Foto: Rita Ansone

Em dia de Feira da Ladra, de frente para o Panteão Nacional, Bruno Machado, 50 anos, espera-nos à porta da loja número 20 no Mercado de Santa Clara. Estar por aqui faz parte de uma rotina que, espera, não se prolongará por muito mais tempo. Arquiteto de formação, à frente desta pequena loja de cerâmicas desde 2017, Bruno está cansado: decidiu que estava na hora de tratar do trespasse… e fazer dele um gesto de amor por Lisboa.

Anos antes, em 2012, Bruno estava de visita à Feira da Ladra quando se lembrou que poderia pegar na “tralha” que tinha numa casa que na Ericeira e também ele vender ali. Fê-lo sem imaginar que estava já a alimentar o espírito de empreendedorismo dele, que não tardaria muito a tornar-se coisa séria (e o traria aqui a esta loja, hoje). Então, nesse ano, passou de visitante a feirante: “Foi um sucesso. Vendi 80 camisas num dia e, durante quase um ano, consegui vender tudo o que tinha na garagem”.

Foi na Feira da Ladra que Bruno Machado semeou o que seria hoje o seu negócio no Mercado de Santa Clara. Foto: Rita Ansone

Depois, uma nova obsessão: andava de olho na atenção dada por Joana Vasconcelos à louça das Caldas da Rainha. “Durante a semana, peguei no carro, fui até lá e comecei a perguntar nas lojinhas ‘onde é que é a fábrica?’.” O que as fábricas do Oeste desperdiçavam tornou-se o negócio de Bruno, ao qual juntou peças desenhadas por ele. Bruno montou-o nesta loja em 2017, no Mercado de Santa Clara, após ter ganho um concurso público – é a Junta de Freguesia de São Vicente quem detém a gestão do espaço, e Bruno a licença de utilização por 450 euros mensais.

Chamou-lhe “Mercado de Coisas & Loiças“. Porque às cerâmicas seguiram-se casacos de pele em segunda mão que importava da Polónia. “Às vezes vinha um lote de mil casacos”, conta, interrompido por um estrangeiro que vem disposto a regatear o preço de cinco peixes em cerâmica.

E, mais recentemente, Bruno e a sua loja tornaram-se protagonistas de algo insólito.

Trespassar uma loja em Lisboa pode ser um gesto de amor pela cidade?

“Leiam bem o anúncio” – o alerta chegou de uma leitora à equipa da Mensagem. Era a loja azul de 37 m2 e toldo arco-íris de Bruno, agora mais vazia do que nas fotografias, num anúncio de trespasse do negócio. Há cinco meses, Bruno Machado decidiu deixar a loja e dedicar-se a tempo inteiro a um projeto antigo: a remodelação de imóveis.

“Com a pandemia, intensifiquei a compra de imóveis para remodelar e surgiu a oportunidade de comprar um casarão em Portalegre e estou a fazer remodelações para quando estiver pronto ser um Boutique Hotel. Atualmente moro em Portalegre.” E continua: “Sempre vivi na cidade. Ia passar os fins de semana à Ericeira. Já estou farto desta azáfama. Dá-me muito mais satisfação Portalegre. Tenho calos nas mãos, mas é da horta.”

O trespasse, previsto no Regulamento Geral dos Mercados de Lisboa, é a forma de congelar as condições obtidas em concurso público na aquisição da loja – inclusive, à partida, o ramo de atividade.

A proposta inicial de Bruno era de 250 mil euros. O anúncio foi parar às plataformas digitais, como o Idealista, e não faltaram propostas. Mas o problema era outro: “os projetos não me interessavam. Lisboa já está muito descaracterizada…E, sinceramente, não queria que o edifício do mercado ficasse descaracterizado”.

Bruno gostava de ver nascer aqui uma loja mais tradicional, não mais um ponto turístico para comprar souvenirs, por exemplo. Mesmo que, teoricamente, um negócio deste género fosse chumbado pela Junta de Freguesia de São Vicente e a CML por não se enquadrar. Ainda que a fronteira entre a cerâmica de autor e o souvenir industrial possa ser apenas uma questão de semântica jurídica – contactámos a autarquia e a Junta de Freguesia de São Vicente para prestarem esclarecimentos sobre o assunto, mas sem sucesso.

“Não necessito da parte financeira para concretizar o meu projeto, porque já vendi a minha casa de Lisboa e da Ericeira”. Então, Bruno Machado arriscou: e se pusesse a loja a 1 euro? Que tipo de propostas surgiriam?

A loja de cerâmicas para trespasse, no Mercado de Santa Clara, Lisboa.

Em Lisboa, o setor dos souvenirs é dos poucos que consegue, atualmente, absorver rendas elevadas em zonas históricas – com valores muitas vezes proibitivos para o pequeno artesão. Aliás, segundo dados do programa Lojas com História, a cidade tem perdido o seu tecido comercial tradicional precisamente nesta disparidade de forças: onde um negócio de bairro vê um custo insustentável, uma loja de conveniência turística vê um investimento pago em poucos meses.

“Claro que não vou vender a 1 euro ou a 2”, diz prontamente Bruno. Este é apenas um ponto de partida simbólico. Ainda assim, surgem interessados com propostas inusitadas: “Indostânicos, que já tinham vindo cá, disseram-me: ‘mande-me o NIB para fazer a transferência, pago 1,50’”.

“Independentemente do valor a que venha a ser vendido o trespasse, dava-me uma satisfação plena se a pessoa que viesse para cá conseguisse rentabilizar e conseguisse recuperar o investimento, por exemplo, no primeiro ano.” A loja tem licença de ocupação para venda de variados artigos, mas não para restauração ou venda de comida e bebidas.

Entre cabides despidos, peixes, andorinhas e outros objetos (ainda) natalícios de cerâmica, os clientes entram e saem para um último “adeus”. “Não gosto de ver a loja assim”, confessa.

O próximo guardião da loja azul será conhecido no final de fevereiro – e o preço, esse, será pago em fidelidade à história do bairro.

Bruno Machado, em jeito de despedida da sua loja, no Mercado de Santa Clara, Lisboa. Foto: Rita Ansone

Gonçalo da Silva Amaral

Nascido em Lisboa, mas criado na Margem Sul do Tejo, apaixonou-se por contar histórias na Avenida de Berna ao estudar Jornalismo. Veio para a Mensagem de Lisboa fazer o que mais gosta: conhecer e contar as histórias.

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