Meninos e meninas, eu vi, eu estava lá. Vi com estes olhos que o forno há de cremar, o bebé despontar para a vida, nascer como se deve, saudável, vigoroso e feliz, cheio de energia para ganhar o mundo que se abria diante dos seus olhos despertos, olhos espertos, o coração a bater ligeiro, tum, tum, tum, baticum, tum, tum.

Não, não era o pai, era mais um padrinho que veio de longe, do outro lado do oceano, singrando os mares como os piratas dos livros de história, aquele tio meio torto das ceias de natal, que fala demais, exagera nos copos e nos feitos, que as crianças adoram e os adultos toleram, afinal é um tipo engraçado, boa onda, boa praça, que não faz mal a ninguém.

Mas ia dizendo, estava lá quando a Mensagem nasceu. Estava lá antes disso, meses antes, quando foi concebida, sendo gestada, ganhando forma para ganhar a vida. Estava lá nas primeiras imagens, o ultrassom dos designers a revelarem os primeiros contornos, a logomarca de nascença, o brilho na íris do ecrã, os braços fortes e os pés prontos para ir à estrada.

Parte da equipa fundadora da Mensagem de Lisboa, em 2020: (da esquerda para a direita) Catarina Reis, Catarina Carvalho, Álvaro Filho, Frederico Raposo e Ferreira Fernandes.

A Mensagem nasceu como o nosso Macunaíma, já adulta, sabida que só, aos saltos para lá e pra cá, falando pelos cotovelos. Nasceu para mudar Lisboa, mudar o mundo, pois quando se fala da nossa aldeia, é do mundo que se está a falar, e a Mensagem já nasceu sabendo disso, que era filha de uma aldeia global, aldeia de muitas tribos, de filhos de todo lugar.

E logo reconheceu cada um deles como um irmão.

Diferente dos antigos jornais, rígidos, míopes e pretensiosos, isto é notícia, aquilo não é, eis a grande notícia!, a Mensagem nasceu iogue, flexível e leve, a notícia é o que a notícia é, independente do tamanho, pois a vida não se mede nas grandezas de costume, quilómetros e toneladas, pelo contrário, vai por mim, a vida está nos pequenos detalhes, na porta ao lado.

A vida, meu caro, minha cara, a notícia não está nos escritórios, nas coberturas de um arranha-céu, não a procure por lá como faziam os antigos, pois não a vai encontrar. A vida é na rua, a vida, a notícia, é rés-do-chão.

E a Mensagem, essa menina danada, também já nasceu andando e pôs logo o pé na estrada, em busca da vida, da notícia, onde a notícia está, ao dobrar a esquina, por trás da portinha acanhada, vivida por gente simples, sem gravata e sem birô, a vida é dona fulana, senhor ciclano, a notícia se lê nos pequenos gestos, pequenos mas de grandes feitos, isto é o que é. 

E para ler a vida, é preciso saber conversar com ela.

Sabem o cinema-mudo? Pois quando comecei como jornalista em Portugal fazia jornalismo-mudo, um Charles Chaplin da caneta e do bloquinho, se dar um pio, sem escrever uma palavra, pois para os antigos jornais um brasileiro pouco ou quase nada tinha a contribuir numa redação e se não atrapalhasse com o seu português ruim já era um favor.

Foi a Mensagem que me deu voz. 

Para ser justo, antes o querido O Corvo também teve a ousadia, mas era uma voz baixinha, um sussurro. Ainda no Diário de Notícias, com a então minha atual chefe, a visionária Catarina Carvalho, e depois com o diletante Leonídio, pronunciei minhas primeiras palavras, timidamente, pois o português do Brasil na grande imprensa de Portugal era ainda um pecado.

E na hora de pecar, todos sabem, a gente peca quase em silêncio.

Foi a Mensagem quem pôs o megafone na minha mão, fala menino, abre essa boca, berra, sem vergonha, sem medo de ser feliz. E só aí ouviu-se o português do Brasil nos textos, nos títulos, nas manchetes, o doce português tropical, irreverente, gramaticalmente rebelde, dançando com os pronomes, sambando nas concordâncias, reinventando Camões.

Só aí, meu filho, minha filha, o portugês do Brasil virou notícia.

Aí a Mensagem não parou mais, dando voz da lindeza do criolo aos mistérios do chinês. 

Apesar de pequena, na redação da Mensagem sempre coube o mundo e por lá passaram os olhos e os afetos de jornalistas não só do Brasil, mas angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos, guineenses, neerlandeses, romenos, italianos, letãos, afegãos, irlandeses, ingleses e norte-americanos. 

Todos eles, independente do local de nascimento, desde sempre lisboetas da gema.

Olhos e afetos do mundo que nos ajudaram nestes cinco anos a conversar com esse mundo que é Lisboa, pois para falar com a verdadeira Lisboa, a Lisboa rés-do-chão, onde a notícia vive e caminha à espera de contar suas histórias, para conversar com Lisboa o português já só não basta e talvez nunca tenha bastado.

Para falar com Lisboa, essa amada Babel, é preciso cada vez mais falar todas as línguas do mundo. E a Mensagem, essa criança especial, há cinco anos tem sido a voz dessa Lisboa.

Parabéns, coisa linda do tio.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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