilham a sua paixão com o público que já existe – e com aquele que ainda está por vir.
*Texto editado por Catarina Reis

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