
“Lisboa nos Arquivos” é uma série baseada nos fundos arquivísticos e bibliográficos existentes na cidade. Entre a abordagem historiográfica e a investigação jornalística, publicaremos todos os meses uma história da memória cultural de Lisboa, procurando assim contribuir para a sua biografia. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Na distante galáxia dos anos 80 era perfeitamente razoável abrir uma discoteca numa área residencial (tendência que ainda hoje mantém vestígios). A cartografia da noite não apresentava ainda zonas rigidamente demarcadas para os diferentes estratos da população noctívaga, pelo que a Metropolis apostou em atrair a clientela estudantil à rua Francisco Sanches, em Arroios.
A 13 de Março de 1988, domingo, o “Correio da Manhã” publicou uma reportagem sob o título “’Febrão de Sábado…’ incendiou Metropolis”. Um “oceano de juventude” estivera na discoteca no dia anterior para um concurso de mini-saias, do qual saiu vencedora uma Paula Cristina, de 18 anos. “Portugal tem as raparigas mais jeitosas do Mundo e arredores. Só visto”, escrevia o jornalista Seia de Matos num texto ilustrado com duas fotografias que mostravam Paula Cristina a ser entrevistada por Serenella Andrade e um grupo de jovens alinhadas, com as respectivas mini-saias, evidentemente. Ao concurso seguiram-se as actuações de Adelaide Ferreira, da Banda Sucesso e dos Mler If Dada. Houve ainda passatempos e sorteio de bilhetes para a Metropolis.
O que é que isto tinha a ver com a promoção da leitura e o consumo de informação radiofónica e televisiva? Tudo, explicou Seia de Matos nos dois últimos parágrafos. “Como se sabe o ‘Febrão de Sábado à tarde’, patrocinado pelo Correio da Manhã, decorre do programa de actividades nacionais do projecto ‘Ler jornais e saber o país é viver mais’, que visa ensinar os jovens a ler mais, a ouvir rádio e a ver televisão.” Ninguém diria, mas o jornalista quis, e bem, esclarecer os leitores sobre os verdadeiros e pedagógicos fins daquele “Febrão” de mini-saias. “Na prática”, continuava, “pretende-se incentivar a realização de iniciativas culturais nas escolas preparatórias, as quais passam a ter o adequado tratamento nos órgãos de comunicação social. Este II ‘Febrão’ culminou, nestes termos, um trabalho desenvolvido por cinquenta turmas dos primeiro e segundo anos da Escola Preparatória de Aveiro sobre o tema ‘Os Moliceiros’, que, aliás, é o título do jornal daquele estabelecimento de ensino.” É provável que o leitor tenha agora ficado um pouco mais baralhado. Mas Seia de Matos terminou aqui o texto, acrescentando apenas uma linha para garantir que “para o mês que vem vai haver mais festa”.



Um dos originais das pranchas de BD, que tinha textos de Abílio Marques Pinto. Em 1984, durante a organização do projecto, o Conselho de Imprensa entendeu que as pequenas histórias poderiam ser mais eficazes se fossem afirmativas e positivas. O espólio do Conselho de Imprensa foi incorporado no Arquivo Nacional Torre do Tombo em 2001, procedente da Assembleia da República. É composto por 274 caixas com documentos impressos e manuscritos, bobines, provas tipográficas e cassetes.
A ideia inovadora de promover a literacia mediática através de concursos de mini-saias tinha começado a fazer caminho cerca de um mês antes, em Moscavide. Na tarde de 7 de Fevereiro, a discoteca Stop recebeu mais um “Febrão”, tendo novamente Serenella Andrade como anfitriã. As mini-saias concorrentes puseram “muitos olhos a brilhar…de inveja”, noticiava o “Correio de Manhã” num texto não assinado; tocou a fanfarra de Moscavide e depois os La Valise, os Tosta Mista e a cantora Cândida Branca Flor. Serenella fez ainda breves entrevistas a Tim, voz do Xutos & Pontapés, e a Diamantino, jogador do Benfica. Pelo meio, lá surgia uma referência à “iniciativa cultural”: “um dos elementos da organização”, não identificado, dissera ao jornal que estavam “interessadas” no projecto “mais de 80 escolas” em todo o país. Foi mais ou menos por esta altura que o Conselho de Imprensa ficou assustado.


Maria Barroso, “patrono” sem convite
Em 1988, o Conselho de Imprensa (CI) tinha já mais de uma década de existência – criado pela Lei da Imprensa em 1975, sob a tutela do Ministério da Comunicação Social, era um órgão regulador cuja composição foi mudando ao longo dos anos. Em finais dos anos 80 já não integrava elementos do Movimento das Forças Armadas, por exemplo. Presidido por um juiz nomeado pelo Conselho Superior de Magistratura (desembargador Jorge Mendonça Torres), era composto por jornalistas, administradores de empresas de comunicação, representantes da “opinião pública” e pessoas “de reconhecido mérito”, escolhidas pela Assembleia da República.
Quando o CI leu nos jornais que existia uma campanha denominada “Ler jornais e saber o país é viver mais”, decorria desde o ano anterior, 1987, o programa nacional “Ler jornais é saber mais”, motivado por uma realidade que ainda perdura. A situação daquela era pré-Internet não divergia muito da actual: falta de hábitos de leitura da maioria da população, perda de leitores dos jornais devido a “mais sofisticados meios de comunicação audiovisual”, como se lê num documento do CI, desinvestimento das empresas, etc.
As semelhanças não se ficavam pelo mote do projecto (embora a corruptela soasse mais a panaceia quer prometia longevidade), partilhando ainda os mesmos destinatários: estudantes dos ensinos preparatório e secundário. O CI procurou saber quem eram os organizadores, mas apesar das “diligências já efectuadas” nada apurara, lê-se num ofício interno. Segundo o arquivo do CI, que está na Torre do Tombo, as “diligências” consistiram em apenas uma carta, remetida em finais de Fevereiro (quando tinham já começado os “Febrões” das mini-saias nas discotecas), para um endereço no Estoril onde estaria sediado um “Conselho Directivo Provisório”, solicitando uma reunião “urgente”. Não tiveram resposta. Por isso, e procurando evitar equívocos, o CI informou por escrito todas as instituições colaborantes, afirmando-se “estranho” ao novo projecto e sublinhando desconhecer os promotores. Nesta altura colaboravam com o “Ler jornais é saber mais” um grupo considerável de entidades, desde o Ministério da Educação e Cultura a vários rádios e jornais, passando pela TAP, Gulbenkian e Comissão Nacional da UNESCO, entre outras. Entretanto, a par das matinés nas discotecas da Grande Lisboa, o programa de autoria desconhecida ganhava terreno nos jornais. A 31 de Janeiro, “O Dia” noticiou que Maria Barroso era “patrono” da iniciativa, pela sua “postura como educadora”. Só ela provavelmente não sabia disto, apesar de o jornal garantir que já tinha sido “notificada desta decisão” e que na semana seguinte iria receber “em Belém” o “Conselho Directivo Provisório”.
Em nenhum momento da notícia eram nomeados os promotores, mas listavam-se “personalidades” que iriam participar em “diversas rubricas” (crê-se que não incluíam aqui os concursos de mini-saias): Diamantino, Óscar Lopes, Maluda, Vieira da Silva, Rui Veloso, Baptista-Bastos, Futre, Yolanda, Odete Santos, Eusébio, Mário Crespo. Do meio internacional anunciava-se a presença da jornalista italiana Oriana Fallaci, que deveria aterrar em Lisboa em meados de Março para um “frente-a-frente” com Margarida Marante. Mas a acção mais próxima, um “Febrão de Sábado à tarde”, estava marcada para a Stop de Moscavide. “Esta campanha está a alcançar um grande êxito junto dos estabelecimentos de ensino”, escrevia o “Correio da Manhã”.
“Conselho directivo provisório” e anónimo
Entre Fevereiro e Março, chegou ao CI um pequeno conjunto de fotocópias com uma “Declaração de Princípios” do “Ler jornais e saber o país é viver mais” – um documento destinado aos candidatos a patrocinadores. Entre os propósitos estava o “consumo crítico dos media junto das escolas”, promovendo “em zonas e escolas não tradicionalmente vocacionadas para a iniciativa e intervenções culturais a instalação de hábitos conducentes à alteração destas características” (primeiro “princípio” que demonstrava que a iliteracia era tão abrangente que também vitimara os próprios organizadores do projecto).
O público preferencial eram os estudantes das escolas preparatórias e secundárias de todo o país, mas os lugares de actuação não se limitavam aos estabelecimentos de ensino. Previa-se também usar “salas de espectáculos” para a apresentação do “Febrão” um evento que seria transmitido pela rádio e que teria “os seguintes ingredientes”: a actuação ao vivo de um artista ou grupo nacional “de impacto público”; uma “entrevista ao vivo de uma figura nacional de vários sectores sócio-profissionais, realizada por jornalistas profissionais”, “jogos, concursos e passatempos suscitadores do público assistente e principalmente dos ouvintes da rádio”. Só não se explicava de que forma tudo isto estimularia a leitura de jornais.
Títulos da imprensa escrita de distribuição nacional, jornalistas e professores tinham já aderido ao projecto e Maria Barroso apadrinhara o mesmo, lia-se no documento, mas não era viável dispensar a “componente comercial”, pelo que estava “aberto à colaboração de patrocinadores”. Nem todos eram bem-vindos, contudo. Os “princípios” estipulavam que não poderiam “provir de sectores da vida económica cuja actividade colida com a filosofia geral do Projecto”. A saber: negócios de tabacos, bebidas alcoólicas, “publicações pornográficas ou desmobilizadoras da intervenção cultural e do consumo crítico dos media”.
Por fim, explicava-se que o “Conselho Directivo Provisório” era um órgão “colegial”. E nada mais. A composição mantinha-se anónima.
O burlão do Woodstock em Setúbal
A revelação de quem estava por trás do “Conselho Directivo Provisório” aconteceu dois dias antes do concurso de mini-saias na discoteca Metropolis. Mas a descoberta parece não ter abalado ninguém: nem os patrocinadores, com o “Correio da Manhã” à cabeça, nem os convidados, nem o público entusiasta que ia ganhar hábitos de leitura numa discoteca.
A 11 de Março de 1988, o “Tal & Qual” publicou uma peça de página inteira que começava assim: “Caros leitores: se um dia lhes aparecer um tipo a tentar vender as pirâmides do Egipto, é muito provável que o homem seja Guilherme Silva Pereira, um dos mais criativos e descarados burlões portugueses”. Silva Pereira surgia numa fotografia, pouco nítida, tirada num jantar organizado por um italiano que dizia ter comprado o título de chefe da Casa de Bragança e tinha aspirações reais.
Segundo o jornal, Silva Pereira tinha “várias vidas” (jornalista, advogado, professor, político, empresário e sabe-se lá que mais) e uma forte predilecção por certos alvos (jornalistas e figuras televisivas). Era já conhecido dos meios policial e judicial e cumprira penas de prisão: entre outras façanhas, organizara em 1981 um “Woodstock” em Setúbal e abalara com o dinheiro da bilheteira (prática que repetiu, aliás, em vários locais), e investia com frequência no segmento das burlas com a venda de casas e terrenos.
Em 1987, ano em que o CI lançou a campanha nacional “Ler jornais é saber mais”, decidiu apostar também no incentivo à leitura e logo nos primeiros meses de 1988 lançou o projecto “Ler jornais e saber o país é viver mais”, incorporando discotecas e concursos de mini-saias nos planos de competências para uma cidadania informada e crítica. Era uma ideia demasiado revolucionária para prosseguir durante muito mais tempo, embora esta história não tenha um fim datado. Foi suspensa algures em 1988 porque havia coisas mais produtivas do que estimular hábitos de leitura.
FONTES
ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO, Conselho de Imprensa, Conselho de Imprensa, caixas 193 (maço 1), 194 (maço 1) e 200 (maços 17 a 21).
FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES E MARIA BARROSO, Casa Comum, Diário de Lisboa, Maio de 1988.
A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria José Oliveira
Jornalista freelancer e doutorada em História Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. Colabora regularmente com os jornais PÚBLICO e Expresso e faz investigação para cinema e televisão. O seu primeiro livro foi “Prisioneiros Portugueses na I Guerra Mundial” (Saída de Emergência). Nasceu na Figueira da Foz, vive em Alfama, e quando anda na rua olha para as fachadas dos prédios.

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